É necessário dizer que Do Começo ao Fim tem alguns pontos positivos – além do óbvio: a sublinhável atuação de Júlia Lemmertz, que se destaca em todas as suas cenas. Os acertos são: a não-explicação para uma determinada briga na escola, a economia de tempo ao interligar dois funerais separados por um período de 15 anos, e também a hesitação do personagem Francisco ao tentar explicar qual é a sua ligação com Tomás, seu meio-irmão caçula com quem vive um relacionamento incestuoso.

Este último detalhe, em particular, merece destaque por ser o único momento do longa em que um dos irmãos parece encontrar algum dúvida sobre sua relação – mesmo que de forma tão sutil e até inconsciente – revelando que a intimidade, inicialmente fraternal, foi crescendo de forma tão lenta e natural que se tornou física sem que os rapazes se dessem conta, o que explica a falta de conflitos internos – eles não conseguem impor limites a sua forma de amar, e sexo acaba sendo apenas mais uma forma de expressar esse amor. Assim, a hesitação de Francisco reflete a uma falta de identificação, já que, apesar da figura de “irmão”, é impossível hoje determinar um título para a ligação entre eles.
Mas existe, ainda, um último ponto positivo a ser mencionado: a beleza física incontestável de João Gabriel Vasconcelos e Rafael Cardoso, os dois atores que interpretam os protagonistas Francisco e Thomás. Uma beleza tão evidente que, além de ser o único elemento que realmente sustenta o longa-metragem, acaba endeusada pelo diretor e roteirista Aluisio Abranches, que não se satisfaz apenas em exibir constantemente a nudez física dos personagens e acaba apostando em duas cenas em que a coreografia chama mais atenção do que os sentimentos e o contexto.
E é aqui que se torna inevitável falar dos inúmeros problemas de Do Começo ao Fim, já que o experiente Abranches, responsável pelo maravilhoso As Três Marias, parece tomar todas as decisões erradas para conduzir sua narrativa, cometendo equívocos óbvios e gravíssimos que seriam imperdoáveis até mesmo para um mero estudante de Cinema em seu primeiro ano – como uma trilha sonora esquemática, que surge dramática sempre que alguém faz algum comentário sobre a intimidade excessiva dos irmãos; ou os fade outs excessivos que incomodam até os espectadores menos exigentes; e até mesmo um segundo conflito que surge repentinamente no terceiro ato, trazendo dois personagens que não acrescentam nada a história e que servem como desculpa para uma ou duas trapaças do diretor.
Sem falar nas tais cenas “coreografadas”. A primeira, por exemplo, mostra também o primeiro encontro sexual que testemunhamos entre Francisco e Thomás. Uma cena visualmente encantadora, porém deslocada por surgir logo após o funeral da mãe deles e ainda sem qualquer referência temporal. Os irmãos se despem emocional e fisicamente (olha o clichê), buscando, ao que parece, consolo pelo luto (mais clichê, sexo depois de enterro!). Mas nós jamais compreendemos quanto tempo após o funeral este momento acontece, e nem mesmo quanto tempo se passa após a despedida de outros dois personagens que vivem na casa da família. Quanto a segunda cena, posso resumir como o único momento realmente constrangedor da produção, trazendo os irmãos nus, envoltos em neblina, dançando tango em um salão de baile completamente vazio.
Da mesma forma, Abranches parece sequer refletir sobre escolhas narrativas essenciais para a condução da história, como os eventuais comentários em off feitos por Thomás – uma opção estranha, já que, assim que os irmãos se separam, o personagem destacado é Francisco, o que nos leva a testemunhar episódios que, tecnicamente, o narrador oficial – Thomás – jamais toma conhecimento enquanto a história ainda é contada – o que nos faz pensar que mais uma ou duas horas de história ficaram para trás na ilha de edição. E pensando no final da história, o que dizer daquele final tão súbito, com nada resolvido, que mais parece um final de episódio de novela das oito em plena quarta-feira?
Mas os problemas não param por ai. Indo do fim ao começo da história (trocadilho legal, não é?), o filme nos brinda com a primeira narração em off já na abertura, mostrando o primeiro encontro dos irmãos após o nascimento de Thomás. Com um discurso bonitinho mas pedestre sobre livre-arbítrio e sem explicar qualquer razão para o recém-nascido ter ficado duas semanas internado, o texto conta que este foi o tempo que Thomás levou para abrir os olhos, e que isto só aconteceu ao ver Francisco pela primeira vez. Porém, a cena mostra Francisco visitando Thomás ainda no berçário. E ainda focando no primeiro ato do filme, como Do Começo ao Fim conta a história de um relacionamento sexual que já dava indícios ainda na infância dos envolvidos, Abranches parece temer alguma repercussão Legal contra o longa, o que o leva a um impasse: ao mostrar os dois irmãos tomando banhos juntos, o diretor se vê obrigado a revelar que pelo menos um deles não está completamente nu, o que, é claro, destoa da intimidade dos garotos e até mesmo da criação liberal dos pais deles – aliás, vai contra o próprio cotidiano real, pois eu nunca vi duas crianças vestidas tomando banho juntas!
Contudo, nenhuma falha ou mero deslize desta produção se compara ao grave erro que copia de outra obra feita para o público homossexual – O Terceiro Travesseiro, um livro publicado há mais de dez anos e que é ícone para as duas últimas gerações gays. Mas qual é o erro: fazer um filme (ou livro) que só poderá ser apreciado pelos homossexuais.
Quando O 3º Travesseiro foi publicado, seu autor, Nelson Luiz de Carvalho, declarou que o livro era indicado “para todo segmento da sociedade” e que poderia “contribuir de forma positiva” para a conquista do respeito. Porém, o que faz Carvalho em sua obra? Narra uma belíssima história de amor embalada por sórdidas seqüências de sexo explícito, o que imediatamente limita o público alvo a adeptos de contos eróticos: gays; do sexo masculino. E nem preciso dizer que reduzindo o alcance da obra apenas a este público, ela perde qualquer relevância que poderia ter na luta pelo respeito “a que todo ser humano tem direito”.
E infelizmente, como eu já disse, Do Começo ao Fim comete o mesmo erro. Porém, de forma covarde, já que o livro de Carvalho não fazia concessões ao leitor, enquanto o filme de Abranches, além de colocar sunga nas crianças, limita o conteúdo adulto apenas a nudez dos protagonistas, sem exibir uma única cena de sexo que certamente agradaria o público alvo: homens gays. Assim, o mais novo filme de Aluisio Abranches, além de não servir sequer para simples entretenimento erótico, acaba se revelando não apenas uma obra terrivelmente medíocre, graças a sua direção amadora e seu roteiro repleto de furos, mas também constrangedora, limitada e irrelevante, incapaz de incitar qualquer tipo de discussão que possa enriquecer debates a respeito de leis e direitos para homossexuais.

O que pode explicar, tristemente, como mais da metade de um determinado público pode desejar ter o direito de discriminar tal minoria. Se nem mesmo os próprios interessados se dão o respeito, porque alguém que detesta bichas e “viados” deveria se preocupar com a dignidade que eles, como seres humanos, merecem?
