(O conto abaixo ainda está em sua primeira versão e, por isso, pode apresentar erros)
Lucas nasceu em 22 de junho de 1992, o dia mais frio do ano, a noite mais escura do ano. Sua mãe, Clarice, lhe deu à luz em baixo de uma ponte, sozinha, e amou seu filho imensamente, enquanto viveu. A mãe de Lucas foi encontrada morta ao amanhecer. Seu filho, ele não estava mais ali.
Clarice jamais foi identificada. Ninguém nunca soube que aquela mulher morta viera do interior do Rio Grande do Sul à procura do homem que a engravidara. No pôr-do-sol que precedeu aquela fria noite de junho, Clarice o encontrou. Ele, noivo e com a futura esposa grávida de dois meses, sentiu uma grande dor em sua alma ao pedir que Clarice mantivesse segredo sobre o bebê, garantindo que ele lhe pagaria uma gorda pensão… Inconformada com a frieza que enxergava no homem por quem se apaixonara, embora não soubesse o quanto ele se entristecia consigo mesmo, Clarice declarou entre lágrimas que iria embora e que ele nunca mais ouviria falar nela. E ele nunca mais ouviu.
Clarice caminhava sozinha e solitária pelas ruas da cidade, ela passava por uma alameda embaixo de uma ponte quando um homem a assaltou. Com o susto, ela entrou em trabalho de parto. O assaltante, desesperado com a conseqüência de seu desespero, pensou em ajuda-la, mas optou por fugir com sua bolsa e lamentar até o fim por sua covardia, um fim que chegaria exatos dezesseis anos depois, com uma redenção.
Mas ainda naquela noite fria de junho, uma certa senhora, de idade avançada e muito doente, tivera uma crise de dores e fizera sua neta sair no meio da noite para comprar-lhe remédios, mesmo que precisasse acordar o farmacêutico. A menina também se chamava Clarice.
No meio do caminho, ao atravessar uma ponte, Clarice ouviu um choro de criança e, ansiosa, acabou encontrando a fraca mulher com seu pequenino filho sujo, ensangüentado e gelado nos braços. Uma poça de sangue, muito maior do que o derramamento comum a um parto, marcava um circulo grande em volta dos dois. A mãe morreu com um sorriso assim que viu o sorriso piedoso da estranha que se agachava a sua frente, mas não antes de sussurrar um nome de menino. E, de seus braços já frouxos, o bebê foi recolhido.
Clarice voltou para casa imediatamente, mostrando a criança para a avó, que ficou tão perturbada e tão irritada, que acabou desmaiando, fazendo a neta pensar que havia morrido por causa do coração fraco. Assustada, Clarice correu porta afora com o bebê Lucas nos braços. Ela correu e correu, sentindo o frio penetrar seu corpo e uma tristeza dolorida invadir seu coração, pois ela amava sua avó. Por alguma razão sombria, porém, Clarice sabia que amava aquele bebê em seus braços e, por esta razão, a decisão que tomou a seguir foi a mais difícil que, embora ela não soubesse, ela jamais tomaria em toda a sua longa e melancólica vida.
Clarice abandonou Lucas. Ela o deixou nos braços de um médico que ela viu sair de seu carro, pronto para iniciar mais um plantão no hospital do bairro, e saiu correndo, antes que o homem pudesse chamar alguém que fosse atrás dela. A única coisa que Clarice disse naquele brevíssimo encontro, olhando nos olhos surpresos do médico, foi: “Lucas”. E então voltou para a casa, onde encontrou a avó gemendo no chão. Clarice cuidou dela, pedindo a Deus que aquele médico cuidasse bem de Lucas, assim como ela cuidaria daquela velha, uma senhora ranzinza e sofrida que apenas no leito de morte confessaria o quanto amava a neta e o quanto era agradecida por toda a sua dedicação.
No estacionamento do hospital, o homem demorou alguns instantes para perceber que aquela mulher não o conhecia e que “Lucas” se referia à criança, e não a ele. Pois o nome do médico também era Lucas.
Lucas correu para dentro do hospital, carregando o fraco e gelado garotinho, incapaz até mesmo de chorar, e, aos gritos, foi solicitando um ou outro serviço dos outros médicos, enfermeiros e assistentes de plantão. Poucos minutos depois, o bebê Lucas estava dentro de uma incubadora, recebendo luz, calor e leite. O médico Lucas, cardiologista, era um homem frio e solitário e, para a surpresa de todos, foi diariamente à maternidade para ver o garotinho. Mas ao final de duas semanas, quando este já estava fora de perigo e sendo encaminhado para assistência social, o médico se despediu dele com um leve carinho na testa e saiu de férias. Todos acreditaram que homem fosse se sensibilizar e pedir a adoção do garoto, mas o médico jamais voltou a procurar pela criança, limitando-se a um casual pedido de informação ao retornar das férias.
A esta altura, o pequeno Lucas já estava na maternidade da Casa de Santa Clara, uma instituição social comandada pela médica e Madre Superiora Anne, uma religiosa inglesa formada em medicina pediatra. Madre Dra. Anne era uma mulher dócil, bondosa e cheia de sabedoria, e cuidou pessoalmente do pequeno Lucas, assim como cuidara de seu pequeno e doente irmão caçula, de mesmo nome santo, que morrera ainda na inocência da infância há tantas décadas. Lucas cresceu forte e saudável, vendo na Madre Dra. Anne a imagem de mãe que ele não compreendia, apenas sentia, e ambos foram tão próximos quanto suas posições permitiam que fossem, até que a senhora, médica e mãe de Lucas, quebrou uma promessa e não foi ao seu quarto certa noite contar uma história. Lucas tinha três anos quando, sem se lembrar de como era perder uma mãe, chorou esta dor pela primeira vez.
A Casa de Santa Clara mudou após a morte de sua líder, mas não para pior. O cargo da Direção foi assumido por outra médica, Dra. Clara, assim como a santa. Uma mulher muito boa e inteligente, mas, diferentemente da santa, e de Anne, era atéia. Ela, porém, não recriminava as crenças religiosas das crianças, incentivando pequenos rituais que envolviam, por exemplo, Papai Noel e Coelhinho da Páscoa. E embora não permitisse Educação Religiosa nas aulas, não se importava que as crianças freqüentassem a missa. E com o tempo, as quinze crianças, meninos e meninas de várias idades, aos poucos foram dividindo espaço com garotos e garotas mais velhos, adolescentes e, embora elas não pudessem entender imediatamente, a verdade é que aquela mudança em particular moldaria e beneficiaria suas vidas até o fim. E, principalmente, permitiria que cada uma delas vivesse ali todo o tempo de sua juventude, até que finalmente tomariam para si suas próprias vidas.
Embora educado, inteligente e bondoso, repleto de amigos e amado por todos, Lucas crescia e vivia na renovada e reformulada casa como costumamos vivenciar férias numa casa de praia ou campo, sabendo que aquele não é nosso lar, sabendo que logo será apenas uma lembrança. Ele tentava explicar esse sentimento para si mesmo, alegando acreditar que apenas quando fosse adotado teria um lar definitivo. Mas mesmo que Lucas jamais tenha sido adotado, jamais tenha deixado de morar naquela casa, embora os anos se passassem sem trégua, sem calma e sem paradas, ele nunca deixou de sentir que sua casa, seu lar, estava em outro lugar. Mas Lucas nunca ansiou. Nunca reclamou. E viveu cada um de seus dias feliz, saudável, amoroso, apreciando aquela temporada de férias que durava todos os meses do ano, todos os anos da infância e, então, cada uma das fases de sua juventude.
E foi na juventude que Lucas começou a compreender sua vida, seus sentimentos de todos os tipos. Aos treze anos, ele pensou pela primeira vez no que faria quando, dali cinco anos, deixasse a Casa de Santa Clara: ele iria velejar. Mas, claro, ao longo dos anos, essa opinião e esse desejo mudariam diversas vezes, influenciados por idéias e histórias. Mas até que chegasse o dia de partir, com uma decisão firme finalmente tomada acelerando seu coração, Lucas sentiria muitas vezes o peito vibrando. E ainda aos treze anos, ele descobriria a paixão.