Apresentação.

8 08UTC Julho 08UTC 2009

Bem, todos sabemos que, apesar de ser uma coisa super clichê e super boba, é ainda assim, super necessário que nós nos apresentemos no nosso primeiro post!
Bem, eu sou um autor novo, aqui pelo Continuação., e por isso, acho que deveria começar por me apresentar adequadamente.

Bom, comecemos pelo começo: eu tenho um blog paralelo a esse (não, meu nome não é a parte mais importante!) E o tal blog se chama Onde as nuvens acabam… (é um nome super deprimente prum blog super feliz, não reparem). E por lá, eu tenho toda uma bagunça com os meus nomes, que eu fico alterando de assinatura, e volta e meia as pessoas não entendem mais grande coisa. Bom, verdade seja dita, não entendiam grande coisa. Mas agora, que eu coloquei um pequeno resumo de como são os nomes lá na coluna da esquerda, está tudo mais fácil para todo o mundo.
Mas não estou aqui para falar sobre o meu outro blog, mas sim para falar sobre:
1. Como eu vim parar aqui.
2. Quem caralhos sou eu, afinal.
Bom, já que uma coisa meio que é ligada na outra, vou responder às duas questões ao mesmo tempo:

Oi, eu sou o Mauro. (essa é a hora que todos à minha volta têm que dizer “Oi Mauro!”) e… eu acho que eu nunca comi um peixe.
(Leia-se: “Oi, eu sou o Mauro, tenho 16 anos e amo Procurando Nemo).
Eu ainda estudo e estou planejando ser um ator, no futuro. Certo, a parte interessante sobre a minha pessoa:
- Eu sou apaixonado por cinema, logo eu vou muito ao cinema. Indo muito ao cinema, eu acabei conhecendo o “Noitão do HSBC Belas Artes”, e ao ir nesse tal evento, eu comecei a participar ativamente (muito ativamente) da comunidade no Orkut. E de lá, eu conheci várias pessoas, entre elas o tal do Achilles de Leo, dono original deste bendito blog. Depois de começarmos a sair, e nos conhecermos bem melhor, acabou que eu fui chamado para ser o segundo autor deste.
E é isso que eu estou fazendo aqui. Caso vocês não gostarem do jeito que eu escrevi este post, desistam de continuar me lendo, porque, queiram vocês ou não, é assim que eu escrevo!

E bom, eu passarei aqui de vez em quando, falando coisas relativamente aleatórias! Não vou postar tanto quanto no Onde as nuvens acabam…, mas vou postar um pouquinho, ainda assim!

Espero que vocês gostemapontando eu!

 

Mauro Vilela Pietrobon

ps: um dos meus vícios de escritura é não pular linha pra parágrafo, espero que não incomode muito.


.Apenas o Fim. (Matheus Souza)

24 24UTC Junho 24UTC 2009

Apenas o Fim é um bom filme. Mas apenas bom.

Escrito e dirigido por Matheus Souza e realizado por alunos da PUC-Rio, o filme remete a outros longas que, por sua vez, já representavam interessantes experiências cinematográficas.

Se o roteiro subverte o conceito do único-encontro-de-um-casal, consagrado por Antes do Amanhecer, e narra o encontro-derradeiro de “Ele” e “Ela”, casal de namorados que está se separando subitamente (comentarei sobre os nomes mais tarde), é a cargo da direção que fica a maior parte das referências, nos levando a filmes como Elefante (o tour por uma instituição de ensino), Apenas Uma Vez (a câmera na mão, os “nomes” do casal e, por que não, o próprio título) e Corra, Lola, Corra… Sim, Apenas o Fim faz referência clara ao longa de Tom Tykwer, interrompendo a narrativa com flashbacks que sempre mostram o casal conversando – o que é mais do que natural já que a história concebida por Matheus Souza não passa de uma boa desculpa para citar (ou homenagear, dependendo do ponto de vista) os maiores clássicos das culturas pop e nerd.

No início da projeção, Ela aborda Ele abruptamente, informando que está de partida e que tem apenas uma única hora para conversar com ele, terminar o relacionamento e se despedir. E durante a hora e meia seguinte de projeção (o tempo é estendido pelos flashbacks), nossa grande dúvida é “o que a fez tomar esta decisão?”.

Independente do resultado ou da resposta, o fato é que este é o grande fio condutor da história, o principal elemento que prende nossa curiosidade, pois fica claro que o caminho escolhido por Ela só pode ser resultado de algo que muitos são incapazes de fazer: ousar ou desistir.

Infelizmente, porém, o roteiro de Matheus Souza ignora a possibilidade de explorar este elemento e parece acreditar demais na “genialidade” de seus diálogos, resumindo a narrativa a uma série de conversas onde o casal cita ou discute uma infindável herança da juventude dos anos 90-2000, desde Pokemón, Power Ranger ou boy band prediletos até shows históricos de grandes bandas de rock. O que, nem preciso dizer, data a produção e limita drasticamente o público-alvo.

Contudo, Souza acerta em cheio na escolha dos atores que interpretam o casal de protagonistas, Erika Mader e Gregório Duvivier, já que a química entre eles é perfeita e ainda corretamente contrastante: nos flashbacks, eles são um casal romântico e profundamente apaixonado, durante o passeio, estão mais distantes e prontos para “lavar a roupa suja”, o que não nos impede de enxergar ali os reflexos da paixão que eles ainda sentem e da dinâmica gostosa que sempre tiveram (a única ressalva é sobre Duvivier, que oscila demais entre a naturalidade e a clara intenção de fazer graça).

Enfraquecido pela interrupção excessivamente longa feita por dois personagens colegas de Ele (cenas que deveriam ter durado no máximo 30 segundos) e seriamente prejudicado pelas referências metalingüísticas (o casal passa por um set de gravação que conta a história… deles), o resultado é que Apenas o Fim termina sem mostrar a que veio, já que a despedida do casal jamais soa verdadeira ou definitiva, parecendo ser uma simples peça pregada por Ela (ou “joguinho”), e ainda falhando em não explicar as motivações da garota. Além de não funcionar sequer como romance, deixando de lado o alcance dramático de uma despedida em prol das piadas e diálogos nerds.

Da mesma forma, se o casal dramático do maravilhoso Apenas Uma Vez se torna ainda mais real graças ao fato de jamais conhecermos seus nomes, algo reforçado pelos créditos finais onde lemos apenas “Guy” e “Girl”, aqui o efeito não é o mesmo (principalmente porque, ao longo do filme, ouvimos o nome pelo menos do rapaz), pois as personalidades e histórias dos protagonistas são exclusivas demais para nos identificarmos plenamente.

O que é uma pena, pois não apenas Ele e Ela formam um casal realmente interessante, merecendo a chance de um “reencontro”, como também Matheus Souza revela-se um diretor tecnicamente competente, acertando em algumas composições de quadro e na coerografia em cena (como quando coloca Ela sozinha em meio a escombros de uma reforma, salientando sua fase de transição), embora falhe em nem sempre utilizar seus conhecimentos em favor da narrativa – como fica evidente na cena em que o casal é enquadrado na escadaria através de um bom plano plongé: o uso de câmera é atraente, mas não contribui para construir o sentimento da cena em questão e apenas chama a atenção para si. Ao contrário da gostosa trilha sonora de Pedro Carneiro, que é sutil e ao mesmo tempo marcante, sempre acentuando os melhores momentos da projeção.

Assim, Apenas o Fim é um esforço cinematográfico até respeitável, influenciado por obras maiores e melhores, mas que jamais alcança o mesmo impacto que elas. Ainda assim, é um bom filme, claramente feito com carinho e nostalgia e também intimidade, nos fazendo acreditar que, apesar do tradicional “este filme é uma obra de ficção…” durante os créditos finais, é na verdade uma grande homenagem não a filmes clássicos ou a saudades da juventude, mas sim a alguma paixão que se tornou relacionamento e foi vivida com simplicidade, cumplicidade e intensidade, mas que acabou, como muitas outras acabaram e muitas outras ainda irão.

E apenas isso parece ser o bastante para transformar um projeto repleto de defeitos em uma obra que, no final das contas, merece ser vista e agraciada.


HSBC Belas Artes

22 22UTC Junho 22UTC 2009

Espaço consagrado em São Paulo para o circuito cult cinematográfico, o HSBC Belas Artes oferece experiências ímpares para os amantes da Sétima Arte, incluindo um projeto que literalmente transforma os espectadores em “Cinéfilos de Carteirinha” (o vantajoso Cineclub) e os mensais Noitão e Encontro – noites especiais onde podemos, respectivamente, encarar uma maratona de filmes noite afora, pelo preço de um ingresso convencional e direito a um modesto café da manhã, ou assistir a uma sessão de filme nacional (ou co-produzido) e em seguida participar de um debate com alguns dos realizadores.

Neste último mês, participei pela primeira vez dos dois projetos noturnos.

No Encontro, mergulhei na mente solitária e confusa do ghost-writer José Costa no ótimo Budapeste, para em seguida ouvir diretamente de Leonardo Medeiros e Walter Carvalho suas impressões e experiências na realização do longa, uma série de comentários que enriquecem ainda mais a produção.

Já no último final de semana, enfrentei a fria noite paulistana pós-Dia dos Namorados com os bons A Onda e A Comunidade e o fraco Nathalie X.

E entre estes três longas (a noite ainda exibiu Tinha Que Ser Você e o filme-surpresa-inédito-pela-primeira-vez Paris, que não vi), não deixa de ser curioso constatar que o melhor deles é o absurdo A Comunidade, ricamente divertido e repleto de reviravoltas, ainda beneficiado por uma direção segura (não consegui ver o nome do diretor) que reconhece estar contanto uma história recheada de bizzarrices.

Em contrapartida, o bom A Onda não passa disso, um bom filme, mas que acredita ser muito melhor do que é na realidade, errando principalmente por desenvolver uma complexa experiência psicológica em um período muito pequeno dentro da história, o que destrói nossa identificação com a trama, e ainda caindo no equívoco de explicar certas cenas que seriam beneficiadas justamente pela sutileza, como quando três garotos são chamados de “gangue” por dois colegas anarquistas – além do final melodramático que poderia ter ficado de fora no corte final.

E então surge Nathalie X para encerrar a noite, um filme excessivamente carregado de diálogos, o que definitivamente não é um defeito quando o filme oferece um texto elegante (vide Closer, Antes do Põr-do-Sol), mas que aqui apenas constrange pela fracassada aura de sensualidade e sexualidade e que se torna ainda pior pelo final previsível desde o segundo ato. O que é uma pena, pois este poderia ser um bom filme sobre as consequências do sexo fora do casamento e a libertação de uma mulher tradicional.

O resultado é que meu primeiro Noitão foi uma experiência que fica entre média e boa, e que poderia ter sido claramente melhor caso os realizadores não tivessem decidido ignorar o forte tema da semana (Dia dos Namorados). Pois havia duas formas de oferecer uma noite perfeita: exibindo filmes todos românticos e interessantes, que prendessem a atenção dos casais e os solitários, ou então filmes amadores e irritantemente chatos do interior da Polônia… Seria a desculpa perfeita para esquecer o telão iluminado e passar seis horas inteiras se agarrando com uma companhia atraente.


Antes do Amanhecer (Richard Linklater)

22 22UTC Junho 22UTC 2009

(A resenha abaixo foi escrita para o Curso de Teoria e Linguagem Cinematográfica do Cinema Em Cena, ministrado pelo crítico e cineasta Pablo Villaça. O texto está intocado, ainda sem as correções apontadas pelo professor.)

Com o perdão da palavra, Celine é uma vaca. Mulher culta, inteligente, independente, nitidamente sensível à paixão, mas que faz questão de não parecer romântica. Onde, aliás, falha completamente, e exemplo disso é ela zombar do gesto romântico do rapaz que está conhecendo, embora se convença facilmente pelas palavras de uma charlatã, quando a mulher está claramente usando o método da leitura fria – que, confesso, não sei se era tão conhecido há quinze anos. Ou seja, uma não-romântica crédula? Impossível!

O rapaz? Bom, Jesse é só um moleque americano que atravessou o Atlântico para encontrar a garota que namorava à distancia, mas levou um fora. E então conheceu uma garota francesa atraente, culta, inteligente e, provavelmente, disposta a transar com ele. Perfeito para ele, não? Não. Ele quer – e muito – transar com a garota, mas isto não será o bastante porque ele é um… Romântico chorão que precisa se apaixonar por alguém.

Esta é uma das leituras que podem ser feitas do casal de Antes do Amanhecer, uma versão talvez injusta do casal que, surpreendentemente, considerando os dois parágrafos acima, é responsável por um dos poucos encontros absolutamente românticos que o cinema exibiu nas duas ultimas décadas (provavelmente estou me referindo a Antes do Pôr-do-Sol, mas okay). Isto porque Jesse e Celine, mais do que “personagens” dentro de algum estereótipo (a feminista, o carente), são dois jovens em plena descoberta da própria personalidade e, por isso mesmo, suscetíveis a mudanças, influências, mas tentando mostrar uma imagem de estabilidade que ainda não existe (a mulher questionadora, o homem que percebe a verdade).

Aos poucos, porém, Jesse e Celine vão deixando de lado as questões mais políticas e filosóficas, entrando em um terreno mais pessoal, íntimo, lentamente se abrindo, expondo, um para o outro. Eles não apenas começam a realmente confiar um no outro, mas em si mesmos. E, dessa forma, um acaba enxergando no outro o cúmplice perfeito. E um amante perfeito.

E é aqui que Antes do Amanhecer queria chegar… À verdade. Porque por mais que haja atuação, por mais que haja mentiras, entre dois estranhos há sempre um tipo de verdade que nenhum longo tempo de convivência pode descobrir. Mas uma verdade que tem a curiosa capacidade de desaparecer caso a vida permita que estes dois estranhos fiquem juntos por mais tempo – uma propriedade indispensável, diga-se de passagem. Afinal, quem suportaria viver com alguém que o conhece tão profundamente?


Em pedaços – O Conto

7 07UTC Junho 07UTC 2009

(O conto abaixo ainda está em sua primeira versão e, por isso, pode apresentar erros)

Lucas nasceu em 22 de junho de 1992, o dia mais frio do ano, a noite mais escura do ano. Sua mãe, Clarice, lhe deu à luz em baixo de uma ponte, sozinha, e amou seu filho imensamente, enquanto viveu. A mãe de Lucas foi encontrada morta ao amanhecer. Seu filho, ele não estava mais ali.

Clarice jamais foi identificada. Ninguém nunca soube que aquela mulher morta viera do interior do Rio Grande do Sul à procura do homem que a engravidara. No pôr-do-sol que precedeu aquela fria noite de junho, Clarice o encontrou. Ele, noivo e com a futura esposa grávida de dois meses, sentiu uma grande dor em sua alma ao pedir que Clarice mantivesse segredo sobre o bebê, garantindo que ele lhe pagaria uma gorda pensão… Inconformada com a frieza que enxergava no homem por quem se apaixonara, embora não soubesse o quanto ele se entristecia consigo mesmo, Clarice declarou entre lágrimas que iria embora e que ele nunca mais ouviria falar nela. E ele nunca mais ouviu.

Clarice caminhava sozinha e solitária pelas ruas da cidade, ela passava por uma alameda embaixo de uma ponte quando um homem a assaltou. Com o susto, ela entrou em trabalho de parto. O assaltante, desesperado com a conseqüência de seu desespero, pensou em ajuda-la, mas optou por fugir com sua bolsa e lamentar até o fim por sua covardia, um fim que chegaria exatos dezesseis anos depois, com uma redenção.

Mas ainda naquela noite fria de junho, uma certa senhora, de idade avançada e muito doente, tivera uma crise de dores e fizera sua neta sair no meio da noite para comprar-lhe remédios, mesmo que precisasse acordar o farmacêutico. A menina também se chamava Clarice.

No meio do caminho, ao atravessar uma ponte, Clarice ouviu um choro de criança e, ansiosa, acabou encontrando a fraca mulher com seu pequenino filho sujo, ensangüentado e gelado nos braços. Uma poça de sangue, muito maior do que o derramamento comum a um parto, marcava um circulo grande em volta dos dois. A mãe morreu com um sorriso assim que viu o sorriso piedoso da estranha que se agachava a sua frente, mas não antes de sussurrar um nome de menino. E, de seus braços já frouxos, o bebê foi recolhido.

Clarice voltou para casa imediatamente, mostrando a criança para a avó, que ficou tão perturbada e tão irritada, que acabou desmaiando, fazendo a neta pensar que havia morrido por causa do coração fraco. Assustada, Clarice correu porta afora com o bebê Lucas nos braços. Ela correu e correu, sentindo o frio penetrar seu corpo e uma tristeza dolorida invadir seu coração, pois ela amava sua avó. Por alguma razão sombria, porém, Clarice sabia que amava aquele bebê em seus braços e, por esta razão, a decisão que tomou a seguir foi a mais difícil que, embora ela não soubesse, ela jamais tomaria em toda a sua longa e melancólica vida.

Clarice abandonou Lucas. Ela o deixou nos braços de um médico que ela viu sair de seu carro, pronto para iniciar mais um plantão no hospital do bairro, e saiu correndo, antes que o homem pudesse chamar alguém que fosse atrás dela. A única coisa que Clarice disse naquele brevíssimo encontro, olhando nos olhos surpresos do médico, foi: “Lucas”. E então voltou para a casa, onde encontrou a avó gemendo no chão. Clarice cuidou dela, pedindo a Deus que aquele médico cuidasse bem de Lucas, assim como ela cuidaria daquela velha, uma senhora ranzinza e sofrida que apenas no leito de morte confessaria o quanto amava a neta e o quanto era agradecida por toda a sua dedicação.

No estacionamento do hospital, o homem demorou alguns instantes para perceber que aquela mulher não o conhecia e que “Lucas” se referia à criança, e não a ele. Pois o nome do médico também era Lucas.

Lucas correu para dentro do hospital, carregando o fraco e gelado garotinho, incapaz até mesmo de chorar, e, aos gritos, foi solicitando um ou outro serviço dos outros médicos, enfermeiros e assistentes de plantão. Poucos minutos depois, o bebê Lucas estava dentro de uma incubadora, recebendo luz, calor e leite. O médico Lucas, cardiologista, era um homem frio e solitário e, para a surpresa de todos, foi diariamente à maternidade para ver o garotinho. Mas ao final de duas semanas, quando este já estava fora de perigo e sendo encaminhado para assistência social, o médico se despediu dele com um leve carinho na testa e saiu de férias. Todos acreditaram que homem fosse se sensibilizar e pedir a adoção do garoto, mas o médico jamais voltou a procurar pela criança, limitando-se a um casual pedido de informação ao retornar das férias.

A esta altura, o pequeno Lucas já estava na maternidade da Casa de Santa Clara, uma instituição social comandada pela médica e Madre Superiora Anne, uma religiosa inglesa formada em medicina pediatra. Madre Dra. Anne era uma mulher dócil, bondosa e cheia de sabedoria, e cuidou pessoalmente do pequeno Lucas, assim como cuidara de seu pequeno e doente irmão caçula, de mesmo nome santo, que morrera ainda na inocência da infância há tantas décadas. Lucas cresceu forte e saudável, vendo na Madre Dra. Anne a imagem de mãe que ele não compreendia, apenas sentia, e ambos foram tão próximos quanto suas posições permitiam que fossem, até que a senhora, médica e mãe de Lucas, quebrou uma promessa e não foi ao seu quarto certa noite contar uma história. Lucas tinha três anos quando, sem se lembrar de como era perder uma mãe, chorou esta dor pela primeira vez.

A Casa de Santa Clara mudou após a morte de sua líder, mas não para pior. O cargo da Direção foi assumido por outra médica, Dra. Clara, assim como a santa. Uma mulher muito boa e inteligente, mas, diferentemente da santa, e de Anne, era atéia. Ela, porém, não recriminava as crenças religiosas das crianças, incentivando pequenos rituais que envolviam, por exemplo, Papai Noel e Coelhinho da Páscoa. E embora não permitisse Educação Religiosa nas aulas, não se importava que as crianças freqüentassem a missa. E com o tempo, as quinze crianças, meninos e meninas de várias idades, aos poucos foram dividindo espaço com garotos e garotas mais velhos, adolescentes e, embora elas não pudessem entender imediatamente, a verdade é que aquela mudança em particular moldaria e beneficiaria suas vidas até o fim. E, principalmente, permitiria que cada uma delas vivesse ali todo o tempo de sua juventude, até que finalmente tomariam para si suas próprias vidas.

Embora educado, inteligente e bondoso, repleto de amigos e amado por todos, Lucas crescia e vivia na renovada e reformulada casa como costumamos vivenciar férias numa casa de praia ou campo, sabendo que aquele não é nosso lar, sabendo que logo será apenas uma lembrança. Ele tentava explicar esse sentimento para si mesmo, alegando acreditar que apenas quando fosse adotado teria um lar definitivo. Mas mesmo que Lucas jamais tenha sido adotado, jamais tenha deixado de morar naquela casa, embora os anos se passassem sem trégua, sem calma e sem paradas, ele nunca deixou de sentir que sua casa, seu lar, estava em outro lugar. Mas Lucas nunca ansiou. Nunca reclamou. E viveu cada um de seus dias feliz, saudável, amoroso, apreciando aquela temporada de férias que durava todos os meses do ano, todos os anos da infância e, então, cada uma das fases de sua juventude.

E foi na juventude que Lucas começou a compreender sua vida, seus sentimentos de todos os tipos. Aos treze anos, ele pensou pela primeira vez no que faria quando, dali cinco anos, deixasse a Casa de Santa Clara: ele iria velejar. Mas, claro, ao longo dos anos, essa opinião e esse desejo mudariam diversas vezes, influenciados por idéias e histórias. Mas até que chegasse o dia de partir, com uma decisão firme finalmente tomada acelerando seu coração, Lucas sentiria muitas vezes o peito vibrando. E ainda aos treze anos, ele descobriria a paixão.


De repente, Califórnia (Jonah Markowitz)

7 07UTC Junho 07UTC 2009

(Alguns meses atrás, assistir a este filme e escrevi um texto sobre ele. Mas o longa estreou em São Paulo neste último final de semana e eu não poderia deixar de vê-lo nas telonas. O que, é claro, sempre muda muito. Além disso, alguns meses são o bastante para mudar nossa perspectiva e melhorar nossos conceitos e técnicas. Assim, segue abaixo a crítica reformulada de ShelterDe repente, Califórnia).

Em O Segredo de Brokeback Mountain, o diretor Ang Lee apostou numa narrativa lenta e na calma ao ilustrar a aproximação dos personagens de Jake Gyllenhaal e Heath Ledger. Neste filme, Lee também compôs o relacionamento dos vaqueiros como um respiro para ambos de suas vidas desonestas e miseráveis, fazendo com que um fosse uma consolação para o outro. Em De repente, Califórnia, o diretor e roteirista Jonah Markowitz investiu palhetas semelhantes ao construir sua pequena obra que, embora imperfeita, tem chances de se tornar um pequeno clássico e ícone do gênero.

Zach (Trevor Wright) é um jovem adulto preso na vida pacata e arrastada de uma cidadezinha litorânea da Califórnia e que divide seus dias entre tarefas básicas, como o trabalho, que pagará suas contas e alimentação, ou o surfe e o Desenho, hobbies que tornam sua existência tolerável. No topo de sua base está Cody (Jackson Wurth), seu sobrinho de cinco anos que enxerga nele o símbolo de pai que o próprio Zach desconheceu em sua vida, embora, diferentemente de Cody, tenha convivido desde sempre com seu progenitor. Na vida, Zach também tem Jeanne, sua difícil irmã que não reconhece (ou não entende) a própria responsabilidade pelo pequeno filho, Tori, uma bela garota com quem mantém um instável namoro, e Gabe, seu playboyzinho e melhor amigo que, apesar de ter um estilo de vida resumido à farra, ainda encontra espaço para nos surpreender com uma personalidade bondosa e amigável.

É neste cenário que Zach reencontra Shaun (Brad Rowe), irmão mais velho de Gabe que se mudou para Los Angeles há vários anos. Aproveitando-se de uma viagem do caçula, Shaun decide passar uma temporada na casa vazia da família a fim de se recuperar do recente final de um relacionamento e ainda trabalhar em um novo livro. Representando a figura do “mais velho da turma”, Shaun experimenta a sensação de ser reapresentado a jovens que conheceu quando estes começavam a adolescência e que não se lembram mais dele, e ainda descobre em Zach um amigo respeitoso que, embora saiba que ele é gay, não demonstra qualquer desconforto em isolar-se com ele para surfar e sequer hesita em procura-lo em sua casa – embora não perceba a própria ansiedade pela companhia do novo amigo. Isto é, até o momento em que a intimidade divertida os leva a permitir um gesto um pouco mais profundo.

Após um inesperado beijo, Zach afasta-se de Shaun numa tentativa desesperada de afastar-se de sentimentos que, mais do que “ferir” sua masculinidade, afetam seu cotidiano engessado – e embora ele anseie por uma nova vida, o vislumbre de concretizar qualquer mudança o assusta. Assim, é natural que ele procure desajeitado por um contato físico com a namorada e, mais ainda, busque a aprovação da irmã quanto à idéia de se inscrever numa faculdade, como se receber apoio nesta decisão pudesse tornar seu sentimento mais compreensível – afinal, o apoio de Shaun ao crescimento profissional de Zach acaba ligando as duas coisas intrinsecamente. Contudo, é inequívoco o medo que Jeanne sente a tal idéia, como se Zach evoluir, crescer, apenas realçasse a insignificância de sua própria existência ou – pior – pudesse atrapalhar sua vida, uma vez que sem o irmão por perto em tempo integral, ela finalmente seria obrigada a “cuidar” do próprio filho.

O roteiro de Jonah Markowitz ilustra de forma simplista os preconceitos e a homofobia básica do indivíduo ignorante, mas acerta (apesar da obviedade) ao mostrar o receio de Jeanne, e do próprio Zach em um momento, quanto a aproximação de Shaun do pequeno Cody, só para contrasta-lo em seguida ao desprezível namorado da garota. Da mesma forma, apesar de enfocar de forma expositiva as dificuldades de Zach e também sua dedicação ao sobrinho, como nas cenas em que ele compra um par de sandálias ao invés de tênis e quando ele descalça o garotinho dormindo, estes pequenos detalhes, que apenas redundam o que já sabemos, funcionam por mostrar que a trama principal é aquela que envolve Zach e Cody e não o romance dos surfistas.

O que, é claro, não torna a história de amor menos importante. Ao contrário: é clara a importância de Shaun para o futuro de Zach, não apenas por apoiá-lo na batalha por seus sonhos, mas principalmente por revelar-se uma figura paterna tão atenciosa e carinhosa com Cody quanto o próprio tio do garoto – o que permite a Zach experimentar mais uma nova sensação, depois da atração e da paixão, o aconchego. Assim, quando em certo momento, Tori (a linda Katie Walder) pergunta para Zach se ele ama Shaun, a não-resposta do rapaz demonstra que ele não enxerga sua nova história como um mero romance, mas como algo maior, alheio às convenções idealizadas da paixão. O que não significa que Zach não esteja apaixonado, o que claramente está, apenas mostra que, para ele, amar Shaun constitui muito mais do que levar adiante um caso de amor, mas sim uma vida inteira e completa – e uma realidade cheia de esperança.

Enquanto O Segredo de Brokeback Mountain contava uma história de amor amaldiçoada pela intolerância alheia e a pessoal dos dois amantes, culminando num desfecho triste e amargo, Shelter conclui sua história de forma doce e cheia de esperança sem, com isso, trazer soluções milagrosas, apenas avanços e conquistas naturais a qualquer pessoa que se disponha a seguir um sonho. Porém, a simples imagem de uma gostosa brincadeira tendo como fundo um mar agitado e um céu carregado nos faz lembrar que nem tudo é felicidade pura. Afinal, é difícil esquecer que a felicidade completa das três pessoas em cena estará eternamente ligada a covardia de outra, fraca demais e pequena demais para sustentar a própria vida, preferindo se alimentar de migalhas enquanto tenta encontrar seu próprio lugar, seu próprio abrigo.

E talvez seja isto o que torna o sucesso de Zach ainda mais belo e orgulhoso. Ele escolheu viver uma vida completa.


O Retorno

7 07UTC Junho 07UTC 2009

Estou de volta. Depois de semanas a fio longe deste espaço, experimentando algumas novidades e descansos… Eu volto.

Não exatamente nestes quase quarenta dias, mas muitas coisas vem acontecendo nestes últimos tempos e provavelmente por causa de algumas delas é que fiquei tanto tempo longe.

Alguns destes acontecimentos foram ruins, outros… excelentes. Em resumo, fui assaltado algumas vezes (sim, plural), comecei a namorar (sim, eu juro), sai da TV1 e freelei em outra agência (voltando ao cargo de “dispoível no mercado de trabalho”), fiz o curso do famigerado Pablo Villaça (onde conheci pessoas incríveis, incluindo o próprio professor), comecei a me deliciar com In Treatment, me decepcionei terrivelmente com Terminator: Salvation, cheguei a uma boa conclusão do que fazer com 8 Mentiras e, mais recentemente, transpirei uma nova história…


Palavrão #9

29 29UTC Abril 29UTC 2009

Quando li a biografia As Muitas Vidas de Robert Altman no início deste ano, um excelente livro produzido para a mostra homônima promovida no ano passado pelo Centro Cultural Banco do Brasil, fiquei particularmente satisfeito com o ritmo da narrativa que, apesar de inevitavelmente episódica (cada capítulo falava sobre a produção de um filme), contava com uma fluidez admirável, especialmente porque transformava os trabalhos do cineasta em pedaços de sua própria existência e não apenas em linhas de um currículo invejável. Assim, os saltos temporais (de alguns meses, ás vezes anos) não afetavam o desenvolvimento cuidadoso da trajetória de Altman e ainda a romantizavam como algo exclusivamente cinematográfico. Porém, a possível razão dessa conexão talvez seja uma provável distância mantida entre o Altman-autor e o Altman-Homem, um texto decentemente manipulado para nos fazer enxergar apenas o primeiro – embora, obviamente, o livro apresente inúmeros episódios da vida particular de Altman, todos são absolutamente ligados a sua vida profissional.

O que me trás a conclusão da resenha de O Cinema Além das Montanhas, biografia do mineiro Helvécio Ratton, escrita pelo crítico de cinema Pablo Villaça para o projeto Coleção Aplausos, editado pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo.

Como comentei na edição anterior do Palavrão, a primeira parte da biografia merece aplausos pela intensisade angustiante da narrativa, que nos leva dos porões da Ditadura brasileira para a ainda mais sanguinolenta Ditadura chilena e de volta para os reflexos políticos de uma época miserável de nossa História, culminando num capítulo inflexivo que promete, ou pelo menos sugere, um pouco de paz.

E então entramos em um universo diferente… A Criação Artística, a 7ª Arte, o Cinema!  (E a Publicidade. Foi engraçado perceber que isto parece ser uma constante entre os principais mestres criativos que conheço, pessoalmente ou não, e que estou justamento trilhando este caminho, mas isto é um detalhe pessoal que não entra no contexto.)

Nesta segunda parte de O Cinema Além das Montanhas, Pablo Villaça inicia uma fase muito mais epísódica do que a anterior, mas não dividindo os capítulos por filme, e sim dividindo o processo de criação (e algumas curioidades) das produções em alguns capítulos. E, infelizmente, por mais fascinante e agradável que seja “testemunhar” os bastidores mais do que muito interessantes das obras, o fato é que estes capítulos funcionam apenas como um mero diário de bordo (com o perdão do trocadilho) e perdem o alcance dramático que possuiam quando eram românticos. (Mas vale dizer que  os capítulos dedicados ao curta-documentário Em Nome da Razão, além de serem belíssimos e deprimentes, funcionam como uma trânsição entre as duas narrativas do livro, já que ainda é profundamente emocional e ao mesmo tempo bastante profissional).

Nos capítulos finais, O Cinema… acaba deixando de lado todo o peso emocional da história que conta e assume um tom puramente informativo, o que prejudica o texto. A tal ponto que, nas últimas páginas, o s capítulos dedicados a algumas  “despedidas” e a uma “novidade”, ficam sem o peso dramático que poderiam alcançar, soando como mero adendo, ou melhor, um simples post em um blog.

Mas, é claro, estes detalhes não são capazes de diminuir a força da trajetória deste cineasta admirável que é Helvécio Ratton. Da mesma forma, por mais distoantes que sejam os tons da narrativa, o texto de Pablo Villaça é sempre interessante e bem construído, tornando a leitura um processo fácil e muito rápido. Sem esquecer do prazer didático que é acompanhar uma história que narra períodos tão intensos de nossa História nacional, o que é sempre uma experiência fascinante, por mais trágicos e terríveis que sejam os acontecimentos.

4-estrela


Rascunhos

24 24UTC Abril 24UTC 2009

Desde setembro de 2007, quando criei este blog, publiquei exatos 187 posts. Neste período, porém, várias vezes comecei a escrever algo e, por não estar livre ou inspirado o bastante no momento, deixei para continuar depois… O resultado: 1 e 7 meses depois ainda me restam 6 rascunhos esperando um lugar ao sol… ou ao monitor.

O primeiro da lista é uma resenha sobre o romance O Oportunista (The Upstairs), escrito por Piers Paul Read. Uma narrativa em primeira pessoa fascinante, mas que só consegui aproveitar plenamente ao ler pela segunda vez aos 13 anos – a primeira vez que li foi aos 9 e definitivamente este livro representa uma leitura extremamente pesada para uma criança, falando sobre temas como roubo, estelionato, jogatina, assédio sexual, prostituição, estupro, entre outros, chegando ao ápice no capítulo em que narra o assassinato de um recém-nascido. Porém, confesso que até hoje jamais cheguei a compreender completamente esta história, que é emocionalmente complexa – mas vale dizer que a obsessão do protagonista em destruir determinada família surge e cresce mal desenvolvida, o que é péssimo porque, afinal, é esta obsessão que guia todos as atitudes do personagem-título. Ainda sim, acho O Oportunista uma ótima leitura, e prova disso é que me surpreendo voltando a lê-lo, em média, a cada 2 anos.

O segundo rascunho foi uma tentativa de desabafo, um texto extremamente pessoal a respeito de um conflito com uma grande amiga (agora, pelo visto, grande inimiga) que já foi mencionada mais de uma vez neste blog. Uma história que foi realmente bonita por muitos anos, mas que terminou de forma covarde, estúpida e – até agora – sem explicação. Provavelmente acreditando que guarda uma carta na manga ao fazer não-acusações insuficientes (como “some da minha frente”, “você não manda na minha vida” e etc.), ela deixa claro que eu cometi algo, mas nunca esclarece o quê, minha (ex-)amiga apenas se enfraquece ao partir para uma atitude imatura e clichê (algo que ela NUNCA foi). Além de ser canalha a ponto de cortar todos os meios de comunicação e ainda assim manter para si uma coisa que ME pertence, me obrigando a usar outras pessoas como intermediárias na tentativa de recuperar o que é meu. Ou seja, me roubar e fugir. (Infelizmente, o pertence é algo de apenas valor sentimental, e sem NF ou algo do tipo, ou seja, eu não posso sequer abrir um Boletim de Ocorrência.)

No terceiro rascunho, eu tinha selecionado alguns vídeos “unseen” da série Skins, mas queria publicar os vídeos com legendas e alguns estavam disponíveis apenas em áudio – o que me desanimou.

O quarto rascunho também é sobre a série Skins. O primeiro esboço da minha resenha sobre o season finale da terceira temporada. Mas como ainda não escrevi a resenha do penúltimo episódio, não poderia fazer a publicação naquele dia – aliás, ainda não posso. :(

O penúltimo rascunho provavelmente alcançaria um nível bastante pessoal também. O tema: religião e fé. Mas é um assunto complexo e complicado demais para ser discutido num texto em sua primeira versão.

E, finalmente, o texto mais recente que comecei a escrever e não publiquei é uma espécie de carta-currículo, onde (ainda) tentarei falar de forma informal sobre meus passos como escritor literário, redator publicitário e roteirista cinematográfico. Claro, mencionando trabalhos, empresas e academia.

Bom, acho que desta lista eu já posso excluir 2 rascunhos. Afinal, acredito que não tenho muito mais para falar, por enquanto, sobre tal amiga e O Oportunista.


Lost in/and The Time

24 24UTC Abril 24UTC 2009

O que eu não entendo a respeito das viagens no tempo em Lost, é por que as pessoas estão táo confusas. Quero dizer, essa galera nunca assistiu filmes ou leu livros sobre viagens no tempo? O conceito que Lost está apresentando é um dos mais simples no gênero, onde “o que aconteceu, aconteceu”, ou seja…

Se você nasceu em 1990 e em 2010, isto é, aos 20 anos de idade, viajar no tempo e parar no ano de 1995, quando você tinha 5 anos, não importa o que você-20-anos faça, para onde você for, quem você encontrar, quem você matar ou salvar… Cada um dos acontecimentos que você-20-anos  testemunhar em 95 será exatamente o que “já tinha acontecido” quando você estava em 2010, mesmo que o você-5-anos não estivesse presente para ver tais acontecimentos na época em que aconteceram (e ninguém jamais tenha te contado).

Um exemplo rápido vem da série Além da Imaginação. Num dos episódios, uma determinada moça em um ano futurista (tipo 2020, 2030) recebe a missão de voltar no tempo e matar Adolf Hitler enquanto este ainda é um bebê, afim de impedir a maior tragédia moderna da Humanidade. Em 1890, a moça é encurralada e acaba sequestrando o “maldito” filho de Alois Hitler, chegando a se jogar com o garoto em um rio a fim de cumprir sua missão. Ambos morrem. Porém, uma empregada da família Hitler, desesperada de medo pelas consequências da tragédia, acaba comprando o filho de uma mendiga e o coloca no lugar filho legítimo – o bastardo então se tornaria o maior desgraçado da História. Ou seja, embora a garota tenha cumprido sua missão, o “Destino” deu um jeito de continuar a História. Porém, se for analisado por outro ângulo, a verdade é que o Adolf Hitler que sempre conhecemos sempre foi o filho da mendiga.

É exatamente esta a regra que Lost prega. Sayid atirou em Ben com a intenção de mudar o futuro, sem saber que aquilo já havia acontecido e que fora justamente uma das causas do futuro (Ben talvez não fosse o monstro que é se não fosse pela traição de Sayid). Jack decidiu não salvar Ben na intenção de mudar o futuro… Consequência? Ben foi salvo de qualquer jeito, mas o processo ajudou a transformar o jovem-Ben no monstro-Ben (e que fique claro que Jack NUNCA poderia optar por salvá-lo).

Carlos Alexandre Monteiro, do Lost in Lost, definiu bem a idéia ao mencionar o tempo “DA ilha” e o tempo “DOS losties”. Vou me focar em Sayid para ilustrar os losties. O passado de Sayid é aquele que ele vivenciou desde seu nascimento até os anos 2000, que conta com a queda do voo 815, os inúmeros acontecimentos na ilha, o resgate pelo barco de Penny e finalmente a viagem de volta para a ilha que culminou na viagem no tempo até os anos 70; e seu presente é ser capturado, escapar, atirar em Ben e fugir. E de agora em diante, que Sayid está em 70, nada que ele faça será capaz de, por exemplo, mudar o próprio futuro dele… Ele não pode, por outro exemplo, simplesmente ir até sua cidade natal e quebrar o pescoço do Sayid-criança – ele não pode mudar o que já aconteceu PARA ELE !

(Assim como ele não poderia mudar o fato de ter atirado no jovem-Ben, porque isto já tinha acontecido PARA BEN).

Já a ilha… Vamos considerar que o presente dela é 2007 (o ano mais recente narrado na série). O passado da ilha é tudo o que aconteceu NELA (ou PARA ELA) desde seu surgimento seja-lá-quando. Assim, A ILHA já tinha “testemunhado” a chegada de Jack, Kate e cia. na Iniciativa Dharma, já tinha “testemunhado” o atentado de Sayid contra Ben, já tinha “promovido” o encontro de Miles com seus pais e o bebê-Miles e etc., etc. e tal. Ou seja, NADA nem NINGUÈM pode mudar o que já aconteceu no passado DA ILHA. Qualquer decisão, qualquer atitude, seja de algum lostie do futuro ou Outro do presente, não importa, tudo o que eles fizeram em 70 será algo que a ilha já “viveu” (algo que ela, em 2007, podeia “se lembrar”).

Parece que ler uma explicação apenas torna o entendimento mais complicado. O melhor, é assistir aos episódios com atenção e perceber que os acontecimentos estão se encaixando aos poucos e ver que nada, nada poderá mudar o que já aconteceu – seja em 2007, 2004 ou 1990.

(A não ser que a série decida inovar novamente e nos surpreender com alguma reviravolta inimaginável. De novo.)


Palavrão #8

22 22UTC Abril 22UTC 2009

Este feriado prolongado foi bem… “interessante”. Mas, entre umas e outras surpresas (vide post anterior e outros comentários no meu Twitter), consegui concluir o primeiro volume da saga Fronteiras do Universo, A Bússola de Ouro.

E  o que dizer?

Lyra Belacqua é uma das personagens de literatura-fantasia mais carismáticas que conheci nos últimos tempos. Seu mau humor ácido, sua praticidade e inteligência indiscutíveis, sua coragem e força de espírito… Tudo nela é deliciosamente divertido e inspirador. E é incrível perceber, ao longo da trama, que ela é uma boa garota mesmo sendo filha de um casal tão desgraçado como são seus pais.

Sobre a trama, A Bússola de Ouro é igualmente inspiradora. Uma história aparentemente simples que vai ganhando complexidade com o tempo, nos fazendo vacilar ao lado de Lyra enquanto esta tenta entender qual lado deve apoiar, sem saber que lhe aguarda um inevitável destino amargo (embora a morte de determinado persoangem e o encontro de outros dois tenha sido uma decepção). O livro é particularmente eficiente ao descrever este co-universo de forma tão simples, nos permitindo entender facilmente sua cultura local a respeito dos deamons - o que torna o encontro de Lyra com um garotinho perdido um dos momentos mais impressionantes e trágicos deste primeiro volume.

Em poucos capítulos, foi possível perceber que Phillip Pullman criou uma história sobre crianças, mas não para crianças – embora os jovens sejam seu público alvo. Começarei em breve a ler A Faca Sutil (estou ansiosissimo), mas não creio que a história chegará ao nível perturbador de uma obra como o longametragem O Labirinto do Fauno. O que, é claro, não diminui em nada o poder dessa história magnetizante que A Bússola de Ouro promete para as trilogia As Fonteiras do Universo.

E, neste final de semana também, comecei a ler a biografia do cineasta Helvécio Ratton, escrita por Pablo Villaça, crítico de cinema, editor do site Cinema em Cena e meu futuro professor, o surpreendente O Cinema Além das Montanhas. Conclui hoje de manhã a primeira parte do livro, As Circunstâncias, que narra o encontro de Ratton com a política e a assustadora Ditadura de dois países. Uma primeira parte completamente cinematográfica, com capítulos curtos e desesperadores (já no Prólogo, entramos num clima de tensão angustiante) que culminam num golpe político arrasador – e ler a transcrição da mensagem de determinado líder político, resistindo ao golpe enquanto exerga um trágico desfecho se aproximando rapidamente, foi particularmente tocante.

É claro que Villaça revela-se um excelente escritor nestas linhas até agora impecáveis. Porém, nem o mais competente letrado seria capaz de construir uma narrativa tão formidável se não tivesse em mãos um material a altura. E é isto o que Helvécio Ratton oferece em sua história… Mais do que isso, é História de verdade.


Aquilo que poderia ter acontecido…

22 22UTC Abril 22UTC 2009

Enquanto minha irmã tomava banho, meu sobrinho, de 1 ano e 10 meses, usou uma cadeira para:

1º) pegar uma caixa de leite fechada dentro da geladeira;

2º) pegar uma faca afiada no gaveteiro superior;

3º) gritar muito, muito alto;

4º) sujar a cozinha com uma quantidade aterrorizante de sangue;

5º) levar apenas três milagrosos pontos no dedo indicador direito.

A parte mais angustiante? Saber que a mãe dele é provavelmente a pessoa mais cuidadosa da minha família e sempre toma cuidado com os mínimos detalhes da casa e, ainda assim, quase testemunhou uma tragédia.

Não tem jeito, o acaso sempre conspira…

(Observação: o gaveteiro superior fica fora do alcance do pequeno quando ele está com os pés no chão.)

(Observação 2: a quantidade de sangue não foi nada fisicamente preocupante, mas quem já passou por algo assim sabe que um dedinho de criança tem um volume INACREDITÁVEL de sangue.)


Desastres

17 17UTC Abril 17UTC 2009

(O texto abaixo fala sobre cenas importantes dos filmes da série Premonição e Presságio)

Após ler o comentário de meu amigo Remi no post anterior, comecei a elaborar uma breve resposta com a minha opinião sobre a franquia Premonição e a comparação entre o desastre de Metrô, que acontece no encerramento do último filme, e aquele visto no principal lançamento da semana passada, Presságio. E me surpreendi com um texto bem maior do que esperava… Assim, preferi vir para cá.

É verdade: Premonição 3 também conta com uma sequência de tragédia no Metrô. Mas, a experiência dos primeiros filmes avisou os produtores que eles deveriam investir mais grana na primeira tragédia, já que era ela que direcionava toda a história e blablablá. Assim, essa tal sequência de encerramento é apenas boa, mas nitidamente desinteressante se comparada as tragédias que abrem os filmes – e nem chega a ser impressionante já que, a altura em que acontece, estamos anestesiados com a exposição extravagante de tantas vísceras, miolos e fluidos que o filme oferece.

Mas preciso dizer que, para mim, Premonição 3 é simplesmente um fiasco. Os personagens são todos desinteressantes, alguns atores muito apenas-razoáveis, as mortes são estúpidas (no sentido idiota e não banal) e chocam apenas… pelo choque! e as novas revelações e reviravoltas não acrescentam nada a trama. Sem contar que os efeitos especiais estão muito abaixo do padrão da série.

Mas focando nas aberturas… O acidente na montanha-russa têm dois problemas: é chato e clichê. E pela mesma razão: morrer numa montanha-russa é apenas um medinho infantilóide, um daqueles pesadelos que temos aos oito anos. Enquanto que desastre de avião e acidentes de trânsito são tragédias muito mais impactantes já que as vítimas estão, geralmente, num momento coloquial de suas vidas e não buscando adrenalina como no caso da atração do parque. Dramaticamente falando, morrer num parque de diversões não tem comparação a tragédia que uma queda de avião ou um engavetamento de carros representa – ou mesmo um descarrilamento de trem.

Mas quero deixar claro que não estou menosprezando o sentimento insuportável de perder alguém, independente do modo como aconteça. Especialmente quando todos sabemos que acidentes em parques de diversão realmente acontecem, e a morte neste caso não é “menor” do que a morte de uma pessoa no trânsito, numa piscina, num terremoto, num tiroteio ou num parto. Estou dizendo no ponto de vista dramático, ficcional. E, neste caso, os desastres dos primeiros filmes são muito mais relevantes que o do terceiro.

E assim chegamos a Presságio. Se em Premonição 3, o desastre no Metrô não causa impacto (apenas choque barato), o mesmo não se aplica ao visto nesta produção com Nicholas Cage. Quando acontece, o atmosfera de tradégia já está impregnada no filme, especialmente porque as cenas do desastre de avião não saem da nossa mente. Ou seja, estamos dramaticamente sensíveis ao choque (o oposto do que acontece no gore) e ficamos emocionalmente impressionados com o acidente, o que já seria o bastante. Mas Presságio vai além e ainda realiza uma sequência tecnicamente eficiente, ampla e complexa, infinitamente superior aquela vista em Premonição 3.

Para mim, como comentei vagamente na resenha, o momento só poderia ter sido melhor caso algum personagem que conhecêcemos fosse uma das vítimas – no mínimo, poderia ter sido a mulher com  o bebê. Como, por exemplo, acontece em Premonição: antes do acidente, acompanhamos alguns instantes dos personagens, e isto é suficiente para fazê-los mais do que estatística. Já em PresságioSó os números importam.


Presságio (Alex Proyas)

16 16UTC Abril 16UTC 2009

(Atenção, o texto abaixo revela informações importantes e reviravoltas na trama do filme.)

Embora seja repleto de clichês e equívocos e quase exageradamente carregado de simbolismos Cristãos, Presságio consegue se equilibrar com firmeza entre os gêneros suspense, ação, catástrofe e ficção científica, sem jamais ultrapassar os limites aceitáveis para cada um.

E, mesmo que definitivamente este não seja um filme religioso, chega a ser muito mais eficiente do que os fracos exemplares da trilogia Deixados Para Trás, por exemplo, que se limitam a uma espécie de pregação quase didática, um sermão, ao invés de explorarem o forte tema para desenvolver um drama de suspense que, por si só, sirva como exemplo e mensagem.

Presságio é particularmente eficiente neste sentido, já que pontua a trama com suas referências religiosas, mas permite que elas sejam ligeiramente ofuscadas pela angustiante urgência da narrativa que vai se acumulando entre sinais e acontecimentos. Assim, enquanto nos distraimos com sequências de ação aterrorizantes, nosso insconsciente vai registrando informações que virão à tona posteriormente e, claro, nos farão meditar – não necessariamente no Apocalipse, eu garanto, mas talvez no Significado das coisas, na diferença entre o Destino e o Acaso.

Mas Presságio se destaca mesmo é pela ação. As duas grandes tragédias que marcam os dois primeiros atos impressionam pelos detalhes – a sequência do acidente aéreo, em particular, me deixou tão atônito quanto o protagonista, que reage lentamente ao que testemunha enquanto assiste vítimas em desespero e chamas. Já o acidente no subsolo, poderia perfeitamente ser uma das famosas sequências de abertura da série Premonição, com a mesma qualidade ténica e dramática (dos dois primeiros filmes), mas em escala maior e menos grafica, felizmente – embora, à exceção do protagonista, apresente apenas indivíduos, e não personagens, para o banho de sangue; o que não diminui o impacto da tragédia.

Poderoso e ainda mais urgente em seu terceiro ato, Presságio alcança um desfecho apoteótico e atípico para filmes Hollywoodianos. E justamente no modo como o longa ilustra o Apocalipse é que ele parece encontrar sua grande força, afinal, a opção de destruir o Mundo com uma tragédia Natural e não com Anjos e Trombetas (literalmente) torna o acontecimento mais… verossímil, talvez seja a palavra correta. E, por isso mesmo, extremamente assustador, já que algo assim pode realmente acontecer algum dia e está totalmente fora do controle Humano – diferente do Aquecimento Global, das Guerras e até mesmo de Corpos Celestes perdidos no espaço e que podem ser avistados, talvez, com antecedência.

A dor emocional e o medo são as marcas de Presságio, já que, mesmo com a garantia de “continuação” da raça humana, o fato é que o Mundo foi literalmente e completamente destruído, e este é um Fim que não traz alívio. Aqui, não há protagonistas e sobreviventes para nos identificarmos e sentirmos calma. Aqui, somos meros Humanos. E não somos os Escolhidos.


Reviravolta

15 15UTC Abril 15UTC 2009

De tempos em tempos, eu volto a perceber que escrever minha saga de ficção científica, Pela Humanidade, é um desafio realmente grande. Há anos (dez na verdade, esta foi uma das primeiras histórias que escrevi) venho trabalhando no primeiro livro e, paralelamente, no argumento geral de toda a série – que será de cinco volumes. Não acredito que os próximos volumes exigirão tanto tempo de dedicação, já que quando o primeiro livro estiver terminado, é porque o argumento da série como um todo já estará suficientemente forte e coeso para continuar fluidamente.

Humanos (uma apelido íntimo entre nós ;) ) é uma série longa e complexa, o que por si só já torna o trabalho dífícil. Somando-se a isto o fato de eu ser irritantemente detalhista (e obviamente falho, o que me deixa ainda mais irritado) faz com que eu mude elementos, formatos, caminhos, personagens, subtramas numa velocidade e numa frequência que enfartariam qualquer editor com prazo apertado. Como já comentei recentemente aqui no blog, por exemplo, depois de anos trabalhando o primeiro livro em primeira pessoa, percebi que escrever em terceira pessoa torna a história mais ampla e a narrativa mais eficaz, e por isso decidi alterar TODO o livro de acordo com o novo formato. Mas, claro, isto não significa que estou decidido, já que sempre gostei da idéia de escrever o primeiro livro em 1ª e os restasntes em 3ª.

E simplesmente hoje, fiz uma verdadeira descoberta. Uma determinada personagem que o protagonista encontra no “terceiro ato” da história… Ela simplesmente… não existe. Exatamente! Ela não existe! Fui eu que a inventei!

Piadas ineficazes à parte, isto é sim um pouco de verdade. Meu protagonista, Josh, tem um caminho específico para seguir neste terceiro ato e, para isto, eu precisava da interferência de alguém. Então decidi criar esta personagem. Mas eu nunca gostei dela. Nunca simpatizei. Da primeira à última linha onde ela é citada, eu sabia que habvia algo errado com aquela pessoa. Mas não conseguia entender, encontrar o problema…

Por outro lado, logo no início do livro, eu apresento uma personagem adolescente propositadamente caricata. E, por mais que meu personagem a deteste, a cada palavra sobre ela eu fico mais encantado. Eu já tinha planejado trazê-la de volta no futuro da série, quando certos acontecimentos deixam a trama mais sombria, mas sem grandes pretensões. Agora, porém, descobri que ela é de suma importância já neste primeiro volume da saga.

Neste terceiro ato, sai aquela mulher horrorosa que surgiu na minha cabeça e entra esta formidável garota que, certamente, vai mexer com os marmanjos – mas não tanto quanto a já “clássica” Denise.

E o mais interessante nesta “decisão”? Ela muda parte dos acontecimentos do terceiro ato que me desagradavam e, de brinde, traz a desculpa perfeita para nada menos do que duas sequências de ação que estão me deixando quente de excitação – quem escreve, sabe: escrever uma cena pode ser mais intenso do que viver a mesma situação na vida real. E ainda posso dizer que são duas sequências realmente intensas e dramáticas.

Ah! como é bom voltar a “transpirar”… Não vejo a hora de poder sentar quieto e voltar a trabalhar efetivamente neste texto. Que maravilha saber que isto não vai demorar… :D