Particularmente falando, tenho um certo fascínio por histórias que falam sobre a Humanidade. Não apenas no sentido moral – sempre me impressiono com a capacidade ambígua do homem em ser extremamente bárbaro e surpreendentemente altruísta -, mas também social: quando em massa, seres humanos podem tomar decisões e atitudes que individualmente jamais tomariam; uma das consequências disso é que nossa Sociedade se dirige cada vez mais rapidamente a um futuro insólito e perturbador, que eventualmente pode culminar num “geno-sui-cídio”.

E como seria se pudéssemos ver nosso futuro? Daqui, por exemplo, uns vinte anos… O que faríamos se víssemos, realmente víssemos, como seria nossa vida daqui a apenas, e veja bem porque é apenas, duas décadas? E se essa visão nos mostrasse o caos de uma Sociedade pré ou pós-apocalíptica?
Responsável pelos ótimos …E Sua Mãe Também, A Princesinha e Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban, Alfonso Cuarón desta vez dirige uma produção extremamente séria e pesada, retratando de forma eficaz um futuro assustador e vazio de esperança. Com base na premissa de que o passado revela o futuro, Children of Men chega a apresentar sua própria versão do Nazismo, onde os “fúgis” (imigrante ilegais dentro de uma Londres centralizada) chegam a ser enjaulados e mais tarde barbaramente deportados da Cidade-Estado – o que dá espaço a uma cena dolorosamente familiar, que ocorre dentro de um túnel. E se as principais obras de ficção científica da nossa Arte sempre justificam uma futura extinção do homem com grandes eventos catastróficos, especialmente com guerras, desta vez fomos apresentados a uma possibilidade bastante diferente: o fim da natalidade.
Contudo, eu me lembro de, ao ler sobre esta produção, ter comentado sozinho que esta premissa era bem menos interessante e dramática do que a maior parte das idéias apresentadas em outras produções (especialmente a série Exterminador do Futuro, para citar um exemplo de qualidade). Mas qual foi minha surpresa ao sentir o quanto eu estava errado! Pois imagine-se testemunhando, aos poucos, a diminuição de parques e escolas infantis, risadas, brincadeiras e até choros… Mulheres abortando cada vez mais, em mais lugares, e sempre cada vez mais e mais cedo, até chegar a um ponto onde sequer conseguem conceber… E tal tragédia não é só do ponto de vista emocional (um mundo se crianças), pois imagine a humanidade ficando velha, e nenhum bebê para fazer lembrar que a vida continua. Imagine se a vida simplesmente: não continuasse mais… Mas isso tudo só fica claro quando somos surpreendidos por uma cena belíssima e chocante, em que os sons de tiros são gradualmente substituídos por um outro (que não posso dizer qual é, já que revelaria uma informação importante). Curiosamente, mesmo depois de tudo o que já vimos, é este momento que catalisa todas as nossas emoções e as interpreta…
Triste e complexo, Filhos da Esperança ainda se dá ao luxo de justificar seu título brasileiro e terminar de forma merecidamente otimista, embora não dê margem para o espectador sentir-se aliviado, não depois do que testemunhou nos últimos 100 minutos. Sempre que ouvia coisas do tipo “viva hoje como se não houvesse amanhã” (uma filosofia bela, mas infelizmente impraticável), eu me perguntava “qual é o sentido em ser feliz, se não houver um amanhã para continuar?”. Não tenho certeza se minha pergunta foi ou não respondida, mas a sensação que tenho, e que me foi transmitida pela cena mencionada no último parágrafo, é que simplesmente não existe sentido se não houver um amanhã.
