Arquivo para Setembro, 2007

É: não tem graça capuccino sem espuma

29 29UTC Setembro 29UTC 2007

e você é como um jesus dos anos 90
e você revela em sua psicose como você é corajoso
e você apresenta conceitos como um prato de entrada
e você devora as dúvidas deles como sobremesa
e sou simplesmente eu ou está quente aqui?

e você é como um kennedy dos anos 90
e você tem mesmo um milhão de anos,
você não pode me enganar
lançarão opiniões como pedras em um desmoronamento
e tropeçarão a sua volta como hipócritas
e sou simplesmente eu ou está escuro aqui?

você pode nunca ser ou ter um marido
você pode nunca ter ou segurar uma criança
você aprenderá a perder tudo
nós estamos temporariamente em harmonia

e você é como um noé dos anos 90
e riram de você enquanto
você guardava todas as suas coisas
e se perguntam por que você é frustrado
e se perguntam por que você tem tanta raiva
sou simplesmente eu ou você está cheio disso?

que deus te abençoe nas suas viagens
nas suas conquistas e dúvidas

Good Enough

29 29UTC Setembro 29UTC 2007

O conceito é legal, mas o roteiro dá a impressão de que tem algo muito interessante pra contar, o que não é o caso. Os efeitos são apenas bons, mas a direção é instável: se o rosto de Lee entrando em foco é um artifício bonito, o travelling pouco antes é inconveniente, já que confere movimento demais a um momento delicado. Por outro lado, o movimento de câmera quando a chuva começa é muito elegante, e também gostei das trepadeiras (?!).

Contudo, existe algo que me incomoda muito em Good Enough

Nunca concordei quando diziam que a música era a mais “leve” do The Open door, mudando o tom sombrio do álbum. A letra da música sempre me passou úma idéia meio possessiva, e agora o clipe apenas confirmou isso.

Romântica ou depressiva, Good Enough é definitivamente uma canção evanescenciana mas, justamente por sua aura delicada, é bastante perigosa também.

300 (Zack Snyder)

21 21UTC Setembro 21UTC 2007

Quando escrevi sobre Erros Irreversíveis, comentei que os personagens daquele filme pareciam ter sido tirados de um romance literário. E algo parecido me veio a cabeça enquanto assistia este intenso e poderoso 300: esta é uma daquelas histórias típicas dos quadrinhos.

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Não que a estrutura desse tipo de história seja muito diferente dos roteiros cinematográficos, porém, elas têm suas particularidades que podem ser identificadas sem muito esforço. Precisam, por exemplo, narrar os acontecimentos no menor espaço possível, o que acaba limitando a complexidade de certas tramas.

Aqui, por exemplo, após de uma tradicional introdução que se encarrega de nos apresentar ao contexto da história, conhecemos o protagonista Leônidas e em seguida o acompanhamos com seu exército em sua arriscada jornada. Mas, enquanto filmes do gênero jogariam os personagens em situações gradualmente mais perigosas, 300 mantém um (alto e episódico) nível de risco desde os primeiros momentos (o que não é ruim, mas pode ficar inesperadamente monótono). E, ao invés de amarrar ganchos para serem explorados posteriormente, a trama se encarrega de encerrar certas questões poucas cenas à frente (o que não é bom) – como quando um soldado persa diz a um espartano que flechas cobrirão o céu: a ameaça sequer esfria e vemos uma sombra gigantesca pairar sobre o exército-herói. Da mesma forma, a dinâmica entre dois personagens, pai e filho, mal começa a ser trabalhada e a produção já nos leva a um trágico desfecho.

Ainda assim, 300 é um ótimo filme, com personagens marcantes o bastante para nos identificarmos e importarmos com eles (ou não, como no caso do desprezível Theron e do intrigante Xerxes de Rodrigo Santoro). A rainha Gorgo, particularmente, conquista com suas primeiras e últimas cenas (sim, por que a subtrama no meio disso é totalmente dispensável), mostrando-se uma mulher forte e ativa numa época extremamente machista – sua dinâmica ao lado do rei Leônidas, por sinal, me fez lembrar do casal Heitor e Andrômaca da clássica Ilíada, de Homero. Por outro lado, 300 felizmente não é um filme forte o bastante para ofender com seus inúmeros preconceitos atirados pela história, o que não deixa de ser uma ironia já que a trama defende justamente “liberdade” e a força de uma “minoria” (os 300 de Leônidas contra os milhares de Xerxes).

Afinal, este é um daqueles filmes que só prestam mesmo para entreter, seja pela história de quadrinhos, pela ação e violência desenfreadas mas visualmente atraentes ou pela ostentação de seu público-alvo do lado de lá da tela – seja do ponto de vista moral ou físico.

3-estrela

Filhos da Esperança (Alfonso Cuarón)

21 21UTC Setembro 21UTC 2007

Particularmente falando, tenho um certo fascínio por histórias que falam sobre a Humanidade. Não apenas no sentido moral – sempre me impressiono com a capacidade ambígua do homem em ser extremamente bárbaro e surpreendentemente altruísta -, mas também social: quando em massa, seres humanos podem tomar decisões e atitudes que individualmente jamais tomariam; uma das consequências disso é que nossa Sociedade se dirige cada vez mais rapidamente a um futuro insólito e perturbador, que eventualmente pode culminar num “geno-sui-cídio”.

filhos

E como seria se pudéssemos ver nosso futuro? Daqui, por exemplo, uns vinte anos… O que faríamos se víssemos, realmente víssemos, como seria nossa vida daqui a apenas, e veja bem porque é apenas, duas décadas? E se essa visão nos mostrasse o caos de uma Sociedade pré ou pós-apocalíptica?

Responsável pelos ótimos …E Sua Mãe Também, A Princesinha e Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban, Alfonso Cuarón desta vez dirige uma produção extremamente séria e pesada, retratando de forma eficaz um futuro assustador e vazio de esperança. Com base na premissa de que o passado revela o futuro, Children of Men chega a apresentar sua própria versão do Nazismo, onde os “fúgis” (imigrante ilegais dentro de uma Londres centralizada) chegam a ser enjaulados e mais tarde barbaramente deportados da Cidade-Estado – o que dá espaço a uma cena dolorosamente familiar, que ocorre dentro de um túnel. E se as principais obras de ficção científica da nossa Arte sempre justificam uma futura extinção do homem com grandes eventos catastróficos, especialmente com guerras, desta vez fomos apresentados a uma possibilidade bastante diferente: o fim da natalidade.

Contudo, eu me lembro de, ao ler sobre esta produção, ter comentado sozinho que esta premissa era bem menos interessante e dramática do que a maior parte das idéias apresentadas em outras produções (especialmente a série Exterminador do Futuro, para citar um exemplo de qualidade). Mas qual foi minha surpresa ao sentir o quanto eu estava errado! Pois imagine-se testemunhando, aos poucos, a diminuição de parques e escolas infantis, risadas, brincadeiras e até choros… Mulheres abortando cada vez mais, em mais lugares, e sempre cada vez mais e mais cedo, até chegar a um ponto onde sequer conseguem conceber… E tal tragédia não é só do ponto de vista emocional (um mundo se crianças), pois imagine a humanidade ficando velha, e nenhum bebê para fazer lembrar que a vida continua. Imagine se a vida simplesmente: não continuasse mais… Mas isso tudo só fica claro quando somos surpreendidos por uma cena belíssima e chocante, em que os sons de tiros são gradualmente substituídos por um outro (que não posso dizer qual é, já que revelaria uma informação importante). Curiosamente, mesmo depois de tudo o que já vimos, é este momento que catalisa todas as nossas emoções e as interpreta…

Triste e complexo, Filhos da Esperança ainda se dá ao luxo de justificar seu título brasileiro e terminar de forma merecidamente otimista, embora não dê margem para o espectador sentir-se aliviado, não depois do que testemunhou nos últimos 100 minutos. Sempre que ouvia coisas do tipo “viva hoje como se não houvesse amanhã” (uma filosofia bela, mas infelizmente impraticável), eu me perguntava “qual é o sentido em ser feliz, se não houver um amanhã para continuar?”. Não tenho certeza se minha pergunta foi ou não respondida, mas a sensação que tenho, e que me foi transmitida pela cena mencionada no último parágrafo, é que simplesmente não existe sentido se não houver um amanhã.

5-estrela1

Beijos & Tiros

21 21UTC Setembro 21UTC 2007

Beijos & Tiros é um desses filmes recheados de ótimos diálogos e situações extremamente absurdas, mas incrivelmente verossímeis dentro da trama que propõe. Um exemplo é quando a mocinha do longa pergunta ao herói “Eu decepei o seu dedo, não foi?“, logo após bater a porta irritada, ou quando o próprio herói se segura no braço de um cadáver devidamente dentro de um caixão preso na armação de uma placa de trânsito ao lado de um viaduto.

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Da mesma forma, as cenas de ação são ótimas e inteligentes, nos fazendo realmente temer pela vida do trio de protagonistas. E quando determinado personagem leva um tiro, mesmo o fato de ainda estar respirando depois de derramar sangue pela boca não é o bastante para nos assegurar de que irá sobreviver.

Um dos pontos altos desse filme é também sua metalinguagem sempre presente ao lado da narração do protagonista, que culmina numa cena inacreditavelmente engraçada nos momentos finais do longa, quando vários personagens (do filme e de fora dele) entram num quarto de hospital. E graça, por falar nisso, é algo constante dentro do longa, como mostram os dois exemplos citados no parágrafo anterior, e ainda pode ser visto em outros ótimos momentos, desde a briga do casal na cama que termina na porta, até o beijo entre Robert Downey Jr. e Val Kilmer, passando pelos mais inofensivos mas também divertidos comentários feitos pelo casal num bar (e olha que quando os personagens de um filme riem de uma piada que contam, geralmente ela perde a graça na mesma hora, mas aqui a risada de Rebeca Monaghan é um pingo no i). E Val Kilmer, aliás, é responsável por um dos melhores diálogos, ao responder ao outro se “ainda é gay”.

Mas Beijos & Tiros não seria tão eficaz se, além de tudo, não contasse com uma ótima e interessante trama policial. E chega a ser brilhante o modo como os personagens investigam certas pistas e se metem em enrascadas pesadíssimas só para em seguida… bom, é melhor assistir para não perder a graça. E no fim de tudo, ainda somos apresentados a um desfecho simples, mas dramática e intimamente cruel, revelando que apesar dos grandes absurdos, Kiss Kiss, Bang Bang não é uma dessa histórias que se passam num mundo paralelo ao nosso, apenas tem personagens um pouco excêntricos. E absurdamente engraçados.

5-estrela1

Perfume: A História de um Assassino (Tom Tykwer)

21 21UTC Setembro 21UTC 2007

É unânime: a melhor palavra que define Perfume é “bizarro”. Desde o nascimento do protagonista, Jean-Baptiste, até sua última aparição, passando pelo destino dos personagens que atravessam seu caminho e o carnaval que acontece nos minutos finais da projeção. Tudo é, absolutamente, bizarro. Sem esquecer, é claro, do tema principal da produção: os assassinatos.

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Mesmo o primeiro crime do protagonista, que acontece de forma inesperada e, digamos, inocente, tem seu toque de estranheza, justamente pela ingenuidade da situação; e mais tarde, quando o rapaz se torna um perigoso assassino, os métodos que usa para cumprir seus objetivos chegam a ser sinistros.

Perfume: A História de um Assassino não é um filme exatamente complexo, sua história e narrativa são bastantes simples. Porém, é tão rico de significados que chega a surpreender o espectador quando este dedica algum tempo para estudá-lo.

Mas só depois de algum tempo é que chegamos perto de entender o que significa a fabulosa última criação do perfumista, que parece ter descoberto literalmente a essência do amor. Ou a Alma do Amor. E não é atoa que o que leva Jean-Baptiste a descobrir a arte de fazer perfumes é justamente uma fragrância chamada “Amor e Psiquê”, o nome do casal formado por um deus (Eros, em grego) e uma mortal (a tradução de psiquê é “Alma”). Assim, até mesmo o já citado carnaval do final do filme (momento que poderia ter sido o orgulho de Sade) ganha novas facetas, já que sexo nada mais é do que uma manifestação do amor, algo que Jean-Baptiste, e o próprio filme se encarrega de nos garantir isto, jamais poderia sentir ou provocar.

Como eu já disse também, a última aparição do protagonista é tão bizarra quanto o resto da projeção, mas carrega além um último simbolismo. Afinal, quem foi Jean-Baptiste, não como personalidade, mas como criatura. Foi realmente um anjo? Um demônio sedutor? Ou um simples homem apenas com um dom especial?

4-estrela6

O Labirinto do Fauno

21 21UTC Setembro 21UTC 2007

Assistindo a este perturbador filme de Guillermo Del Toro, também produzido pelo sempre ótimo Alfonso Cuarón, durante várias ocasiões percebi em mim uma certa sensibilidade para imagens fortes, o que, em alguns casos, me fez desviar os olhos da tela. Da mesma forma, descobri uma fragilidade que até então desconhecia, me deparando, ao final da projeção, com um indivíduo completamente derrubado emocionalmente

Labirinto do Fauno e Ofélia

Contudo, não consigo definir se minha angústia é pela brutalidade demoníaca de uma sociedade pós-guerra que todos sabemos que existiu, ou se pela trajetória amarga e desesperadora que a jovem Ofélia atravessa neste filme.

Estabelecendo um clima sério e pessimista desde a primeira cena, El Laberinto del Fauno sugere uma incompatível sensação de leveza quando a vemos retroceder, e a fábula narrada neste início, apesar de essencialmente melancólica, colabora para esta sensação. Infelizmente, apesar do destino ao qual somos apresentados, este sentimento jamais se realiza (embora, também, existam diferentes interpretações a serem tiradas). O próprio mundo que Ofélia descobre representa uma fantasia sombria e horrível, já que até as fadas que ela conhecia dos livros são assustadoramente diferentes em sua realidade, embora a garota as reconheça com naturalidade e jamais expresse medo – nem mesmo da duvidosa criatura-título do labirinto. Na verdade, Ofélia tem uma coragem fascinante, não hesitando em entrar em buracos escuros e enlameados, repletos de insetos nojentos, e nem mesmo em se aproximar de criaturas apavorantes – em especial o próprio Fauno.

Dividindo espaço com uma realidade infinitamente mais assustadora, a jornada de Ofélia se torna sempre mais terrível quando é ao lado de seres humanos. E seu padrasto representa um dos poucos vilões do cinema dos quais já senti repulsa e medo, alguém que me faria tremer ao cruzar seu caminho. E se os dois lados da história se cruzam em certos momentos (como a presença da misteriosa raiz, por exemplo), ao mesmo tempo é difícil decidir se devemos acreditar ou não naquela fábula, ou considerá-la apenas uma alternativa inventada pela garota.

Apesar disso, acreditar nela é o que mais desejamos ao fim dessa cruzada arrasadora. Quando uma determinada personagem chora nos segundos finais da projeção, confesso que a acompanhei em seu lamento. Definitivamente, este O Labirinto do Fauno é o filme mais triste que já assistir.

5-estrela1

Que estranho… fora do ninho.

20 20UTC Setembro 20UTC 2007

Chego em casa e não vejo a passarinha na gaiola.

Uma gaiola que, é importante dizer, não tem buracos ou portas fáceis de abrir.

Mais atento, vejo um dinossaurozinho de plástico – que eu nunca tinha visto antes – caído no chão da gaiola e levo um susto… mas então percebo a ausência de penas e um flash me faz lembrar de um assunto parapelo, a evolução das espécies. Deixo isso de lado e faço uma busca por toda a casa: nada.

Até que olho para o sofá, onde o cachorro estava dormindo quando cheguei.

Ora ela voava por 50 centímetros cúbicos dentro de uma gaiola, outrora, ela estava enrolada numa capa de pano e agora jaz dentro de uma sacola de plástico sobre a máquina de lavar, esperando que minha irmã chegue e tome alguma providência, depois que nauseado consegui recolher seus restos mortais.

O pior: esta morte é um enorme mistério (pois a gaiola não tinha mesmo qualquer saída e o dinossauro continua um ponto inexplicado para mim) e fico imaginando o que as únicas testemunhas (fora o provável assassino) sentiram ao ver, da outra gaiola, seu filhote sendo… Argh!

Com certeza esta experiência me marcará para o resto da vida.