Inspirado na obra da cantora canadense Alanis Morissette.
Este conto foi escrito no final de 2003 e, desde então, passou por poucas revisões já que decidi mantê-lo como representante daquela época. Reconheço que não é o melhor dos meus textos (ainda acho que meus contos mais dignos são Uma vez. e Cicatriz), mas por seu significado (para mim e para algumas outras pessoas), é um pelos quais mais tenho carinho.
Espero que apreciem.
Ironia
Camila, uma mulher de quase quarenta anos e muito bonita, entrou em casa no exato instante em que o relógio badalou à uma hora da manhã. Ela deixou a luz apagada, já conhecia muito bem o caminho que percorria todos os dias há quase seis anos. Embora não fosse uma surpresa, tropeçar depois de alguns passos não era exatamente o que esperava que acontecesse. Ela pegou rápido o celular de dentro da bolsa e iluminou o chão para encontrar: um tênis. Ela o recolheu, subiu as escadas em silêncio – o par estava quase no último degrau – e, no andar de cima, viu uma claridade fraca por baixo da primeira porta do corredor. Camila se aproximou e bateu levemente; aguardou, mas ninguém respondeu, então abriu a porta.
Uma adolescente de talvez dezessete anos, e muito parecida com Camila, estava deitada ainda com os óculos no rosto e a tevê ligada. Era Ana. Camila deixou o par de tênis no chão e foi até a cômoda acender um abajur – que tomou o quarto de azul – e desligar o televisor. Ela aproximou-se da garota e, quando tentou tirar seus óculos, a fez acordar. Ana sorriu.
- Ssh… Está tarde, mocinha, volte a dormir.
- Olá, Cinderela – disse Ana carinhosa, com a voz abafada por um bocejo e se levantando. – Sabia que já passa da meia-noite? Está atrasada.
- Pois é… – murmurou Camila se sentando na cama, parecia exausta. – Mas pra mim ainda é sexta-feira.
- E então, como foi?
- Advinha – desafiou a mulher arregalando os olhos e com um sorriso sintético
- Ham… deixe-me, ver… – pensou Ana fazendo a mesma expressão. – Acho que… perfeito! – e riu agudo pela animação.
Mas Camila murchou o sorriso falso e abaixou os olhos com um suspiro.
- Ah, meu Deus! – desanimou Ana. – Foi tão ruim assim?
- Não exatamente – disse Camila defensiva. – Só um pouco… Irônico?
- Por quê?
- Tinha um saxofonista.
- Ai! Sério?
- É.
- Nossa…
- É, eu sei.
- Olha, quer ouvir algo irônico de verdade?
- Tenho?
- Tem.
- Tá.
- É que acabou de dar na reportagem: quarta-feira um velhinho completou noventa e oito anos e… Ganhou na loteria.
- E daí?
- Você acha pouco?
- Tá, ele é velho, mas isso não é tão irônico assim, ele deve ter família.
- Tem. Um sobrinho de quarenta e dois anos, americano.
- Então.
- O cara foi executado hoje na cadeira elétrica.
- Nossa!
- Pois é, o advogado parou dois minutinhos na estrada para vomitar uma panqueca e não chegou a tempo de mostrar ao Governador a prova da inocência do moço.
- Você tá falando sério?
- Tô.
- Meu deus, mas isso é um absurdo!
- Pois é. Mas ainda não acabou.
- Tem mais?!
- O engraçado é que não. Lembra do titio milionário?
- Ãh?
- Ontem ele morreu.
Camila soltou um soluço. Algo que lembrou uma risada de susto.
- Que horror!
- Pois é. Não sobrou mais nada: nem tio nem sobrinho.
- Eles não tinham mais parentes?
- Nenhum.
- Nossa! – disse Camila então, caindo num silêncio retumbante. E breve. – Isso foi bem irônico.
- Pois é – disse Ana, olhando para a outra, que mirava o tapete azulado (mas que era branco).
As duas reagiram em coro para dizer alguma coisa, mas se interromperam ao mesmo tempo, uma dando a vez para a outra, que aceitou de bom grado a gentileza, mas se interrompeu a segunda vez. Ana decidiu não tentar a terceira e Camila disse:
- Pois é… Acredita que tinha uma mosca no meu Chardonnay? – disse Camila distraída.
- Nossa! – disse Ana, que novamente ia falar, mas se interrompeu a terceira vez quando alguém abriu a porta do quarto sem bater.
- Te acordamos, Dê? – perguntou Camila, olhando para a mulher pouco mais jovem que ela e ainda sonolenta.
- Não – disse Denise, entrando – fiquei com vontade de varrer e levantei.
Ana riu. Camila esticou um braço na direção dela e Denise foi até a cama para se deitar no colo da oferecida.
- Sobre o que estão conversando?
- Ironia – respondeu Ana.
- Aquela coisa que dizemos que acontece quando chove granizo no dia do seu casamento?
- É – disse Ana.
- Quando anunciam um passeio grátis depois que você já pagou?
- Isso.
- Aquele bom conselho que você simplesmente não aceitou?
As três olharam para entrada do quarto. Lúcia, uma jovem de vinte e poucos anos, estava encostada na moldura da porta olhando para elas.
- Quem ia imaginar que estava certo? – perguntou Denise.
Camila sorriu e olhou para Lúcia outra vez.
- Ficou com vontade de pintar a casa?
- Não, acordei com as vozes de vocês.
Ana e Denise riram rápido. Camila só tremeu os lábios.
- Cabe mais uma aqui – disse Camila, esticando os braços também para Lúcia.
Lúcia foi até elas e deu a volta pela cama, deitando ao lado de Ana. Camila abaixou os braços. Elas ficaram em silêncio por um tempo, então Denise disse, pensativa:
- Fiquei sabendo que o Sr. Certinho tinha medo de voar, mas mesmo assim ele aprontou as malas e beijou sua família – (“Adeus” disse Lúcia) – Me disseram que o cara esperou sua maldita vida inteira para fazer aquela viagem.
- E aposto – apostou Lúcia – que enquanto o avião caía ele pensava: “Nossa, isto é tão divertido!”.
- E isto não é irônico? – perguntou Camila, um pouco mais séria do que a ocasião pedia.
- E como foi a festa? – perguntou Lúcia desdenhosa.
Camila soltou uma risadinha…
- Irônica – disseram Camila e Ana juntas.
- Pois é – começou Lúcia -, a vida tem um jeito engraçado de ir furtivamente sobre você na hora em que tudo está indo bem.
- E com certeza – disse Ana -, tudo daria certo.
- Mas eu era a única pessoa desacompanhada – desabafou Camila. – Ah, e tinha um saxofonista.
- Ai! – disseram as duas mulheres que ainda não sabiam disso.
- E a vida – disse Lúcia – tem um jeito incrível de te ajudar quando você pensa que tudo está acabado.
- Está acabado – disse Camila olhando para Lúcia.
- Mas e aquele cara do jornal? – perguntou Denise, erguendo a mão como uma aluna bem educada. – Ele não disse que te encontraria na festa?
- E encontrou.
- E? – fizeram duas das três (Lúcia não parecia muito interessada).
- Ele me apresentou a esposa. E como era bonita a filha da mãe!
Das quatro (é, Camila também), Lúcia foi a primeira a rir.
- Faça o que eu digo e o que eu faço – disse Lúcia.
- Estou ponderando seriamente sobre isso – respondeu Camila.
- Não sei se é boa idéia – disse Ana.
- Por quê? – cobrou Lúcia.
- Seria um pouco irônico demais.
- Ironia é um congestionamento quando você já está atrasada – declarou Denise.
- E um aviso de “não fume” na sua pausa para o cigarro – disse Lúcia.
- E como ter dez mil colheres – disse uma Camila indignada – quando tudo o que você precisa é de uma faca – terminou com um esguicho agudo.
Elas riram cansadas. Então ficaram em silêncio e Ana disse:
- É encontrar o homem dos seus sonhos e então conhecer sua linda esposa.
Lúcia virou os olhos e riu sem achar graça e Camila se deitou sobre ela, acariciando o rosto de Denise no seu colo. Ana concordou em relaxar também, mas achou que não precisava tirar os óculos ainda.
- Isto não é irônico? – perguntou a mulher de quase quarenta anos. – Um pouco irônico demais, não acham?
Todas ficaram em silêncio mais uma vez. Denise meio que roncou ao tentar conter uma risada e as outras na cama não a imitaram, preferiram rir mesmo. Depois, lentamente foram ficando quietas, calmas, caladas. Só Camila, depois, voltou a falar, e falou cada vez mais baixo:
- É como perder o vestido horas antes do “sim”. Morrer do coração ao ler o bilhete premiado.
Lentamente ela foi sentindo o sono.
- Morrer do seu maior medo, mas acabou de terminar a terapia. Ele podia ter vomitado nos fios…
Com ela, três mulheres mudas.
- Ele devia viver de amor, na Terra, não no Céu. Foi mancada atrasar o relógio e furar o pneu; mas eu só queria fumar, por que ele foi deixar o gás vazar?
Camila fechou os olhos.
- Mas achar o seu Shrek na festa da Fiona é…
Ela sorriu para si mesma.
- É tentar matar uma mosca com uma colher; pagar por um vinho e logo depois a casa oferecê-lo de graça, mas você já pagou.
Ela fez uma careta.
- Aí você encontra a mosca na sua taça.
Ela pareceu ressonar, trocando a careta por um rosto calmo e inexpressivo. Seus olhos mexeram e ela murmurou alguma coisa que lembrou “é, eu realmente acho…”, deixando nos lábios um esgar de sorriso, tornando sua feição ligeiramente irônica, banhada por uma leve luz azulada (mas o batom era rosa; discreto, mas rosa).
- Ela dormiu? – perguntou Ana, tentando ver o rosto da mãe.
- Acho que sim – disse Denise.
Lúcia deu um tapa indeciso na cabeça de Camila, que acordou de novo. Ana devolveu um tapa em Lúcia, reclamando.
- Acho que preciso de um banho – disse Camila, acordando meio zonza, parecendo querer fingir que não dormiu por um instante.
Ana olhou direto para Lúcia.
- Acho que não vai dar – disse Denise.
- Por quê? O encanador não veio? – perguntou Camila.
- Veio – disse Lúcia.
- E qual era o problema?
- Nada demais – disse Lúcia. – Ele só emendou uma rachadura pequena. Mas pediu que trocássemos o encanamento até o final do ano, por segurança.
- Então qual é o problema com o banheiro? Hein, Ana?
- Ela tentou matar uma barata agora à noite – disse Denise. E Lúcia completou, com um riso:
- E conseguiu destroçar dois canos.