Arquivo para Dezembro, 2007

25 centavos

5 05UTC Dezembro 05UTC 2007

 

Ela continuou parada, mesmo quando o barco já desaparecera na escuridão. Não conseguia entender, não compreendia porque doía tanto. Ela havia vencido; e a dor da vitória era amarga demais.

Vinte e cinco centavos; esse era o preço daquele momento. Cinco moedas.

Há dois dias era diferente: há dois dias seus olhos ainda eram castanhos. Hoje, seus olhos azuis secos e opacos não dizem mais que a vida é linda. Eles gritam, roucos, que não vela a pena, eles gemem que viver é uma penitência injusta demais para quem tem vida e não consegue mais respirar.

O barco deu seu último apito e ela sabia que o garoto de olhos castanhos não poderia cumprir sua última promessa. Ele atravessava o Atlântico e o Atlântico todo a trespassava como uma interminável lança banhada em veneno. Pela primeira vez ela odiou o mar. Odiou-o por carregar seus olhos, por deixá-la cega, por ressuscitá-la viva.

Segurando sua mão, ele despejou algo dentro dela e a selou para e com um beijo. Ao invés de responder o que era aquilo, quando ela perguntou, ele apenas e carinhosamente disse que ainda acertaria as contas com ela; e se afastou. Ela levantou a mão e quis ver o que estava ali dentro, mas parou à ordem dos olhos dele (“espere até que eu vá”), acentuados pelo movimento de sua mão. Ela continuou olhando-o, imóvel.

Ele embarcou e, detrás da amurada, se entregou a olhar a garota estática. Ele ergueu uma mão e tocou o lábio com o indicador, parecendo pedir silêncio, e ela sentiu uma forte brisa levar para longe sua alma, seu coração e seu ar. Ela não sobreviveria, não com apenas vinte e cinco centavos, o que descobriu haver em suas mãos. Cinco moedas de cinco centavos: o pagamento imposto por ela quando disse que um dia ele entenderia o quanto a amava e que quando chegasse esse dia seria tarde demais. Ela sabia o que ia acontecer, não por ser uma bruxa ou uma feiticeira, mas por ser uma amante e por ser tão errante.

As ondas do mar levavam para longe seu espírito gêmeo e nunca mais ele acharia o caminho de volta.

Outra brisa soprou a praia e trouxe consigo gotas de chuva grossas e frescas. Essa chuva parecia enfeitiçada, talvez estivesse pois trouxe-lhe um largo e melancólico sorriso. As gotas pesadas batiam com força contra o seu rosto e, a cada impacto, diante dos seus olhos explodiam imagens de vida ao lado de olhos castanhos. Foi fácil rir então, e sem a obrigação de camuflar a dor: não era preciso agradar – enganar – alguém. Não desta vez. Ela agora, em meio à água da chuva, em seus lábios sentia o gosto das próprias lágrimas, e elas não estavam amargas, mas vivas e gritando coros alegres. Havia algo alegre. Não importava que havia acabado, mas que tinha começado, e não importava que nunca mais o teria… ela eternamente o sentiria.

Com a chuva ela conseguiu matar o que a feria, e agora estava livre outra vez. Ainda mais livre do que da última vez. Agora estava viva apenas por ela – mas uma parte de si sempre viverá por ele – seja quem for ele.

A chuva cessou de repente e um grito afugentou a escuridão, a luz do farol iluminou o vasto oceano que agora estava vazio e talvez calmo. E outra vez ela se lembrou de que nunca mais o veria. Então se virou e caminhou para casa. Mas não imaginou que seus olhos azuis, agora escuros, olhavam naquele momento uma praia distante, onde uma garota de vestido amarelo junto ao corpo molhado caminhava na direção oposta à do observador, cuja memória trouxe à tona uma frase ouvida algum tempo atrás:

- As vidas se cruzam…

E, distante, alguém lhe acompanhou:

- … e os caminhos se separam.

“As almas gêmeas se reencontram”.

Ouro e Prata

5 05UTC Dezembro 05UTC 2007

 

Não minta para mim, idiota! Se você não disser onde dormiu ontem a noite eu acabo com tudo agora. Ah, ficou com medo, né? Que bom. Pelo menos você sabe que eu não sou idiota. Pára de mentir, eu sei que é mentira. Eu liguei na casa da sua mãe e ela disse que você tinha saído logo depois do jantar. Foi o seu pai que atendeu, deixa de ser mentiroso. Pelo amor de deus, o que é que custa dizer a verdade pelo menos uma vez na vida, eu sei que você não dormiu na casa dos seus pais… E eu sei que você não dormiu no escritório. Eu também liguei na casa dele, eu liguei para todo lugar… Sai, sai… Me larga. É lógico que eu tô chorando, imbecil! Pensa que eu não sei que você saiu com aquelas vagabundas da faculdade? Pensa que eu não sei de nada, é? Ah meu deus… Meu deus… Meu deus… Por que você fez isso comigo? OLHA PRA MIM! Eu te dei tudo, te dei a minha vida, te dei a minha casa, te dei o meu dinheiro, o meu corpo, a minha saúde. E agora você sai e se diverte e se gaba e gasta todo o meu dinheiro com aquelas vadias. Eu nunca, nunca fiz nada de errado. Eu estou aqui todos os dias, esperando, aguardando, me cuidando para você ter um bom motivo, um ÓTIMO MOTIVO para vir pra casa. Mas aí o que você faz? SAI COM AQUELAS VAGABUNDAS! Eu te odeio… Te odeio te odeio, odeio, odeio, odeio! ODEIO! Sai daqui! Sai da minha casa! MENTIROSO! Cachorro! Eu vi você no carro dela, eu vi você beijando ela… Ah, não… Imagina… Eu é que enlouqueci de uma hora para a outra. Eu vi, seu desgraçado! Com os meus próprios olhos! Eu vi tudo, tudinho… Eu te vi dando o meu dinheiro para ela. Eu VI! Eu não quero saber, não quero te ouvir, não quero te perdoar… Você não tem mais chance. Já era… Agora já era… Não, não, não… Sai de perto de mim! Quê?!… Mas o quêêê?!… Não, não… Sai do jeito que você tá. Não tem nada seu nessa casa. Aliás até a roupa do teu corpo fui eu que te dei. Devia te fazer sair pelado! Você não gosta de se exibir? Então? Que ótima oportunidade, hein? Mostrar o rabo entre as pernas, e esse… Esse grande, nossa, que pedaço de ouro, né?! Te deu tudo o que você queria, esse negócio. Como é que você se sente, hein, sabendo que não tem nada além disso. Na-da. Deve ser horrível ser você… Agora sai, sai daqui. Vai, sai. Não? Quer mais persuasão? Então olha… Hahahaha… Isso! Foge… Vai, foge, cachorro. Corre! Isso, corre… Rápido. O quê?… Ha-ha… Louco é você. Você é quem perdeu o juízo quando achou que eu ia te deixar me usar… Quando pensou que eu não ia reagir. Cala a boca! E pára de rir! Acha que pode rir de mim? SAI DAQUI! SAI! SAAAAAAAI! AAAH! AAAH! AAAH! Aah? Ai meu deus! AAAAAAAAAAAH! Naão… Não, desculpa… Aai… Ai meu amor, desculpa… Não, não faz isso… Não faz! Aaah! AAAAAAH! O que eu fiz?!!!! Alguém me ajuda! Eu não queria… Eu não queria… Eu juro que não queria… … Aaai… Seu cachorro…!

Eironeía

5 05UTC Dezembro 05UTC 2007

Inspirado na obra da cantora canadense Alanis Morissette.

Este conto foi escrito no final de 2003 e, desde então, passou por poucas revisões já que  decidi mantê-lo como representante daquela época. Reconheço que não é o melhor dos meus textos (ainda acho que meus contos mais dignos são Uma vez. e Cicatriz), mas por seu significado (para mim e para algumas outras pessoas), é um pelos quais mais tenho carinho.

Espero que apreciem.

Ironia

Camila, uma mulher de quase quarenta anos e muito bonita, entrou em casa no exato instante em que o relógio badalou à uma hora da manhã. Ela deixou a luz apagada, já conhecia muito bem o caminho que percorria todos os dias há quase seis anos. Embora não fosse uma surpresa, tropeçar depois de alguns passos não era exatamente o que esperava que acontecesse. Ela pegou rápido o celular de dentro da bolsa e iluminou o chão para encontrar: um tênis. Ela o recolheu, subiu as escadas em silêncio – o par estava quase no último degrau – e, no andar de cima, viu uma claridade fraca por baixo da primeira porta do corredor. Camila se aproximou e bateu levemente; aguardou, mas ninguém respondeu, então abriu a porta.

Uma adolescente de talvez dezessete anos, e muito parecida com Camila, estava deitada ainda com os óculos no rosto e a tevê ligada. Era Ana. Camila deixou o par de tênis no chão e foi até a cômoda acender um abajur – que tomou o quarto de azul – e desligar o televisor. Ela aproximou-se da garota e, quando tentou tirar seus óculos, a fez acordar. Ana sorriu.

- Ssh… Está tarde, mocinha, volte a dormir.

- Olá, Cinderela – disse Ana carinhosa, com a voz abafada por um bocejo e se levantando. – Sabia que já passa da meia-noite? Está atrasada.

- Pois é… – murmurou Camila se sentando na cama, parecia exausta. – Mas pra mim ainda é sexta-feira.

- E então, como foi?

- Advinha – desafiou a mulher arregalando os olhos e com um sorriso sintético

- Ham… deixe-me, ver… – pensou Ana fazendo a mesma expressão. – Acho que… perfeito! – e riu agudo pela animação.

Mas Camila murchou o sorriso falso e abaixou os olhos com um suspiro.

- Ah, meu Deus! – desanimou Ana. – Foi tão ruim assim?

- Não exatamente – disse Camila defensiva. – Só um pouco… Irônico?

- Por quê?

- Tinha um saxofonista.

- Ai! Sério?

- É.

- Nossa…

- É, eu sei.

- Olha, quer ouvir algo irônico de verdade?

- Tenho?

- Tem.

- Tá.

- É que acabou de dar na reportagem: quarta-feira um velhinho completou noventa e oito anos e… Ganhou na loteria.

- E daí?

- Você acha pouco?

- Tá, ele é velho, mas isso não é tão irônico assim, ele deve ter família.

- Tem. Um sobrinho de quarenta e dois anos, americano.

- Então.

- O cara foi executado hoje na cadeira elétrica.

- Nossa!

- Pois é, o advogado parou dois minutinhos na estrada para vomitar uma panqueca e não chegou a tempo de mostrar ao Governador a prova da inocência do moço.

- Você tá falando sério?

- Tô.

- Meu deus, mas isso é um absurdo!

- Pois é. Mas ainda não acabou.

- Tem mais?!

- O engraçado é que não. Lembra do titio milionário?

- Ãh?

- Ontem ele morreu.

Camila soltou um soluço. Algo que lembrou uma risada de susto.

- Que horror!

- Pois é. Não sobrou mais nada: nem tio nem sobrinho.

- Eles não tinham mais parentes?

- Nenhum.

- Nossa! – disse Camila então, caindo num silêncio retumbante. E breve. – Isso foi bem irônico.

- Pois é – disse Ana, olhando para a outra, que mirava o tapete azulado (mas que era branco).

As duas reagiram em coro para dizer alguma coisa, mas se interromperam ao mesmo tempo, uma dando a vez para a outra, que aceitou de bom grado a gentileza, mas se interrompeu a segunda vez. Ana decidiu não tentar a terceira e Camila disse:

- Pois é… Acredita que tinha uma mosca no meu Chardonnay? – disse Camila distraída.

- Nossa! – disse Ana, que novamente ia falar, mas se interrompeu a terceira vez quando alguém abriu a porta do quarto sem bater.

- Te acordamos, Dê? – perguntou Camila, olhando para a mulher pouco mais jovem que ela e ainda sonolenta.

- Não – disse Denise, entrando – fiquei com vontade de varrer e levantei.

Ana riu. Camila esticou um braço na direção dela e Denise foi até a cama para se deitar no colo da oferecida.

- Sobre o que estão conversando?

- Ironia – respondeu Ana.

- Aquela coisa que dizemos que acontece quando chove granizo no dia do seu casamento?

- É – disse Ana.

- Quando anunciam um passeio grátis depois que você já pagou?

- Isso.

- Aquele bom conselho que você simplesmente não aceitou?

As três olharam para entrada do quarto. Lúcia, uma jovem de vinte e poucos anos, estava encostada na moldura da porta olhando para elas.

- Quem ia imaginar que estava certo? – perguntou Denise.

Camila sorriu e olhou para Lúcia outra vez.

- Ficou com vontade de pintar a casa?

- Não, acordei com as vozes de vocês.

Ana e Denise riram rápido. Camila só tremeu os lábios.

- Cabe mais uma aqui – disse Camila, esticando os braços também para Lúcia.

Lúcia foi até elas e deu a volta pela cama, deitando ao lado de Ana. Camila abaixou os braços. Elas ficaram em silêncio por um tempo, então Denise disse, pensativa:

- Fiquei sabendo que o Sr. Certinho tinha medo de voar, mas mesmo assim ele aprontou as malas e beijou sua família – (“Adeus” disse Lúcia) – Me disseram que o cara esperou sua maldita vida inteira para fazer aquela viagem.

- E aposto – apostou Lúcia – que enquanto o avião caía ele pensava: “Nossa, isto é tão divertido!”.

- E isto não é irônico? – perguntou Camila, um pouco mais séria do que a ocasião pedia.

- E como foi a festa? – perguntou Lúcia desdenhosa.

Camila soltou uma risadinha…

- Irônica – disseram Camila e Ana juntas.

- Pois é – começou Lúcia -, a vida tem um jeito engraçado de ir furtivamente sobre você na hora em que tudo está indo bem.

- E com certeza – disse Ana -, tudo daria certo.

- Mas eu era a única pessoa desacompanhada – desabafou Camila. – Ah, e tinha um saxofonista.

- Ai! – disseram as duas mulheres que ainda não sabiam disso.

- E a vida – disse Lúcia – tem um jeito incrível de te ajudar quando você pensa que tudo está acabado.

- Está acabado – disse Camila olhando para Lúcia.

- Mas e aquele cara do jornal? – perguntou Denise, erguendo a mão como uma aluna bem educada. – Ele não disse que te encontraria na festa?

- E encontrou.

- E? – fizeram duas das três (Lúcia não parecia muito interessada).

- Ele me apresentou a esposa. E como era bonita a filha da mãe!

Das quatro (é, Camila também), Lúcia foi a primeira a rir.

- Faça o que eu digo e o que eu faço – disse Lúcia.

- Estou ponderando seriamente sobre isso – respondeu Camila.

- Não sei se é boa idéia – disse Ana.

- Por quê? – cobrou Lúcia.

- Seria um pouco irônico demais.

- Ironia é um congestionamento quando você já está atrasada – declarou Denise.

- E um aviso de “não fume” na sua pausa para o cigarro – disse Lúcia.

- E como ter dez mil colheres – disse uma Camila indignada – quando tudo o que você precisa é de uma faca – terminou com um esguicho agudo.

Elas riram cansadas. Então ficaram em silêncio e Ana disse:

- É encontrar o homem dos seus sonhos e então conhecer sua linda esposa.

Lúcia virou os olhos e riu sem achar graça e Camila se deitou sobre ela, acariciando o rosto de Denise no seu colo. Ana concordou em relaxar também, mas achou que não precisava tirar os óculos ainda.

- Isto não é irônico? – perguntou a mulher de quase quarenta anos. – Um pouco irônico demais, não acham?

Todas ficaram em silêncio mais uma vez. Denise meio que roncou ao tentar conter uma risada e as outras na cama não a imitaram, preferiram rir mesmo. Depois, lentamente foram ficando quietas, calmas, caladas. Só Camila, depois, voltou a falar, e falou cada vez mais baixo:

- É como perder o vestido horas antes do “sim”. Morrer do coração ao ler o bilhete premiado.

Lentamente ela foi sentindo o sono.

- Morrer do seu maior medo, mas acabou de terminar a terapia. Ele podia ter vomitado nos fios…

Com ela, três mulheres mudas.

- Ele devia viver de amor, na Terra, não no Céu. Foi mancada atrasar o relógio e furar o pneu; mas eu só queria fumar, por que ele foi deixar o gás vazar?

Camila fechou os olhos.

- Mas achar o seu Shrek na festa da Fiona é…

Ela sorriu para si mesma.

- É tentar matar uma mosca com uma colher; pagar por um vinho e logo depois a casa oferecê-lo de graça, mas você já pagou.

Ela fez uma careta.

- Aí você encontra a mosca na sua taça.

Ela pareceu ressonar, trocando a careta por um rosto calmo e inexpressivo. Seus olhos mexeram e ela murmurou alguma coisa que lembrou “é, eu realmente acho…”, deixando nos lábios um esgar de sorriso, tornando sua feição ligeiramente irônica, banhada por uma leve luz azulada (mas o batom era rosa; discreto, mas rosa).

- Ela dormiu? – perguntou Ana, tentando ver o rosto da mãe.

- Acho que sim – disse Denise.

Lúcia deu um tapa indeciso na cabeça de Camila, que acordou de novo. Ana devolveu um tapa em Lúcia, reclamando.

- Acho que preciso de um banho – disse Camila, acordando meio zonza, parecendo querer fingir que não dormiu por um instante.

Ana olhou direto para Lúcia.

- Acho que não vai dar – disse Denise.

- Por quê? O encanador não veio? – perguntou Camila.

- Veio – disse Lúcia.

- E qual era o problema?

- Nada demais – disse Lúcia. – Ele só emendou uma rachadura pequena. Mas pediu que trocássemos o encanamento até o final do ano, por segurança.

- Então qual é o problema com o banheiro? Hein, Ana?

- Ela tentou matar uma barata agora à noite – disse Denise. E Lúcia completou, com um riso:

- E conseguiu destroçar dois canos.

A Filha do Chefe

5 05UTC Dezembro 05UTC 2007

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Receoso por desperdiçar meu tempo assistindo a um filme repleto de bobagens, com uma história medíocre e piadas infames ou apenas inúteis, acabei atraído pelos minutos iniciais deste longa repleto de bobagens e com algumas piadas tolas, mas com uma história divertidamente… absurda.

Neste início, logo na primeira cena, já vemos algo fora do comum (mas nem tanto), quando um homem fica preso do lado de fora do Metrô enquanto sua mão e valise estão lá dentro. Após ser “parado” por um pilar da plataforma, ele perde sua maleta, que é adotada pelo protagonista Tom, de Ashton Kutcher, e aí testemunhamos o personagem passar por vários constrangimentos, iniciando então sua cruzada.

E à partir disso, enquanto esperava por uma brecha para trocar de canal, fui ficando cada vez mais envolvido pela história. O que mais me chamou a atenção foi a criatividade dos realizadores em colocar o protagonista em situações cada vez mais embaraçosas, e muitas vezes engraçadas, desde as mais simples e inusitadas – como quando a personagem-título surpreende o garoto em seu closet e, em outra cena, faz um strip-tease – até as simplesmente absurdas – entre elas, o quase homicídio, a ameaça com uma arma e, posteriormente, a insistente declaração dos demais personagens em reunir toda a responsabilidade pelos incidentes sobre Tom – o que inclui uma tentativa de suicídio totalmente inesperada.

Apresentando um desfecho simples demais depois de um roteiro repleto de criatividade, A Filha do Chefe acaba perdendo um pouco de sua graça nestes momentos finais, contudo, a experiência foi boa e isso é um grande mérito para uma produção que tinha tudo para ser mais uma porcaria hollywoodiana sem graça.

4-estrela6

O Código Da Vinci (Ron Howard)

5 05UTC Dezembro 05UTC 2007

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Me lembro de, ao assistir este filme no cinema, tê-lo achado irritantemente longo e sem graça. As poucas seqüências de ação, por exemplo, não tinham ritmo e não pareciam representar qualquer perigo. Pois algo mudou desta vez, parece que o modo de assistir a um filme realmente influencia nossa opinião, pois pela TV, O Código Da Vinci se mostrou infinitamente mais interessante e atraente do que na telona.

Minha opinião pela história permanece a mesma, desde o livro: não é tão surpreendente a ponto de conquistar o mundo, mas não é exatamente estúpida para passar desapercebida. Na verdade, a teoria apresentada pela obra (livro ou filme) não chama a atenção por ser polêmica ou anti-cristã (o que é, neste último caso), mas por ser simplesmente uma nova versão de uma história a qual nos acostumamos e – culturalmente forçados – assim aceitamos. Particularmente, não acho absurdo acreditar nessa premissa. E, apesar da enorme falta de respeito dos realizadores do filme em amenizar a polêmica da história original, acho conveniente o discurso final do protagonista de Tom Hanks, dizendo que “o mais importante é no que você acredita”. Assim, o filme se encarrega de nos lembrar que esta é apenas uma versão entre as inúmeras possíveis da nossa História, e que ninguém deveria se ofender com essa alternativa.

Falando nas alterações do roteiro, então, vem minha decepção. Claro que nem todo mundo é um Peter Jackson da vida e consegue adaptar um romance mantendo os mesmos sentimentos no filme, mas o que acontece em O Código Da Vinci chega a ser frustrante já que, apesar dos bons momentos de suspense e investigação, jamais nos sentimos absorvidos pela história, cujos enigmas passam quase em branco, sendo resolvidos antes mesmo de percebermos sua existência. E por que ignorar o segundo críptex e simplificar o acesso ao cofre do banco? Ao invés disso, o roteirista prefere gastar tempo com flashbacks que jamais acrescentam algo a narrativa. Por outro lado, a presença dramática e carismática dos personagens, respectivamente, Silas e Sir Leigh, consegue equilibrar os tantos defeitos ao longo da projeção. Afinal, é especialmente através desses dois personagens que a história se desenvolve – o primeiro é quem age, o segundo é quem dá as informações mais importantes da trama.

A razão de existir de obras como The Da Vinci Code é apenas entreter e não propagar tantas discussões, dividir religiões ou (que absurdo) criar uma nova. Assim, defendo que este é um filme que merece ser visto, pois é uma boa trama de suspense e conspiração. Apesar dos muitos defeitos, este é um daqueles filmes dos quais é fácil gostar – embora seja muito difícil ser um fã. Ainda assim, acredito que seu maior desafio será convencer as pessoas de que podem assisti-lo, sem sofrer maiores efeitos colaterais.

3-estrela

Caos

5 05UTC Dezembro 05UTC 2007

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Tenho a impressão de que Jason Stathan veio para substituir atores como Dolph Lundgren ou Steven Seagal, aquele tipo que é contratado por produtores, que querem o rosto mais conhecido que seu orçamento pode pagar, para estrelar aqueles filmes que cheiram à clichê desde a seqüência de abertura até os créditos finais. Não que estes atores (ou mesmo tais filmes) sejam totalmente desastrosos, alguns até funcionam suficientemente bem para a TV. Na verdade, o trabalho de Stathan nem é ruim, e seus filmes até que são interessantes. O que me levou a este pensamento foi observar que de um tempo para cá, Stathan tem participado de mais filmes do que outros atores mais conceituados, e ainda assim continua longe do status de celebridade, o que me faz imaginar que os estúdios estão carimbando seu rosto na nossa tela para que possamos nos atrair pelos filmes que eventualmente irá protagonizar. Ah, sim: estes filmes (b?) inevitavelmente serão recheados de clichês da abertura inicial até os créditos finais, como no caso deste Caos, onde o ator interpreta um tira arrogante e amargo, que perdeu uma refém recentemente e ainda foi aparentemente injustiçado pelo julgamento.

Apesar dos clichês (porque são muitos além do protagonista), Caos acaba se revelando consideravelmente acima da média, já que tem boas seqüência de ação e seus personagens são interessantes e inteligentes o bastante para nos atrair, o que nos permite nos preocupar com eles. Assim, quando um ou outro detetive faz algo arriscado ao perseguir um suspeito, imediatamente ficamos tensos imaginando que ele pode ser ferido ou morto. É o personagem de Ryan Phillipe, em especial, quem nos preocupa mais, já que eventualmente os estúdios decidem sacrificar algum personagem carismático para que o protagonista busque se vingar (e, claro, para sensibilizar o público).

Por outro lado, um determinado incidente no final do segundo ato acaba se revelando um erro de cálculo, já que os anos de experiência com produções do gênero nos impedem de acreditar no que aconteceu, nos avisando com muita antecedência de que aquilo culminará numa reviravolta – o que diminui demais o impacto do desfecho. Aliás, a certeza de uma reviravolta surge já no início da projeção, quando a seqüência de abertura é interrompida para dar espaço aos créditos iniciais (com outro clichê particularmente irritante, onde o contexto da história é narrado através de recortes de jornal); já sabemos que o desenlace daquela situação será outro importante gancho para a trama. Assim, quando o filme se aproxima do final e ouvimos o tradicional discurso de algum personagem que explica todos os seus atos, é inevitável não dar um leve bocejo: depois de uma hora e meia, percebemos que nada do que vimos acrescentou qualquer coisa a nossa vida. E chega a ser particularmente frustrante ver um mocinho tão inteligente entregar-se as exigências de um roteiro pedestre e ser distraído por seu antagonista enquanto o mais lógico seria esperar pela resposta da funcionária que havia alertado.

De qualquer forma, Chaos é um filme tão previsível que até mesmo essa decepção devia ter sido prevista. Ao menos, é o que podemos esperar de um filme que divide espaço entre a inteligência da filosofia budista e lições de gramática.

3-estrela1

Celular – Um Grito de Socorro

5 05UTC Dezembro 05UTC 2007

Por trás da fachada pop e engraçadinha de Cellular, há um thriller tenso e alucinante. Repleto de piadinhas descartáveis, porém, a produção se desgasta em momentos que servem apenas para quebrar a narrativa, desviando constantemente nossa atenção da tensão.

Ainda assim, nem mesmo as piadas condenam Um Grito de Socorro, que nos prende desde o início, sem perder tempo com longas introduções e nos apresentando rapidamente seus personagens. Na verdade, o roteiro acha que construção de personagens se limita e esclarecer que a “mocinha em perigo” é uma Professora de biologia (informação repetida posteriormente, pra garantir que o espectador entenda como ela entende de anatomia humana (!)) e que o “herói” é um playboyzinho egocêntrico (que terá sua devida chance de redenção). Claro, Hollywood entende que não precisamos saber de mais nada a respeito deles, o fato de estarem lutando contra bandidos ou correndo alucinados pelo trânsito já é o bastante.

E aqui, de fato, é.

O lado bom é a excelente química entre Chris Evans e Kim Bessinger – ouso apostar que os realizadores ficaram tentados a dar um final romântico ao casal –, e, ao mesmo tempo, Celular garante ação ininterrupta, nos fazendo torcer pelo sucesso dos mocinhos (as piadas recorrentes atrapalham o ritmo do filme, mas pelo menos dão carisma aos personagens).

Contando com uma trama policial desinteressante pelo clichê que representa, a produção ganha muitos pontos por usá-la bem, nos fazendo quase temer pela segurança dos heróis. Heróis que, diga-se de passagem, são mais espertos do que podíamos esperar, já que eventualmente tomam o controle da situação quando surge a chance. Em certo momento, por exemplo, Ryan (Evans) faz uma ousada escolha quando desliga o telefone na cara do vilão, assim como Jessica (Bessinger), quando avisa o marido que ele terá ajuda, e o bobinho policial de Willian H. Macy, que nos surpreende com sua boa forma para enfrentar os inimigos.

Encerrando-se com o típico final feliz de Hollywood, Celular – Um Grito de Socorro realiza a proeza de não ser um desses filmes dos quais nos esquecemos depois dos créditos finais. Este é um daqueles com personagens tão agradáveis que nos faz pensar neles mesmo depois de algum tempo… E me pergunto, será que Jessica já convidou Ryan para um almoço de domingo? Será que foi por e-mail…?

4-estrela6

Hannibal – A Origem do Mal (Peter Webber)

5 05UTC Dezembro 05UTC 2007

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Não conheço bem a história e Hannibal Lecter, um dos maiores vilões da história recente do Cinema, mas reconheço sua importância e qualidade dramática para os primeiros filmes e livros que protagonizou. E agora surgiu este novo episódio da franquia, que me deixou intimamente satisfeito por não ter sido “revelado” anteriormente. Seria difícil sentir tanta atração (na falta de um termo melhor) por um personagem cuja iniciação em sua “arte” tenha sido tão patética.

Contudo, confesso, o jovem Hannibal é uma figura interessante. Bonito e introspectivo, ao mesmo tempo cínico e ameaçador, à princípio parece realmente ser o velho Lecter a quem nos habituamos (e a interpretação do rapaz me fez pensar na descrição do terrível Tom Riddle do romance Harry Potter e o Príncipe Mestiço). E teria continuado assim se o roteiro de Hannibal Rising não obrigasse o protagonista a percorrer uma trajetória de absurdos, a começar pelo aparente crime que cometeu antes de sua fuga, que simplesmente acontece sem qualquer explicação. E como é desagradável a seqüência que ilustra sua viagem… aliás, o roteiro é repleto de seqüências assim, episódicas e insuficientemente “dissertativas”.

Mas as duas coisas que mais irritam são, primeiro, a classificação-14-anos (a fábula-drama O Labirinto do Fauno é infinitamente mais violenta) e, segundo, ouvir certos personagens descrevendo o protagonista com frases e palavras como “o que ele se tornou”, “monstro” e “não resta espaço para amor em você”. Este sem dúvidas é o Hannibal interpretado por Antonny Hopkins, mas, apesar do que este jovem Hannibal prometeu a princípio, aos poucos ele se revelou apenas um simples serial killer. Eficiente, sim, mas nada diferente de um Jason Vorhees da vida, brutal e caricato, ou um zombie de qualquer filme de zombie, com o rosto sempre sujo de sangue e debruçado sobre o corpo de suas vítimas enquanto as come como animal.

O Dr. Lecter certamente merecia um longa mais digno de sua inteligência e elegância. Mas enquanto não chega o próximo episódio, terá que suportar este Hannibal – A Origem do Mal: a antítese de tudo o que representa.

1-estrela