Junho|Junho
- Vai. – Disse Oliver, quando entendeu o que significava aquele olhar. – Pode ir.
E Marcus continuou com aquele olhar de doçura e completa incompreensão. Oliver deu o primeiro sorriso que conseguiu fingir e se afastou andando de costas, então se virando e indo embora. Se um dezoito-de-junho depois ele achava que ele faria isso, algo de errado deve ter acontecido no meio desse caminho.
- Espera – pediu Marcus –, você não entendeu.
Se ele não tivesse entendido, ele teria dito espera assim que ele andou um passo para trás. Oliver ia dizer algo como não-torne-mais-difícil, mas não queria que aquilo parecesse qualquer coisa difícil, então disse:
- Ãh?
- Você não me entendeu – disse Marcus.
- Okay – fez Oliver, pra ganhar tempo. – Por favor, não ouça ironia no que eu vou dizer agora, mas uma coisa na qual você é ótimo é em explicar. Você sempre foi muito simples.
- Mas você acha que eu quero ir… E não é verdade.
Mas Marcus sabia que fora bastante claro, e sabia que nada desfaria aquilo. Em respeito ao pensamento de Oliver, esperou que ele respondesse. E Oliver demorou alguns segundos para encontrar a resposta adequada aquela situação.
- E eu não queria te deixar ir. Mas nós dois sabemos que aqui não é o seu lugar.
Em outro tempo, Marcus diria vem-comigo. Mas nesse outro tempo, Marcus jamais teria que ir embora. O tempo não cura tudo; às vezes achamos que nos recuperamos, não entendemos que o tempo só continua, só muda. O tempo destrói tudo. Inclusive a dor.
- Eu não posso simplesmente ir – disse Marcus.
- Pode sim. – Oliver sorriu. – Não é pra ser difícil. Ninguém está enganando ninguém.
- Se eu for embora, eu vou te perder.
- E se você voltar, eu estarei aqui.
Se ele fosse embora, ele não iria voltar. Os dois sabiam.
- Se eu for embora, eu não vou voltar.
- Você sabe – Eu sei – disseram os dois ao mesmo tempo.
Um sino começou a badalar na torre da igreja do outro lado da rua. Uma vez. Duas vezes. Três vezes… E Oliver usou a simplicidade típica do outro:
- Então está claro que esta é a última vez que nos vemos.
Cinco vezes, seis vezes, Marcus contou. Ele estava sem relógio e não tinha certeza da hora, então prestou atenção aos badalos do sino para saber se já era hora de voltar. Sete vezes. Parou. Sete da noite, ele podia ir um pouco mais longe…
Naquele dia o tempo já estava mudando, Marcus podia sentir o efeito do frio nos lábios prestes a rachar. A viagem foi mais fácil do que prometia, ele pensou, enquanto atravessava a rua caminhando dez centímetros fora da faixa de pedestres. Um motoqueiro provocou o motor, acelerando em ponto morto, apressando os pedestres. Marcus odiava quando eles faziam aquilo, sentia vontade de parar bem na frente da moto até que o verde acendesse, só pra atrasar o idiota um segundo que fosse – ninguém seria tão estúpido a ponto de tentar atropelá-lo; mas como ele não tinha certeza sobre o limite da estupidez humana, nunca se arriscou. O semáforo abriu quando Marcus já estava alguns passos calçada adentro e viu o motoqueiro costurando agilmente entre os carros, até que sumiu do seu campo de visão, como se se escondesse numa esquina não muito distante. Marcus virou em sua própria esquina e continuou sua caminhada aleatória. Não parecia ter se passado muito tempo quando ele ouviu novamente alguns badalos indicando a nova hora. Na verdade ele não tinha chegado muito longe quando decidiu fazer o caminho inverso e voltar para o hotel, por isso achou que passaria pela igreja quando ela ainda estivesse silenciosa. Não que tenha sido algum tipo de surpresa, perder a noção do tempo é algo comum, mas de certa forma ele achou que tivesse perdido algo mais além do tempo… Nada concreto, aquilo não passava de uma sensação.
Oito vezes e chega. Há um segundo ele pisava no exato lugar onde pisava uma hora e um segundo atrás. Então ele pensou que talvez não tivesse saído do lugar e que aquela hora inteira tivesse caminhado enquanto ele permanecia parado. Um velho amigo criaria mil histórias baseado naquela simples premissa, e uma delas provavelmente seria que ele tivesse sonhado durante um segundo o caminho que fez no que parecia uma hora inteira, e que o oitavo badalo o acordou. Marcus era menos crédulo do que ele, e menos criativo também. Não que ele ignorasse a força do acaso, mas algumas coincidências simplesmente não são importantes.
- Ôpa… Desculpe – disse Marcus, com um educado sorriso, quando se virou e esbarrou num rapaz que passava perto dele naquele instante.
O rapaz parecia abalado, o fôlego frágil o impediu de responder imediatamente as desculpas de Marcus quando finalmente entendeu que o estranho a sua frente tinha esbarrado nele – algo que deve ter demorado dois segundos e alguns décimos. Assim, quando o rapaz respondeu com um sorriso forçado e o início de uma palavra que começava com i, Marcus já perguntava…
- Você está bem?
- Estou. – O rapaz respondeu parecendo ter certeza demais para quem está bem. Mas ele percebeu rápido que o estranho não acreditava nele e tratou de se explicar: – Só estava um pouco distraído, desculpe não te ver, foi minha culpa.
- Imagina! Eu me virei sem atenção… Aliás, posso te pedir uma informação?
- Sim, claro. – Sorriu de novo, mais educado do que atencioso.
No meio do caminho de volta, Marcus pensou em procurar por um lugar da qual já ouvira falar, mas não sabia onde ficava. Foi passando por pessoas querendo pedir orientação, e acabava deixando a pergunta para a próxima que passasse ou, quem sabe, um guarda que cruzasse o caminho. Marcus se lembrou que queria saber como chegar naquele lugar, mas enquanto perguntava para o rapaz se podia perguntar, percebeu que não se lembrava do que queria saber. Só continuou a pergunta porque achou que seria rude interromper a frase.
- Qual é o seu nome? – perguntou, então, não encontrando nenhuma outra pergunta que fizesse sentido, e percebendo que, de certa forma, aquela também não fazia.
Apesar de não ser a mais indiscreta das perguntas, o rapaz não achou que a ouviria de um estranho em quem esbarrasse, e mais pelo supetão do que pela vontade de responder ou pela curiosidade em contra-perguntar por-quê, ele disse:
- Oliver. – E contra-fez: – Por quê?
Marcus riu.
- Desculpe, Oliver. É que eu me esqueci de qual era a pergunta que ia fazer. Juro.
E Oliver riu de volta. Algo naquela simplicidade absurda o fez rir.
- E qual é o seu? – perguntou.
- Marcus. Muito prazer.
Marcus estendeu a mão para ele.
- De onde você é? – Perguntou Oliver enquanto apertava sua mão rapidamente.
- São Paulo.
- Imaginei.
Marcus estendeu a mão para Oliver novamente.
- Bom, você deve ter mais o que fazer – disse Marcus, com um tom de reticência tímida não muito natural. – Mas foi um prazer, Oliver.
- Espero que goste da cidade.
- Essa é a idéia.
- Tchau. – Oliver se afastou.
- Tchau – terminou Marcus, indo na direção oposta.
Ele percebeu em menos de um segundo que estava com um sorriso divertido estampado no rosto. Marcus adorava conhecer pessoas educadas.
- Espera! – falou alto, se virando, na direção de Oliver.
Oliver parou e se virou, ainda não estava longe demais. Marcus só precisava de um pouco de imaginação para descrever as feições do seu rosto.
- Sabe onde fica a Torre de TV?
Oliver deu dois ou três passos de volta entre o chamado de Marcus e a resposta em tom casual que deu pra ele:
- Vou passar do lado.
Marcus deu passos largos, quase corridos, para alcançar Oliver rapidamente. E só quando estava a um metro dele perguntou:
- Então se importa se eu for com você?
- Não.
Foi Oliver, desta vez, depois deles começarem a andar juntos, quem fez a primeira pergunta.
- O que veio fazer em Brasília?
- Passear… Talvez ficar.
- Talvez?
- É. Eu tenho que me mudar até o final do mês, meu inquilino decidiu vender a casa que eu alugava. Aí percebi que não devia… digamos, desperdiçar… não sei-o-quê, e decidi me mudar para outra cidade ao invés de ir pra rua de baixo.
- Já visitou mais alguma cidade pra ver de qual gosta mais?
- Ainda não – riu Marcus. – Estou começando agora a jornada.
Oliver riu antes de dizer:
- Então, agora eu realmente espero que goste de Brasília.
- Tomara que sim – concordou Marcus. – Não tenho muita paciência pra ficar indeciso.
Os dois ficaram em silêncio um pouco, como se apreciassem um café. Ambos com um risinho no canto dos lábios. Oliver gostava de conhecer gente engraçada. Marcus parecia engraçado.
- Mas e você? – perguntou Marcus.
- Eu o quê?
Marcus demorou dois segundos antes de perguntar. Oliver olhou para ele quando percebeu sua demora. Marcus tentou manter o mesmo tom de voz ao perguntar:
- O que veio fazer em Brasília?
- Como assim? – Perguntou Oliver. Marcus estava confundindo algo. – Eu sou daqui.
Marcus olhou para Oliver de volta. Como continuavam caminhando e precisavam olhar por onde pisavam, não se demoraram muito nessa troca de olhar. Mas demoraram o bastante para Marcus dizer e Oliver ouvir:
- Não é não.
Oliver parou de andar discretamente. Marcus também.
Nove vezes. Marcus tirou do pescoço a corrente de bolinhas e as estendeu para Oliver. Dez vezes. Oliver hesitou. Onze vezes. Oliver as recolheu, sem tocar a mão de Marcus, no exato instante em que o sino badalou – elas se foram, as doze vezes. Marcus sabia que não haveria o último toque, mas naquele breve instante sentiu algo que não soube interpretar, nem mais tarde, se era certeza de que Oliver faria, ou vontade que ele fizesse.
Oliver não tinha feito e Marcus lhe lançou aquele olhar de doçura e incompreensão. Aí Oliver disse aquelas palavras:
- Vai. Pode ir.