(Em tradução literal, o título do filme é “Abrigo”)
Em O Segredo de Brokeback Mountain, o diretor Ang Lee apostou numa narrativa lenta e na calma ao ilustrar a aproximação dos personagens de Jake Gyllenhaal e Heath Ledger. Neste filme, Lee também compôs o relacionamento dos vaqueiros como um respiro para ambos de suas vidas desonestas e miseráveis, fazendo com que um fosse uma consolação para o outro. Em Shelter, o diretor e roteirista Jonah Markowitz investiu em palhetas semelhantes ao construir sua pequena obra-prima que, pequenas imperfeições à parte, alcançaria facilmente o patamar de clássico e ícone caso ganhasse alguma oportunidade comercial.
Zach (Trevor Wright) é um jovem adulto preso numa vida pacata e arrastada, onde divide seus dias entre tarefas básicas para sua sobrevivência, seja o trabalho que pagará suas contas e alimentação, ou o surfe e a arte de desenhar, que tornam sua existência tolerável. No topo de sua base está Cody (Jackson Wurth), seu sobrinho de cinco anos que enxerga nele o símbolo de pai que o próprio Zach desconheceu em sua vida, embora, diferentemente de Cody, tenha convivido desde sempre com seu progenitor. Em sua vida, Zach também tem Jeanne, sua difícil irmã que não reconhece (ou não entende) a própria responsabilidade pelo pequeno filho; Tori, uma bela garota com quem mantém um instável namoro; e Gabe, seu playboyzinho e melhor amigo que preenche os principais clichês de seu estereotipo e ainda encontra espaço para nos surpreender com uma personalidade bondosa e amigável.
É neste cenário que Zach (re)encontra Shaun (Brad Rowe), irmão mais velho de Gabe que mudou-se há vários anos e, aproveitando uma viagem do caçula, decide passar uma temporada na casa vazia da família a fim de se recuperar de um recente relacionamento frustrado e ainda trabalhar em um novo livro. Representando a figura do “mais velho da turma”, Shaun experimenta a sensação de ser reapresentado a jovens que conheceu quando estes começavam a adolescência e que não se lembram mais dele, e ainda descobre em Zach um amigo sensível que, embora saiba que ele é gay, não demonstra qualquer desconforto em isolar-se com ele para surfar e sequer hesita em procura-lo em sua casa – embora não perceba a própria ansiedade pela companhia do novo amigo e o peito arfando em alguns momentos quando estão juntos. Isto é, até o instante em que a intimidade divertida os leva a permitir um gesto um pouco mais profundo.
Após um inesperado beijo, Zach afasta-se de Shaun numa tentativa desesperada de afastar-se de sentimentos que, mais do que “ferir” sua masculinidade, afetam seu cotidiano engessado – e embora ele anseie por uma nova vida, o vislumbre de concretizar qualquer mudança o deixa assustado. Assim, é natural que ele procure desajeitado por um contato físico com a namorada e pareça buscar a aprovação da irmã a idéia de se inscrever numa faculdade, como se receber apoio nesta decisão pudesse tornar seu sentimento mais compreensível já que uma coisa está intrinsecamente ligada à outra. Contudo, é inequívoco o medo que Jeanne sente a tal idéia, como se Zach evoluir, crescer, apenas realçasse a insignificância de sua própria existência ou – pior – pudesse atrapalhar sua vida já que, sem o irmão por perto em tempo integral, ela finalmente seria obrigada a “cuidar” do próprio filho.
Tratando de forma delicada os preconceitos e a homofobia básica do ser humano ignorante, Shelter mostra o receio de Jeanne (e do próprio Zach por um instante) a aproximação de Shaun do pequeno Cody, e acerta (apesar da obviedade) em contrastar o desprezível namorado de Jeanne ao bondoso Shaun – o que nos leva ao ponto principal desta história, quando Zach finalmente vence seus medos e procura pelo novo amigo que, mais do que um bom namorado, revela-se uma figura paterna tão atenciosa e carinhosa com Cody quanto o próprio tio do garoto, o que transforma a presença de Shaun num conforto para Zach, que finalmente pode dividir com alguém o peso de suas responsabilidades – embora jamais demonstre qualquer incômodo por cuidar do sobrinho, que ama incondicionalmente, à altura do “pai” que representa ao garoto.
Apesar de feliz ao lado de Shaun, Zach ainda carrega as dúvidas e medos anexos a sua decisão, e quando as pessoas de sua vida identificam a dinâmica de sua amizade, novamente ele se afasta do surfista, uma atitude ainda mais difícil já que agora está abrindo mão de uma realidade cheia de esperança. Aos poucos, porém, seus sentimentos são confortados pela atitude de amigos verdadeiros, como o mulherengo Gabe que, irmão e amigo fiel, revela seu apoio (e surpresa) ao envolvimento dos dois com um bom humor admirável, sem contar a personagem da linda Katie Walder que, como ex-namorada de Zach, revela uma personalidade doce e companheira, mas forte e decidida, o que a contrapõe adequadamente ao ex-parceiro – algo que fica claro numa belíssima cena onde o casal conversa na praia e Zach resume com perfeição o que Shaun representa para ele ao dizer “Ficar com ele me fez querer ser as coisas que eu sempre quis ser“, o que, ao lado de sua não-resposta quando Tori pergunta com a voz rouca se ele ama Shaun, demonstra que Zach não enxerga sua nova história como um romance, mas como algo sério, alheio às convenções idealizadas da paixão. O que não significa que Zach não esteja apaixonado, o que claramente está, apenas mostra que, para ele, amar Shaun constitui muito mais do que levar adiante uma história de amor, mas sim uma vida inteira e completa.
Enquanto O Segredo de Brokeback Mountain contava uma história de amor amaldiçoada pela intolerância alheia e a pessoal dos dois amantes, culminando num desfecho triste e amargo, Shelter concretiza seu título e conclui sua história de forma doce e cheia de esperança sem, com isso, trazer soluções milagrosas, apenas avanços e conquistas naturais a qualquer pessoa que se disponha a seguir um sonho. Afinal, apesar da bela seqüência que encerra a projeção, é impossível deixar de pensar que a felicidade completa das três pessoas em cena só pôde acontecer porque outro personagem foi fraco demais para sustentar sua própria vida – o que, talvez, torne o sucesso de Zach ainda mais digno de orgulho.


26 26UTC Novembro 26UTC 2008 às 1:21
Nossa, gostei muito dessa resenha, confesso que cheguei a ficar emocionado com suas palavras..
Realmente esse filme é muito bom, não fica fantasiando e é bem básico… e lindo ao mesmo tempo!!!
3 03UTC Janeiro 03UTC 2009 às 16:24
É muito bom esse filme,sem apelação,suave,sutil,muito lindo.
15 15UTC Janeiro 15UTC 2009 às 12:57
É algo motivante, que nos faz pensar(e ver) que ainda existem coisas na vida realmente sinceras e proveitosas. Shelter é marcante.
Ps: Parabéns pela resenha!!
19 19UTC Julho 19UTC 2009 às 12:17
Shelter é tão delicioso que chega a parecer tolo e utópico, frente à realidade fast sex embebido em Poppers, Ecstasy, GHB, Crystal Meth, Ketamina… que estamos acostumados a esbarrar por aí. (vale a pena ler a matéria “gay scene in crisis” http://www.timeout.com/london/gay/features/3892/London-s_gay_scene_in_crisis.html )
Quando o Zach decidiu ir pra Los Angeles com o Shaun pensei: putz, fudeu!… agora vai usar leather, vai colocar perfil no Gaydar… cabô tudo…
Talvez a utopia da história esteja mesmo no fato do Zach não ter um computador em casa, nem acessar a internet…
O filme é um poderoso antídoto contra o que a matéria da Time Out (link acima) narra… ingênuo? utópico? que bom! quero mais, muito mais, horas de beijos e carinhos, sem pressa, naquela cama com vista pro mar da Califórnia…
19 19UTC Julho 19UTC 2009 às 12:22
“Garota eu vou pra Califórnia
Viver a vida sobre as ondas
Vou ser artista, grafiteiro
O meu destino é achar o Shaun…”