Psicopatas existem fora das novelas?
Sim. Obviamente.
Mas e quando nos deparamos com eles? O que fazer? Correr para longe, chamar a polícia? Se você puder identificá-lo a tempo, pode até tentar. Mas, infelizmente, você geralmente não pode fazer nada disso, porque você sequer sabe que está diante de um. E quando descobre, os laços emocionais já estão tão apertados que você não consegue fazer nada. Não pode fazer nada.
Algum tempo atrás a revista Época publicou uma matéria muito interessante sobre a psicopatia, esclarecendo que não se trata de loucura ou qualquer tipo de disturbio psicológico, mas sim pura personalidade. Ou seja, você pode ser extrovertido, depressivo, tímido ou simplesmente psicopata – e uma combinação de tipos é muito comum. Em sua publicação, a revista lista uma série de sintomas que pode ajudar a identificar um psicopata, pessoa que, longe do estereótipo de serial killer dos filmes e das novelas, pode ser alguém que simplesmente nunca fez mal a ninguém, mas que não hesitaria se fosse preciso e não sentiria o menor remorso por isso.
Da mesma forma, os psicóticos mais comuns sentem que o mundo é um governo de injustiça, onde apenas todos ao seu redor são bem sucedidos, mas nunca eles. Assim, é mais do que natural que quando você conversar com seu amigo psicopata e contar que recebeu uma promoção no trabalho ou está apaixonado, ele sinta uma agulhada fria passar pelo peito e, com ou sem sua percepção, deixe transparecer um leve ar de deboche ou desdém. Ele não está feliz por você. Não porque não gosta de você, ou porque deseja seu mal, mas simplesmente porque este pequeno sucesso ou romance pertence a você e não a ele.
É difícil ser psicopata. Sua vida é sempre infeliz, mesmo quando você realiza alguma conquista. Você não quer apenas vencer, você quer ser o único a vencer. No seu lugar do pódio, só cabe um.
Mas os sintomas citados pela Época não são necessáriamente uma regra, claro. Pois um psicopata, mais do que uma pessoa fria e calculista, é um ser simplesmente humano e alguém muito inteligente. Assim, ele é sim capaz de fazer planos a longo prazo (algo que a extremista e apenas boa novela A Favorita mostrou com a mal construída personagem da excelente Patrícia Pillar), podem sim ter sentimentos reais e profundos, como amor e carinho, podem sim ser defensores da verdade, como minha amiga, podem sim ter longos relacionamentos e podem, sim, ter tido uma infância agradável e feliz. Nada disso, porém, impede que eles se sintam injustiçados e te manipulem, te enganem, te parasitem. O modo mais fácil de enganar alguém é dizendo apenas a verdade (como mostra um excelente e antigo comercial do jornal Folha de São Paulo – e como parou de fazer o jornal, apelando ultimamente para as mentiras deslavadas mesmo).
Um psicopata pode ser seu verdadeiro e fiel melhor amigo. Mas nunca deixe ele pensar que sua vida é melhor do que a dele. Ele não irá suportar perceber que está fracassando cada vez mais enquanto você faz cada vez mais conquistas. Ele não suportará ficar sozinho e sufocado na própria bola de neve. E quando perceber que não pode te arrastar junto, fará com que você caia em alguma armadilha e pense que cometeu algum erro terrível. E se você não cair como ele, ele te fará ir embora, só para não te ver em pé.
E ai você finalmente entende que uma amizade verdadeira não pode ser aquela que divide apenas momentos difíceis da vida. Porque felicidade não pode ser compartilhada, não com um psicopata.
Ou ele tem e você não, ou ele tem mais e melhor que você.
Nunca igual e, principalmente, nunca menos.
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Atualização:
Esta é a matéria “recente” que eu tinha em mente. Em 29 de outubro do ano passado, a revista ISTO É (edição 2034) publicou uma matéria ainda mais interessante sobre este tema. Esta é sua ótima capa:




