A única coisa boa que eu consigo pensar quando me lembro de Quarentena, remake do ótimo terror espanhol [REC], é que Jen Carpenter é ótima trabalhando no Miami Metro Police. E que ela é fofa. Um pouco magra demais, mas fofa.
Pouco antes de assistir Quarentena, eu revi [REC], e a sensação de imitação que o longa americano evoca chega a ser muito incômoda – confesso, porém, que pode ser mais pelas lembranças frescas do filme original do que pela péssima qualidade do trabalho.
Ignorando esse detalhe, me pergunto: por que cargas d´água o diretor John Erick Dowdle optou pelo irritante recurso de desfocar a imagem sempre que o cameraman se movimenta.? Nada me irritou mais do que isso. Aliás, a diferença entre os cameramen de Quarentena e [REC] resume bem a diferença entre Hollywood e o resto do mundo: Hollywood é incapaz de valorizar a força do anonimato, e assim faz com que o ator Steve Harris encontre meios de virar a câmera para si mesmo várias vezes durante o filme – ele tem que aparecer. Aliás, outra diferença fica bem clara: enquanto a Angela Vidal de [REC] desperta carisma e simpatia entre os bombeiros, com um sutil clima de paquera, a Angela Vidal de Quarentena foi concebida como objeto sexual, entrando no banheiro masculino enquanto vários homens tomam banho e ainda virando prêmio numa aposta sexual entre os bombeiros que a acompanharão durante a noite.
Em meio a ação, porém, as grandes diferenças entre os projetos fica por conta da competência técnica. Enquanto [REC] apresentava uma narrativa coerente e organizada, permitindo que o espectador acompanhasse com facilidade tudo o que estava acontecendo em cena (e as vezes fora dela), Quarentena aposta numa câmera irritantemente instável que jamais consegue focar a imagem por 30 segundos consecutivos. Se a intenção era tornar o vídeo mais realista apresentando um “problema técnico” comum, Dowdle deveria se lembrar de que, na verdade, seu projeto é um filme e que apenas pontuar algumas sequências com o efeito seria o bastante, não usá-lo como recurso básico. Além disso, Dowdle chega a cúmulo de sequer conseguir nos dar a menor noção geográfica do espaço já limitado em que os personagens estão.
Jogando no lixo todos os elementos que fizeram de [REC] um sucesso de crítica, Quarentena consegue apenas constranger. Mas serve, a bem da verdade, para mostrar que o longa de Plaza e Balagueró é um trabalho digno, elegante, e principalmente merecedor do título de clássico.
E se este breve texto não parece muito inspirado, entenda que isto é apenas um efeito colateral deste filme que, assim como seu título sugere, deveria ficar isolado até sua contaminação for comprovada (ou seja, meia hora) e ele ser eliminado.



