Arquivo para Abril, 2009

Palavrão #9

29 29UTC Abril 29UTC 2009

Quando li a biografia As Muitas Vidas de Robert Altman no início deste ano, um excelente livro produzido para a mostra homônima promovida no ano passado pelo Centro Cultural Banco do Brasil, fiquei particularmente satisfeito com o ritmo da narrativa que, apesar de inevitavelmente episódica (cada capítulo falava sobre a produção de um filme), contava com uma fluidez admirável, especialmente porque transformava os trabalhos do cineasta em pedaços de sua própria existência e não apenas em linhas de um currículo invejável. Assim, os saltos temporais (de alguns meses, ás vezes anos) não afetavam o desenvolvimento cuidadoso da trajetória de Altman e ainda a romantizavam como algo exclusivamente cinematográfico. Porém, a possível razão dessa conexão talvez seja uma provável distância mantida entre o Altman-autor e o Altman-Homem, um texto decentemente manipulado para nos fazer enxergar apenas o primeiro – embora, obviamente, o livro apresente inúmeros episódios da vida particular de Altman, todos são absolutamente ligados a sua vida profissional.

O que me trás a conclusão da resenha de O Cinema Além das Montanhas, biografia do mineiro Helvécio Ratton, escrita pelo crítico de cinema Pablo Villaça para o projeto Coleção Aplausos, editado pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo.

Como comentei na edição anterior do Palavrão, a primeira parte da biografia merece aplausos pela intensisade angustiante da narrativa, que nos leva dos porões da Ditadura brasileira para a ainda mais sanguinolenta Ditadura chilena e de volta para os reflexos políticos de uma época miserável de nossa História, culminando num capítulo inflexivo que promete, ou pelo menos sugere, um pouco de paz.

E então entramos em um universo diferente… A Criação Artística, a 7ª Arte, o Cinema!  (E a Publicidade. Foi engraçado perceber que isto parece ser uma constante entre os principais mestres criativos que conheço, pessoalmente ou não, e que estou justamento trilhando este caminho, mas isto é um detalhe pessoal que não entra no contexto.)

Nesta segunda parte de O Cinema Além das Montanhas, Pablo Villaça inicia uma fase muito mais epísódica do que a anterior, mas não dividindo os capítulos por filme, e sim dividindo o processo de criação (e algumas curioidades) das produções em alguns capítulos. E, infelizmente, por mais fascinante e agradável que seja “testemunhar” os bastidores mais do que muito interessantes das obras, o fato é que estes capítulos funcionam apenas como um mero diário de bordo (com o perdão do trocadilho) e perdem o alcance dramático que possuiam quando eram românticos. (Mas vale dizer que  os capítulos dedicados ao curta-documentário Em Nome da Razão, além de serem belíssimos e deprimentes, funcionam como uma trânsição entre as duas narrativas do livro, já que ainda é profundamente emocional e ao mesmo tempo bastante profissional).

Nos capítulos finais, O Cinema… acaba deixando de lado todo o peso emocional da história que conta e assume um tom puramente informativo, o que prejudica o texto. A tal ponto que, nas últimas páginas, o s capítulos dedicados a algumas  “despedidas” e a uma “novidade”, ficam sem o peso dramático que poderiam alcançar, soando como mero adendo, ou melhor, um simples post em um blog.

Mas, é claro, estes detalhes não são capazes de diminuir a força da trajetória deste cineasta admirável que é Helvécio Ratton. Da mesma forma, por mais distoantes que sejam os tons da narrativa, o texto de Pablo Villaça é sempre interessante e bem construído, tornando a leitura um processo fácil e muito rápido. Sem esquecer do prazer didático que é acompanhar uma história que narra períodos tão intensos de nossa História nacional, o que é sempre uma experiência fascinante, por mais trágicos e terríveis que sejam os acontecimentos.

4-estrela

Rascunhos

24 24UTC Abril 24UTC 2009

Desde setembro de 2007, quando criei este blog, publiquei exatos 187 posts. Neste período, porém, várias vezes comecei a escrever algo e, por não estar livre ou inspirado o bastante no momento, deixei para continuar depois… O resultado: 1 e 7 meses depois ainda me restam 6 rascunhos esperando um lugar ao sol… ou ao monitor.

O primeiro da lista é uma resenha sobre o romance O Oportunista (The Upstairs), escrito por Piers Paul Read. Uma narrativa em primeira pessoa fascinante, mas que só consegui aproveitar plenamente ao ler pela segunda vez aos 13 anos – a primeira vez que li foi aos 9 e definitivamente este livro representa uma leitura extremamente pesada para uma criança, falando sobre temas como roubo, estelionato, jogatina, assédio sexual, prostituição, estupro, entre outros, chegando ao ápice no capítulo em que narra o assassinato de um recém-nascido. Porém, confesso que até hoje jamais cheguei a compreender completamente esta história, que é emocionalmente complexa – mas vale dizer que a obsessão do protagonista em destruir determinada família surge e cresce mal desenvolvida, o que é péssimo porque, afinal, é esta obsessão que guia todos as atitudes do personagem-título. Ainda sim, acho O Oportunista uma ótima leitura, e prova disso é que me surpreendo voltando a lê-lo, em média, a cada 2 anos.

O segundo rascunho foi uma tentativa de desabafo, um texto extremamente pessoal a respeito de um conflito com uma grande amiga (agora, pelo visto, grande inimiga) que já foi mencionada mais de uma vez neste blog. Uma história que foi realmente bonita por muitos anos, mas que terminou de forma covarde, estúpida e – até agora – sem explicação. Provavelmente acreditando que guarda uma carta na manga ao fazer não-acusações insuficientes (como “some da minha frente”, “você não manda na minha vida” e etc.), ela deixa claro que eu cometi algo, mas nunca esclarece o quê, minha (ex-)amiga apenas se enfraquece ao partir para uma atitude imatura e clichê (algo que ela NUNCA foi). Além de ser canalha a ponto de cortar todos os meios de comunicação e ainda assim manter para si uma coisa que ME pertence, me obrigando a usar outras pessoas como intermediárias na tentativa de recuperar o que é meu. Ou seja, me roubar e fugir. (Infelizmente, o pertence é algo de apenas valor sentimental, e sem NF ou algo do tipo, ou seja, eu não posso sequer abrir um Boletim de Ocorrência.)

No terceiro rascunho, eu tinha selecionado alguns vídeos “unseen” da série Skins, mas queria publicar os vídeos com legendas e alguns estavam disponíveis apenas em áudio – o que me desanimou.

O quarto rascunho também é sobre a série Skins. O primeiro esboço da minha resenha sobre o season finale da terceira temporada. Mas como ainda não escrevi a resenha do penúltimo episódio, não poderia fazer a publicação naquele dia – aliás, ainda não posso. :(

O penúltimo rascunho provavelmente alcançaria um nível bastante pessoal também. O tema: religião e fé. Mas é um assunto complexo e complicado demais para ser discutido num texto em sua primeira versão.

E, finalmente, o texto mais recente que comecei a escrever e não publiquei é uma espécie de carta-currículo, onde (ainda) tentarei falar de forma informal sobre meus passos como escritor literário, redator publicitário e roteirista cinematográfico. Claro, mencionando trabalhos, empresas e academia.

Bom, acho que desta lista eu já posso excluir 2 rascunhos. Afinal, acredito que não tenho muito mais para falar, por enquanto, sobre tal amiga e O Oportunista.

Lost in/and The Time

24 24UTC Abril 24UTC 2009

O que eu não entendo a respeito das viagens no tempo em Lost, é por que as pessoas estão táo confusas. Quero dizer, essa galera nunca assistiu filmes ou leu livros sobre viagens no tempo? O conceito que Lost está apresentando é um dos mais simples no gênero, onde “o que aconteceu, aconteceu”, ou seja…

Se você nasceu em 1990 e em 2010, isto é, aos 20 anos de idade, viajar no tempo e parar no ano de 1995, quando você tinha 5 anos, não importa o que você-20-anos faça, para onde você for, quem você encontrar, quem você matar ou salvar… Cada um dos acontecimentos que você-20-anos  testemunhar em 95 será exatamente o que “já tinha acontecido” quando você estava em 2010, mesmo que o você-5-anos não estivesse presente para ver tais acontecimentos na época em que aconteceram (e ninguém jamais tenha te contado).

Um exemplo rápido vem da série Além da Imaginação. Num dos episódios, uma determinada moça em um ano futurista (tipo 2020, 2030) recebe a missão de voltar no tempo e matar Adolf Hitler enquanto este ainda é um bebê, afim de impedir a maior tragédia moderna da Humanidade. Em 1890, a moça é encurralada e acaba sequestrando o “maldito” filho de Alois Hitler, chegando a se jogar com o garoto em um rio a fim de cumprir sua missão. Ambos morrem. Porém, uma empregada da família Hitler, desesperada de medo pelas consequências da tragédia, acaba comprando o filho de uma mendiga e o coloca no lugar filho legítimo – o bastardo então se tornaria o maior desgraçado da História. Ou seja, embora a garota tenha cumprido sua missão, o “Destino” deu um jeito de continuar a História. Porém, se for analisado por outro ângulo, a verdade é que o Adolf Hitler que sempre conhecemos sempre foi o filho da mendiga.

É exatamente esta a regra que Lost prega. Sayid atirou em Ben com a intenção de mudar o futuro, sem saber que aquilo já havia acontecido e que fora justamente uma das causas do futuro (Ben talvez não fosse o monstro que é se não fosse pela traição de Sayid). Jack decidiu não salvar Ben na intenção de mudar o futuro… Consequência? Ben foi salvo de qualquer jeito, mas o processo ajudou a transformar o jovem-Ben no monstro-Ben (e que fique claro que Jack NUNCA poderia optar por salvá-lo).

Carlos Alexandre Monteiro, do Lost in Lost, definiu bem a idéia ao mencionar o tempo “DA ilha” e o tempo “DOS losties”. Vou me focar em Sayid para ilustrar os losties. O passado de Sayid é aquele que ele vivenciou desde seu nascimento até os anos 2000, que conta com a queda do voo 815, os inúmeros acontecimentos na ilha, o resgate pelo barco de Penny e finalmente a viagem de volta para a ilha que culminou na viagem no tempo até os anos 70; e seu presente é ser capturado, escapar, atirar em Ben e fugir. E de agora em diante, que Sayid está em 70, nada que ele faça será capaz de, por exemplo, mudar o próprio futuro dele… Ele não pode, por outro exemplo, simplesmente ir até sua cidade natal e quebrar o pescoço do Sayid-criança – ele não pode mudar o que já aconteceu PARA ELE !

(Assim como ele não poderia mudar o fato de ter atirado no jovem-Ben, porque isto já tinha acontecido PARA BEN).

Já a ilha… Vamos considerar que o presente dela é 2007 (o ano mais recente narrado na série). O passado da ilha é tudo o que aconteceu NELA (ou PARA ELA) desde seu surgimento seja-lá-quando. Assim, A ILHA já tinha “testemunhado” a chegada de Jack, Kate e cia. na Iniciativa Dharma, já tinha “testemunhado” o atentado de Sayid contra Ben, já tinha “promovido” o encontro de Miles com seus pais e o bebê-Miles e etc., etc. e tal. Ou seja, NADA nem NINGUÈM pode mudar o que já aconteceu no passado DA ILHA. Qualquer decisão, qualquer atitude, seja de algum lostie do futuro ou Outro do presente, não importa, tudo o que eles fizeram em 70 será algo que a ilha já “viveu” (algo que ela, em 2007, podeia “se lembrar”).

Parece que ler uma explicação apenas torna o entendimento mais complicado. O melhor, é assistir aos episódios com atenção e perceber que os acontecimentos estão se encaixando aos poucos e ver que nada, nada poderá mudar o que já aconteceu – seja em 2007, 2004 ou 1990.

(A não ser que a série decida inovar novamente e nos surpreender com alguma reviravolta inimaginável. De novo.)

Palavrão #8

22 22UTC Abril 22UTC 2009

Este feriado prolongado foi bem… “interessante”. Mas, entre umas e outras surpresas (vide post anterior e outros comentários no meu Twitter), consegui concluir o primeiro volume da saga Fronteiras do Universo, A Bússola de Ouro.

E  o que dizer?

Lyra Belacqua é uma das personagens de literatura-fantasia mais carismáticas que conheci nos últimos tempos. Seu mau humor ácido, sua praticidade e inteligência indiscutíveis, sua coragem e força de espírito… Tudo nela é deliciosamente divertido e inspirador. E é incrível perceber, ao longo da trama, que ela é uma boa garota mesmo sendo filha de um casal tão desgraçado como são seus pais.

Sobre a trama, A Bússola de Ouro é igualmente inspiradora. Uma história aparentemente simples que vai ganhando complexidade com o tempo, nos fazendo vacilar ao lado de Lyra enquanto esta tenta entender qual lado deve apoiar, sem saber que lhe aguarda um inevitável destino amargo (embora a morte de determinado persoangem e o encontro de outros dois tenha sido uma decepção). O livro é particularmente eficiente ao descrever este co-universo de forma tão simples, nos permitindo entender facilmente sua cultura local a respeito dos deamons - o que torna o encontro de Lyra com um garotinho perdido um dos momentos mais impressionantes e trágicos deste primeiro volume.

Em poucos capítulos, foi possível perceber que Phillip Pullman criou uma história sobre crianças, mas não para crianças – embora os jovens sejam seu público alvo. Começarei em breve a ler A Faca Sutil (estou ansiosissimo), mas não creio que a história chegará ao nível perturbador de uma obra como o longametragem O Labirinto do Fauno. O que, é claro, não diminui em nada o poder dessa história magnetizante que A Bússola de Ouro promete para as trilogia As Fonteiras do Universo.

5-estrela1

E, neste final de semana também, comecei a ler a biografia do cineasta Helvécio Ratton, escrita por Pablo Villaça, crítico de cinema, editor do site Cinema em Cena e meu futuro professor, o surpreendente O Cinema Além das Montanhas. Conclui hoje de manhã a primeira parte do livro, As Circunstâncias, que narra o encontro de Ratton com a política e a assustadora Ditadura de dois países. Uma primeira parte completamente cinematográfica, com capítulos curtos e desesperadores (já no Prólogo, entramos num clima de tensão angustiante) que culminam num golpe político arrasador – e ler a transcrição da mensagem de determinado líder político, resistindo ao golpe enquanto exerga um trágico desfecho se aproximando rapidamente, foi particularmente tocante.

É claro que Villaça revela-se um excelente escritor nestas linhas até agora impecáveis. Porém, nem o mais competente letrado seria capaz de construir uma narrativa tão formidável se não tivesse em mãos um material a altura. E é isto o que Helvécio Ratton oferece em sua história… Mais do que isso, é História de verdade.

5-estrela1

Aquilo que poderia ter acontecido…

22 22UTC Abril 22UTC 2009

Enquanto minha irmã tomava banho, meu sobrinho, de 1 ano e 10 meses, usou uma cadeira para:

1º) pegar uma caixa de leite fechada dentro da geladeira;

2º) pegar uma faca afiada no gaveteiro superior;

3º) gritar muito, muito alto;

4º) sujar a cozinha com uma quantidade aterrorizante de sangue;

5º) levar apenas três milagrosos pontos no dedo indicador direito.

A parte mais angustiante? Saber que a mãe dele é provavelmente a pessoa mais cuidadosa da minha família e sempre toma cuidado com os mínimos detalhes da casa e, ainda assim, quase testemunhou uma tragédia.

Não tem jeito, o acaso sempre conspira…

(Observação: o gaveteiro superior fica fora do alcance do pequeno quando ele está com os pés no chão.)

(Observação 2: a quantidade de sangue não foi nada fisicamente preocupante, mas quem já passou por algo assim sabe que um dedinho de criança tem um volume INACREDITÁVEL de sangue.)

Desastres

17 17UTC Abril 17UTC 2009

(O texto abaixo fala sobre cenas importantes dos filmes da série Premonição e Presságio)

Após ler o comentário de meu amigo Remi no post anterior, comecei a elaborar uma breve resposta com a minha opinião sobre a franquia Premonição e a comparação entre o desastre de Metrô, que acontece no encerramento do último filme, e aquele visto no principal lançamento da semana passada, Presságio. E me surpreendi com um texto bem maior do que esperava… Assim, preferi vir para cá.

É verdade: Premonição 3 também conta com uma sequência de tragédia no Metrô. Mas, a experiência dos primeiros filmes avisou os produtores que eles deveriam investir mais grana na primeira tragédia, já que era ela que direcionava toda a história e blablablá. Assim, essa tal sequência de encerramento é apenas boa, mas nitidamente desinteressante se comparada as tragédias que abrem os filmes – e nem chega a ser impressionante já que, a altura em que acontece, estamos anestesiados com a exposição extravagante de tantas vísceras, miolos e fluidos que o filme oferece.

Mas preciso dizer que, para mim, Premonição 3 é simplesmente um fiasco. Os personagens são todos desinteressantes, alguns atores muito apenas-razoáveis, as mortes são estúpidas (no sentido idiota e não banal) e chocam apenas… pelo choque! e as novas revelações e reviravoltas não acrescentam nada a trama. Sem contar que os efeitos especiais estão muito abaixo do padrão da série.

Mas focando nas aberturas… O acidente na montanha-russa têm dois problemas: é chato e clichê. E pela mesma razão: morrer numa montanha-russa é apenas um medinho infantilóide, um daqueles pesadelos que temos aos oito anos. Enquanto que desastre de avião e acidentes de trânsito são tragédias muito mais impactantes já que as vítimas estão, geralmente, num momento coloquial de suas vidas e não buscando adrenalina como no caso da atração do parque. Dramaticamente falando, morrer num parque de diversões não tem comparação a tragédia que uma queda de avião ou um engavetamento de carros representa – ou mesmo um descarrilamento de trem.

Mas quero deixar claro que não estou menosprezando o sentimento insuportável de perder alguém, independente do modo como aconteça. Especialmente quando todos sabemos que acidentes em parques de diversão realmente acontecem, e a morte neste caso não é “menor” do que a morte de uma pessoa no trânsito, numa piscina, num terremoto, num tiroteio ou num parto. Estou dizendo no ponto de vista dramático, ficcional. E, neste caso, os desastres dos primeiros filmes são muito mais relevantes que o do terceiro.

E assim chegamos a Presságio. Se em Premonição 3, o desastre no Metrô não causa impacto (apenas choque barato), o mesmo não se aplica ao visto nesta produção com Nicholas Cage. Quando acontece, o atmosfera de tradégia já está impregnada no filme, especialmente porque as cenas do desastre de avião não saem da nossa mente. Ou seja, estamos dramaticamente sensíveis ao choque (o oposto do que acontece no gore) e ficamos emocionalmente impressionados com o acidente, o que já seria o bastante. Mas Presságio vai além e ainda realiza uma sequência tecnicamente eficiente, ampla e complexa, infinitamente superior aquela vista em Premonição 3.

Para mim, como comentei vagamente na resenha, o momento só poderia ter sido melhor caso algum personagem que conhecêcemos fosse uma das vítimas – no mínimo, poderia ter sido a mulher com  o bebê. Como, por exemplo, acontece em Premonição: antes do acidente, acompanhamos alguns instantes dos personagens, e isto é suficiente para fazê-los mais do que estatística. Já em PresságioSó os números importam.

Presságio (Alex Proyas)

16 16UTC Abril 16UTC 2009

(Atenção, o texto abaixo revela informações importantes e reviravoltas na trama do filme.)

Embora seja repleto de clichês e equívocos e quase exageradamente carregado de simbolismos Cristãos, Presságio consegue se equilibrar com firmeza entre os gêneros suspense, ação, catástrofe e ficção científica, sem jamais ultrapassar os limites aceitáveis para cada um.

E, mesmo que definitivamente este não seja um filme religioso, chega a ser muito mais eficiente do que os fracos exemplares da trilogia Deixados Para Trás, por exemplo, que se limitam a uma espécie de pregação quase didática, um sermão, ao invés de explorarem o forte tema para desenvolver um drama de suspense que, por si só, sirva como exemplo e mensagem.

Presságio é particularmente eficiente neste sentido, já que pontua a trama com suas referências religiosas, mas permite que elas sejam ligeiramente ofuscadas pela angustiante urgência da narrativa que vai se acumulando entre sinais e acontecimentos. Assim, enquanto nos distraimos com sequências de ação aterrorizantes, nosso insconsciente vai registrando informações que virão à tona posteriormente e, claro, nos farão meditar – não necessariamente no Apocalipse, eu garanto, mas talvez no Significado das coisas, na diferença entre o Destino e o Acaso.

Mas Presságio se destaca mesmo é pela ação. As duas grandes tragédias que marcam os dois primeiros atos impressionam pelos detalhes – a sequência do acidente aéreo, em particular, me deixou tão atônito quanto o protagonista, que reage lentamente ao que testemunha enquanto assiste vítimas em desespero e chamas. Já o acidente no subsolo, poderia perfeitamente ser uma das famosas sequências de abertura da série Premonição, com a mesma qualidade ténica e dramática (dos dois primeiros filmes), mas em escala maior e menos grafica, felizmente – embora, à exceção do protagonista, apresente apenas indivíduos, e não personagens, para o banho de sangue; o que não diminui o impacto da tragédia.

Poderoso e ainda mais urgente em seu terceiro ato, Presságio alcança um desfecho apoteótico e atípico para filmes Hollywoodianos. E justamente no modo como o longa ilustra o Apocalipse é que ele parece encontrar sua grande força, afinal, a opção de destruir o Mundo com uma tragédia Natural e não com Anjos e Trombetas (literalmente) torna o acontecimento mais… verossímil, talvez seja a palavra correta. E, por isso mesmo, extremamente assustador, já que algo assim pode realmente acontecer algum dia e está totalmente fora do controle Humano – diferente do Aquecimento Global, das Guerras e até mesmo de Corpos Celestes perdidos no espaço e que podem ser avistados, talvez, com antecedência.

A dor emocional e o medo são as marcas de Presságio, já que, mesmo com a garantia de “continuação” da raça humana, o fato é que o Mundo foi literalmente e completamente destruído, e este é um Fim que não traz alívio. Aqui, não há protagonistas e sobreviventes para nos identificarmos e sentirmos calma. Aqui, somos meros Humanos. E não somos os Escolhidos.

4-estrela

Reviravolta

15 15UTC Abril 15UTC 2009

De tempos em tempos, eu volto a perceber que escrever minha saga de ficção científica, Pela Humanidade, é um desafio realmente grande. Há anos (dez na verdade, esta foi uma das primeiras histórias que escrevi) venho trabalhando no primeiro livro e, paralelamente, no argumento geral de toda a série – que será de cinco volumes. Não acredito que os próximos volumes exigirão tanto tempo de dedicação, já que quando o primeiro livro estiver terminado, é porque o argumento da série como um todo já estará suficientemente forte e coeso para continuar fluidamente.

Humanos (uma apelido íntimo entre nós ;) ) é uma série longa e complexa, o que por si só já torna o trabalho dífícil. Somando-se a isto o fato de eu ser irritantemente detalhista (e obviamente falho, o que me deixa ainda mais irritado) faz com que eu mude elementos, formatos, caminhos, personagens, subtramas numa velocidade e numa frequência que enfartariam qualquer editor com prazo apertado. Como já comentei recentemente aqui no blog, por exemplo, depois de anos trabalhando o primeiro livro em primeira pessoa, percebi que escrever em terceira pessoa torna a história mais ampla e a narrativa mais eficaz, e por isso decidi alterar TODO o livro de acordo com o novo formato. Mas, claro, isto não significa que estou decidido, já que sempre gostei da idéia de escrever o primeiro livro em 1ª e os restasntes em 3ª.

E simplesmente hoje, fiz uma verdadeira descoberta. Uma determinada personagem que o protagonista encontra no “terceiro ato” da história… Ela simplesmente… não existe. Exatamente! Ela não existe! Fui eu que a inventei!

Piadas ineficazes à parte, isto é sim um pouco de verdade. Meu protagonista, Josh, tem um caminho específico para seguir neste terceiro ato e, para isto, eu precisava da interferência de alguém. Então decidi criar esta personagem. Mas eu nunca gostei dela. Nunca simpatizei. Da primeira à última linha onde ela é citada, eu sabia que habvia algo errado com aquela pessoa. Mas não conseguia entender, encontrar o problema…

Por outro lado, logo no início do livro, eu apresento uma personagem adolescente propositadamente caricata. E, por mais que meu personagem a deteste, a cada palavra sobre ela eu fico mais encantado. Eu já tinha planejado trazê-la de volta no futuro da série, quando certos acontecimentos deixam a trama mais sombria, mas sem grandes pretensões. Agora, porém, descobri que ela é de suma importância já neste primeiro volume da saga.

Neste terceiro ato, sai aquela mulher horrorosa que surgiu na minha cabeça e entra esta formidável garota que, certamente, vai mexer com os marmanjos – mas não tanto quanto a já “clássica” Denise.

E o mais interessante nesta “decisão”? Ela muda parte dos acontecimentos do terceiro ato que me desagradavam e, de brinde, traz a desculpa perfeita para nada menos do que duas sequências de ação que estão me deixando quente de excitação – quem escreve, sabe: escrever uma cena pode ser mais intenso do que viver a mesma situação na vida real. E ainda posso dizer que são duas sequências realmente intensas e dramáticas.

Ah! como é bom voltar a “transpirar”… Não vejo a hora de poder sentar quieto e voltar a trabalhar efetivamente neste texto. Que maravilha saber que isto não vai demorar… :D

Diálogo dos (in)Crédulos, por Leo Freitas

13 13UTC Abril 13UTC 2009

- Aonde você vai?
- Ali, logo ali.
- Fazer o quê?
- Ser feliz. Me espera?
- Não.
- Tem medo de eu ser feliz e não voltar?
- Tenho. Muito medo.
- Então quer vir comigo? Você pode ser feliz também.
- Esse lugar existe?
- Não sei. Estou procurando há um bom tempo. Deve ser porque é muito longe.
- Mas você disse que era logo ali…
- Eu sei. É que ainda tenho esperanças.
- Humm. E se demorar muito pra chegar lá?
- Ah, a gente vai seguindo juntos. Já é um bom começo, né?
- Concordo. Posso ir segurando a sua mão?
- Claro. Mas por quê?
- É que tenho medo de ser feliz, também. Uma vez, uma mulher de olhar enigmático disse que a Felicidade dói.
- Te entendo. Me dá sua mão, então, porque o perigo de nos perdermos é grande. E de nos perdermos quando encontrarmos a tal da Felicidade é maior ainda.

Leonardo Freitas

Ansioso…

13 13UTC Abril 13UTC 2009

Segue abaixo – em ordem prevista de estréia – alguns dos filmes que, em maior ou menor grau, mais espero para ver no primeiro semestre deste ano – mais 1 que estréia nas férias de julho.

Divã
Tem pelo menos quatro atores que eu realmente admiro.

Sinédoque, Nova Iorque
Kaufman e Hoffman. Um ensaio sobre a vida, o amor, a solidão. O tempo… Preciso dizer mais?

Trama Internacional
Clive Owen e Naomi Watts. Mais Tykwer, o diretor de Corra, Lola, Corra e Perfume.

Wolverine
Apesar de ser fã da trilogia X-Men, nenhum pôster, teaser ou trailer deste Origins me cativou. Mas… eu sou fâ da trilogia X-Men.

Há Tanto Tempo Que Te Amo
Drama familiar francês. A sinopse já me deixou triste. Garota praticamente criada como filha única reencontra a irmã, que esteve presa durante quinze anos, e decide reintegrá-la a família.

Veronika Decide Morrer
Quero descobrir se Geller é boa atriz.

Jornada nas Estrelas 11
Nunca gostei da série, dos filmes ou sei-lá o que mais há na franquia. Mas a campanha de marketing do longa me atraiu – inclusive o elenco mais jovem. E… o mestre JJ está na jogada.

Anjos e Demônios
Ainda não li o livro, mas achei O Código Da Vinci um pouquinho bom. E como achei Ponto de Impacto um livro sensacional, estou levemente confiante na capacidade de Brown ter concebido um bom material.

Budapeste
Apesar de Rita Buzzer assinar o roteiro (ela já foi responsável por Olga), sou capaz de me fazer acreditar que apesar do sucesso de bilheteria anterior, ela evoluiu como escritora.  Mas a história vem de Chico Buarque e a ótima Giovanna Antonelli está ao lado do incrível Leonardo Medeiros. Estou com um pouquinho de fé.

Duplicidade
Uma brincadeira a lá Sr. e Sra. Smith? Bom, aqui tem Owen de novo, mas desta vez com Julia Roberts com cara de atriz e nada menos do que Billy Bob Thornton.

Up
Não carece comentários.

O Exterminador do Futuro: A Salvação
Apesar de McG, temos os estressadinho e telentosíssimo Christian Bale. E definitivamente todos os elementos da campanha de marketing estão ajudando. Os pôsteres, os teasers, os trailers, os pedaços de sinopses, os boatos vazados e etc.

A Era do Gelo 3
Aquele esquilinho, viu…

Harry Potter e o Príncipe Mestiço
O melhor livro da série. Yates continua no comando, mas Kloves está de volta ao roteiro. E apesar do medo, todos os trailers e boatos estão prometendo um bom filme (exatamente o que aconteceu com o decepcionante A Ordem da Fênix, então… Medo).

(A lista de lançamentos onde me baseei está no Estréias Futuras do Cinema em Cena.)

ourTunes #20

13 13UTC Abril 13UTC 2009

Claro que não posso confiar na minha memória, mas até onde me lembro, Alanis Morissete é a única artista que conheci e gostei na infância, redescobrir com prazer na adolescência e que continuo admirando e gostando muito hoje, um jovem-adulto. Alguns anos atrás, na época em que a redescobri, cheguei a fazer uma adaptação literária para Ironic, e este foi o resultado. Se eu tivesse deixado para escrever um ou dois anos depois, certamente teria feito algo melhor e provavelmente mais complexo – talvez trazendo elementos de outras músicas para o texto, algo que estou explorando ao desenvolver o argumento de uma adaptação do escritor Caio F.ernando Abreu.

É reconhecido que Alanis é uma cantora talentosa e, mais do que isso, uma mulher extremamente culta. Já ouvi dizerem que é arrogâcnia da parte dela sempre trabalhar um vocabulário mais rebuscado em suas letras, mas enxego neste tipo de comentário mais ignorância do que humildade. Mas a complexidade de suas letras não se limita apenas ao vocabulário, está presente também nas histórias e contextos que mais funcionam como verdadeiros contos e são geralmente concebidos com um apuro literário invejável. Vá a qualquer site de traduções, como o popular Vagalume e procure por suas letras – infelizmente, a maior parte das traduções sofre perdas na qualidade.

Algumas músicas de Alanis Morissete já fazem parte da minha trilha sonora pessoal. Entre elas, as mais marcantes e relevantes são Joining You, No Pressure Over Cappuccino, Ironic, Mary Jane – sim, singles e mais singles (às vezes sinto que Alanis tem mais singles do que o normal). Mas a música que eu publico agora, na vigéssima edição do ourTunes, é para mim mais completa, intimista, pessoal e vulnerável que já ouvi. E, por mais incrível que às vezes possa parecer, incrivelmente romântica.

eu posso ser uma bundona das melhores
eu posso me manter firme enquanto isto fica fora de moda
eu posso ser a mais tímida menininha
e você jamais encontrou alguem tão negativo
quanto eu sou às vezes

eu sou a mais sábia mulher que você já encontrou
eu sou a mais bondosa alma com quem você já se conectou
eu tenho o mais bravo coração que você jamais viu
e você nunca encontrou alguém tão positivo
quanto eu sou às vezes

você vê tudo, você vê cada parte
você vê toda a minha luz e ama a minha escuridão
você escava tudo do qual me envergonho
não há nada em mim do qual você não possa falar
e você ainda está aqui

eu culpo todo mundo mas não assumo minha parte
minha passiva-agressividade pode ser devastadora
eu vivo apavorada e desconfiada
e você jamais encontrou alguém tão fechada
quanto eu sou às vezes

você vê tudo, você vê cada parte
você vê toda a minha luz e ama a minha escuridão
você escava tudo do qual me envergonho
não há nada em mim do qual você não possa falar
e você ainda está aqui

se eu resisto, persiste e fala mais alto do que posso imaginar
se eu resisto seu amor, não importa o quão baixo ou alto eu vou

eu sou a mais engraçada mulher que você já conheceu
eu sou a mais entediante mulher que você já conheceu
eu sou a mulher mais gostosa que você já conheceu
e você jamais encontrou alguém tão tudo
quanto eu sou às vezes

você vê tudo, você vê cada parte
você vê toda a minha luz e ama a minha escuridão
você escava tudo do qual me envergonho
não há nada em mim do qual você não possa falar
e você ainda está aqui

ourTunes #19 – Especial Mina e Lisa

8 08UTC Abril 08UTC 2009

A micro-mini-série paulistana Mina e Lisa tem, para mim, 3 atrativos principais: a linda dupla de protagonistas, os diálogos ágeis e divertidíssimos e a trilha sonora deliciosa. E a trilha ficou por conta da nipo-cantora Haikaa, com sua voz ímpar, ritmo gostoso e letras interessantes. O grande destaque é, sem dúvidas, Nanananana - o grande tema da série – mas minha preferida é outra, e ela é reproduzida na íntegra neste belíssimo episódio abaixo:

Websérie – A Nova Mídia

8 08UTC Abril 08UTC 2009

A GloboNews publicou ontem uma entrevista com produtores de vídeo que estão inovando com novos formatos de programas. Entre eles, Helio Ishii, criador do Núcleo Virgulino e da websérie Mina e Lisa que já ultrapassou – agora – a marca de 2 milhões de espectadores.

Clique aqui para acessar a página com a entrevista.

A segunda temporada de Mina e Lisa já está em gravação, mas como comentei aqui no blog anteriormente, ainda sem previsão de lançamento. Vale lembrar que fiz uma pequena contribuição no desenvolvimento dos roteiros desta nova temporada.

Aqui, você lê as outras notícias publicadas sobre a micro-série aqui no Continuação..

E é claro que Achilles de Leo não poderia ficar fora disso. Ao lado de amigos, estou formando meu próprio Núcleo de criação e nas próximas semanas começaremos a gravar o piloto da nossa websérie, uma trama jovem, atual e quente para todos os tipos de pele…

Palavrão #7

7 07UTC Abril 07UTC 2009

Finalmente terminei de ler a série As Crônicas de Nárnia.
O texto abaixo revela informações spoilers da saga.

O Sobrinho do Mago (2)
O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa (1)
O Cavalo e seu Menino (3,5)
Príncipe Caspian (1)
A Viagem do Peregrino da Alvorada (4)
A Cadeira de Prata (3)
A Última Batalha (2)

Farei aqui um breve resgate de comentários, e acrescentarei novos.

Pelo menos dois dos livros são quase insuportáveis, e outros dois são apenas suportáveis. Infelizmente, entre eles, justamente os dois primeiros sem enquadram nestes padrões.

O Sobrinho do Mago até tem um começo promissor, parecendo um inofensivo mas típico conto de fadas, mas de repente, sem mais nem menos, começa a cair… cair… cair… E literalmente do nada a verdadeira história começa. A verdade é que as Crônicas dessa tal Nárnia, assim como a própria Nárnia, começam do nada… Os personagens estão simplesmente passeando por determinado lugar e, de repente (quase no final do livro), se deparam com a Criação do mundo (no sentido bíblico mesmo) – ou criação do País, melhor dizendo, já que este é o título que Nárnia recebe ao longo da saga. E se até poderia ser interessante “assistir” a Criação de um ponto de vista mais pessoal – fantasioso, mas pessoal – o fato é que o fenômeno torna-se risível já que não passa de um número musical. Sim, um musical.

O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa não passa de um contozinho pedestre com ares de épico. É tão entediante, tão irritante e tão recheado de clichês quanto a superprodução concebida por Andrew Adamson em 2005. Aliás, preciso fazer justiça e dizer que o livro é ainda pior.

Felizmente, porém, O Cavalo e Seu Menino é uma verdadeira reviravolta, já que, pequenas convenções e previsibilidades à parte, narra uma história infinitamente mais tensa e interessante do que a série parecia ser capaz, além de encontrar o devido tom dos contos épicos (embora sua história seja bastante intimista).

Contudo, Lewis volta a cair em Príncipe Caspian. E, para minha grande surpesa, durante a leitura eu não conseguia parar de pensar numa certa autora-personagem criada por J.K. Rowling em Os Contos de Beedle, o Bardo. Faço um comentário mais completo sobre isso neste post. Príncipe Caspian é tão ruim que chega a parecer trabalho de casa de aluno do primário. Aliás, chego a acreditar que até mesmo uma criança poderia ter deito algo muito melhor.

Mas a tortura não dura muito. Caspian, o livro, cai e dá lugar a A Viagem do Peregrino da Alvorada – indiscutivelmente o melhor livro da saga, e não apenas por comparação. Este é realmente um bom livro. Repito abaixo os comentários sobre ele que fiz no último Palavrão:

Peregrino da Alvorada, é uma grata surpresa. A narrativa é mais episódica e óbvia do que nunca, mas ao menos tem um objetivo  claro desde o início e foge a velha fórmula: crianças aparecem em Nárnia no primeiro capítulo-conhecem as criaturas locais no segundo-descobrem que há um vilão terrível no terceiro-atravessam o país nos próximos doze capítulos-e a história acaba com dois parágrafos narrando a batalha (e com a “esperada” aparição de Aslam, acrescento).  Além disso, o corajoso e honrado ratão Ripchip está ainda mais presente e divertido neste episódio, e Lewis mantém um ritmo mais sombrio e mais cheio de ação aqui, com momentos de calmaria que servem para alguma coisa na história – mas vale dizer que ele acovarda na tal Ilha dos Pesadelos, que poderia ter rendido momentos horripilantes. Enfim, A Viagem do Peregrino da Alvorada poderia ser muito melhor se não tivesse um passado tão condenável.

E, finalmente, a reta final. A Cadeira de Prata sofre uma visível queda qualitativa, mas ainda consegue se manter no jogo. Os protagonistas humanos continuam desinteressantes, diferente das criaturas narnianas e as pequenas aventuras, que são divertidas – mas inofensivas. E embora o desfecho só fique claro depois do reencontro com o Cavaleiro Negro, a partir deste instante o mistério perde a graça, contudo, a ação se acentua e as páginas ficam ainda melhores.

E, para terminar, A Última Batalha. Lembra-se de O Sobrinho do Mago, que narra o nascimento de Nárnia assim-de -repente, de supetão, na história? Pois é, como era de se esperar, a saga terminou com a morte de Nárnia, ou apocalipse, armagedom – Lewis jamais foi tão óbvio em suas referências cristãs como neste livro (e isso porque ele chegou a praticamente dizer “procure e aceite Cristo” ao final de Peregrino da Alvorada). Contudo, o modo como tudo termina é um verdadeiro anti-clímax para a saga – e para o volume, que até então oferecia um desafio interessante para os protagonistas. Ou seria melhor dizer covardia? Pois, pela primeira vez, Lewis colocou seus personagens em um cenário definitivamente perigoso e sem esperança, nos fazendo relamente temer pela segurança deles e acreditar que só um milagre poderia salvá-los. Justamente o que acontece. Tão subitamente quanto começara, Nárnia encontra o fim de repente… E, assim, todos os problemas dos heróis são resolvidos. Por que se preocupar em lutar até a morte, em vencer o numeroso e forte inimigo? É só esperar um pouquinho mais que o próprio Apocalipse dará um jeito nos vilões – isto é, se você for o mocinho da história.

Com a exceção de apenas dois livros realmente bons e um mediano, protagonistas desinteressantes e antagonistas completamente inofensivos, As Crõnicas de Nárnia alcança a marca-média de 2,5 pontos em 5. Não conseguindo explicar como conseguiu tanta fama e longevidade através das décadas.

O que me leva a uma conclusão simples: a forte pregação cristã deu conta do recado. E apenas isso.

UP 8 de Abril

Curiosidade: a saga possui duas ordens oficiais de leitura.

A ordem cronológica, que começa com SM e termina em UB (esta, a ordem que eu li) e também a ordem em que foi escrita. Diferente do que alguns poucos pensam, C.S. Lewis concebeu o universo de Nárnia na seguinte ordem: LFG; PC; VPA; CP; CSM; SM e UB.

Palavrão #6

7 07UTC Abril 07UTC 2009

Leia os primeiros comentários sobre o romance clicando aqui.

Em seus capítulos finais, Crepúsculo realmente deixou de lado a mistura de canela com açúcar e mergulhou rasamente no suspense e na ação. O encontro da família Cullen com o trio de vampiros-nômades foi tenso e intenso, a raiva de Edward por colocar sua amada em perigo finalmente soou como um prenúncio de tragédia e, por fim, a fuga as pressas acentuou a urgência e a gravidade da situação. Da mesma forma, a constatação de que o único modo de se verem seguros novamente seria assassinando eliminando o perigo, elevou ligeiramente o grau de seriedade da trama. Assim como o aviso de sequestro de uma determinada personagem.

Infelizmente, todas estas boas notícias se revelaram como boato de tablóide e a história se sabotou mais uma vez. O confronto entre Bella e seu predador foi bom, mas a trapaça dele teve o efeito inverso ao esperado: longe de lamentar o sacrifício inútil de Bella, nos irritamos com sua burrice – para começar, ela não poderia realmente acreditar que algum humano sairia vivo daquela situação, e depois, ela já tivera provas o suficiente para saber que deveria confiar nos Cullen. E, para completar, novamente a covardia… A única vítima fatal na história foi o próprio vilão e a “reviravolta” mais previsível e esperada de todas… Simplesmente não aconteceu.

No final, apesar de seu último capítulo com gosto de glacê, Crepúsculo se revela uma história boa e com potencial, mas não suficientemente boa para se sustentar sozinha. Em breve, tentarei encarar Lua Nova que, acredito, será melhor.

Mas, se não for, será para mim o fim da série Luz e Escuridão.