Quando li a biografia As Muitas Vidas de Robert Altman no início deste ano, um excelente livro produzido para a mostra homônima promovida no ano passado pelo Centro Cultural Banco do Brasil, fiquei particularmente satisfeito com o ritmo da narrativa que, apesar de inevitavelmente episódica (cada capítulo falava sobre a produção de um filme), contava com uma fluidez admirável, especialmente porque transformava os trabalhos do cineasta em pedaços de sua própria existência e não apenas em linhas de um currículo invejável. Assim, os saltos temporais (de alguns meses, ás vezes anos) não afetavam o desenvolvimento cuidadoso da trajetória de Altman e ainda a romantizavam como algo exclusivamente cinematográfico. Porém, a possível razão dessa conexão talvez seja uma provável distância mantida entre o Altman-autor e o Altman-Homem, um texto decentemente manipulado para nos fazer enxergar apenas o primeiro – embora, obviamente, o livro apresente inúmeros episódios da vida particular de Altman, todos são absolutamente ligados a sua vida profissional.
O que me trás a conclusão da resenha de O Cinema Além das Montanhas, biografia do mineiro Helvécio Ratton, escrita pelo crítico de cinema Pablo Villaça para o projeto Coleção Aplausos, editado pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo.
Como comentei na edição anterior do Palavrão, a primeira parte da biografia merece aplausos pela intensisade angustiante da narrativa, que nos leva dos porões da Ditadura brasileira para a ainda mais sanguinolenta Ditadura chilena e de volta para os reflexos políticos de uma época miserável de nossa História, culminando num capítulo inflexivo que promete, ou pelo menos sugere, um pouco de paz.
E então entramos em um universo diferente… A Criação Artística, a 7ª Arte, o Cinema! (E a Publicidade. Foi engraçado perceber que isto parece ser uma constante entre os principais mestres criativos que conheço, pessoalmente ou não, e que estou justamento trilhando este caminho, mas isto é um detalhe pessoal que não entra no contexto.)
Nesta segunda parte de O Cinema Além das Montanhas, Pablo Villaça inicia uma fase muito mais epísódica do que a anterior, mas não dividindo os capítulos por filme, e sim dividindo o processo de criação (e algumas curioidades) das produções em alguns capítulos. E, infelizmente, por mais fascinante e agradável que seja “testemunhar” os bastidores mais do que muito interessantes das obras, o fato é que estes capítulos funcionam apenas como um mero diário de bordo (com o perdão do trocadilho) e perdem o alcance dramático que possuiam quando eram românticos. (Mas vale dizer que os capítulos dedicados ao curta-documentário Em Nome da Razão, além de serem belíssimos e deprimentes, funcionam como uma trânsição entre as duas narrativas do livro, já que ainda é profundamente emocional e ao mesmo tempo bastante profissional).
Nos capítulos finais, O Cinema… acaba deixando de lado todo o peso emocional da história que conta e assume um tom puramente informativo, o que prejudica o texto. A tal ponto que, nas últimas páginas, o s capítulos dedicados a algumas “despedidas” e a uma “novidade”, ficam sem o peso dramático que poderiam alcançar, soando como mero adendo, ou melhor, um simples post em um blog.
Mas, é claro, estes detalhes não são capazes de diminuir a força da trajetória deste cineasta admirável que é Helvécio Ratton. Da mesma forma, por mais distoantes que sejam os tons da narrativa, o texto de Pablo Villaça é sempre interessante e bem construído, tornando a leitura um processo fácil e muito rápido. Sem esquecer do prazer didático que é acompanhar uma história que narra períodos tão intensos de nossa História nacional, o que é sempre uma experiência fascinante, por mais trágicos e terríveis que sejam os acontecimentos.

17 17UTC Maio 17UTC 2009 às 14:55
Hey, AchilLeo!
Só soube por este seu post que o Pablo tinha uma publicação que tratava, dentre outros aspectos, de ditadura!
Do “Cinema Além das Monmtanhas” eu já tinha conhecimento… pena não ter como lê-lo tão “em breve”…
Ademais: added o contato achillesdeleo@yahoo.com.br no MSN.
É esse mesmo?