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.Apenas o Fim. (Matheus Souza)

24 24UTC Junho 24UTC 2009

Apenas o Fim é um bom filme. Mas apenas bom.

Escrito e dirigido por Matheus Souza e realizado por alunos da PUC-Rio, o filme remete a outros longas que, por sua vez, já representavam interessantes experiências cinematográficas.

Se o roteiro subverte o conceito do único-encontro-de-um-casal, consagrado por Antes do Amanhecer, e narra o encontro-derradeiro de “Ele” e “Ela”, casal de namorados que está se separando subitamente (comentarei sobre os nomes mais tarde), é a cargo da direção que fica a maior parte das referências, nos levando a filmes como Elefante (o tour por uma instituição de ensino), Apenas Uma Vez (a câmera na mão, os “nomes” do casal e, por que não, o próprio título) e Corra, Lola, Corra… Sim, Apenas o Fim faz referência clara ao longa de Tom Tykwer, interrompendo a narrativa com flashbacks que sempre mostram o casal conversando – o que é mais do que natural já que a história concebida por Matheus Souza não passa de uma boa desculpa para citar (ou homenagear, dependendo do ponto de vista) os maiores clássicos das culturas pop e nerd.

No início da projeção, Ela aborda Ele abruptamente, informando que está de partida e que tem apenas uma única hora para conversar com ele, terminar o relacionamento e se despedir. E durante a hora e meia seguinte de projeção (o tempo é estendido pelos flashbacks), nossa grande dúvida é “o que a fez tomar esta decisão?”.

Independente do resultado ou da resposta, o fato é que este é o grande fio condutor da história, o principal elemento que prende nossa curiosidade, pois fica claro que o caminho escolhido por Ela só pode ser resultado de algo que muitos são incapazes de fazer: ousar ou desistir.

Infelizmente, porém, o roteiro de Matheus Souza ignora a possibilidade de explorar este elemento e parece acreditar demais na “genialidade” de seus diálogos, resumindo a narrativa a uma série de conversas onde o casal cita ou discute uma infindável herança da juventude dos anos 90-2000, desde Pokemón, Power Ranger ou boy band prediletos até shows históricos de grandes bandas de rock. O que, nem preciso dizer, data a produção e limita drasticamente o público-alvo.

Contudo, Souza acerta em cheio na escolha dos atores que interpretam o casal de protagonistas, Erika Mader e Gregório Duvivier, já que a química entre eles é perfeita e ainda corretamente contrastante: nos flashbacks, eles são um casal romântico e profundamente apaixonado, durante o passeio, estão mais distantes e prontos para “lavar a roupa suja”, o que não nos impede de enxergar ali os reflexos da paixão que eles ainda sentem e da dinâmica gostosa que sempre tiveram (a única ressalva é sobre Duvivier, que oscila demais entre a naturalidade e a clara intenção de fazer graça).

Enfraquecido pela interrupção excessivamente longa feita por dois personagens colegas de Ele (cenas que deveriam ter durado no máximo 30 segundos) e seriamente prejudicado pelas referências metalingüísticas (o casal passa por um set de gravação que conta a história… deles), o resultado é que Apenas o Fim termina sem mostrar a que veio, já que a despedida do casal jamais soa verdadeira ou definitiva, parecendo ser uma simples peça pregada por Ela (ou “joguinho”), e ainda falhando em não explicar as motivações da garota. Além de não funcionar sequer como romance, deixando de lado o alcance dramático de uma despedida em prol das piadas e diálogos nerds.

Da mesma forma, se o casal dramático do maravilhoso Apenas Uma Vez se torna ainda mais real graças ao fato de jamais conhecermos seus nomes, algo reforçado pelos créditos finais onde lemos apenas “Guy” e “Girl”, aqui o efeito não é o mesmo (principalmente porque, ao longo do filme, ouvimos o nome pelo menos do rapaz), pois as personalidades e histórias dos protagonistas são exclusivas demais para nos identificarmos plenamente.

O que é uma pena, pois não apenas Ele e Ela formam um casal realmente interessante, merecendo a chance de um “reencontro”, como também Matheus Souza revela-se um diretor tecnicamente competente, acertando em algumas composições de quadro e na coerografia em cena (como quando coloca Ela sozinha em meio a escombros de uma reforma, salientando sua fase de transição), embora falhe em nem sempre utilizar seus conhecimentos em favor da narrativa – como fica evidente na cena em que o casal é enquadrado na escadaria através de um bom plano plongé: o uso de câmera é atraente, mas não contribui para construir o sentimento da cena em questão e apenas chama a atenção para si. Ao contrário da gostosa trilha sonora de Pedro Carneiro, que é sutil e ao mesmo tempo marcante, sempre acentuando os melhores momentos da projeção.

Assim, Apenas o Fim é um esforço cinematográfico até respeitável, influenciado por obras maiores e melhores, mas que jamais alcança o mesmo impacto que elas. Ainda assim, é um bom filme, claramente feito com carinho e nostalgia e também intimidade, nos fazendo acreditar que, apesar do tradicional “este filme é uma obra de ficção…” durante os créditos finais, é na verdade uma grande homenagem não a filmes clássicos ou a saudades da juventude, mas sim a alguma paixão que se tornou relacionamento e foi vivida com simplicidade, cumplicidade e intensidade, mas que acabou, como muitas outras acabaram e muitas outras ainda irão.

E apenas isso parece ser o bastante para transformar um projeto repleto de defeitos em uma obra que, no final das contas, merece ser vista e agraciada.

4-estrela

HSBC Belas Artes

22 22UTC Junho 22UTC 2009

Espaço consagrado em São Paulo para o circuito cult cinematográfico, o HSBC Belas Artes oferece experiências ímpares para os amantes da Sétima Arte, incluindo um projeto que literalmente transforma os espectadores em “Cinéfilos de Carteirinha” (o vantajoso Cineclub) e os mensais Noitão e Encontro – noites especiais onde podemos, respectivamente, encarar uma maratona de filmes noite afora, pelo preço de um ingresso convencional e direito a um modesto café da manhã, ou assistir a uma sessão de filme nacional (ou co-produzido) e em seguida participar de um debate com alguns dos realizadores.

Neste último mês, participei pela primeira vez dos dois projetos noturnos.

No Encontro, mergulhei na mente solitária e confusa do ghost-writer José Costa no ótimo Budapeste, para em seguida ouvir diretamente de Leonardo Medeiros e Walter Carvalho suas impressões e experiências na realização do longa, uma série de comentários que enriquecem ainda mais a produção.

4-estrela

Já no último final de semana, enfrentei a fria noite paulistana pós-Dia dos Namorados com os bons A Onda e A Comunidade e o fraco Nathalie X.

E entre estes três longas (a noite ainda exibiu Tinha Que Ser Você e o filme-surpresa-inédito-pela-primeira-vez Paris, que não vi), não deixa de ser curioso constatar que o melhor deles é o absurdo A Comunidade, ricamente divertido e repleto de reviravoltas, ainda beneficiado por uma direção segura (não consegui ver o nome do diretor de Álex de la Iglesia) que reconhece estar contanto uma história recheada de bizzarrices.

5-estrela1

Em contrapartida, o bom A Onda não passa disso, um bom filme, mas que acredita ser muito melhor do que é na realidade, errando principalmente por desenvolver uma complexa experiência psicológica em um período muito pequeno dentro da história, o que destrói nossa identificação com a trama, e ainda caindo no equívoco de explicar certas cenas que seriam beneficiadas justamente pela sutileza, como quando três garotos são chamados de “gangue” por dois colegas anarquistas – além do final melodramático que poderia ter ficado de fora no corte final.

3-estrela

E então surge Nathalie X para encerrar a noite, um filme excessivamente carregado de diálogos, o que definitivamente não é um defeito quando o filme oferece um texto elegante (vide Closer, Antes do Põr-do-Sol), mas que aqui apenas constrange pela fracassada aura de sensualidade e sexualidade e que se torna ainda pior pelo final previsível desde o segundo ato. O que é uma pena, pois este poderia ser um bom filme sobre as consequências do sexo fora do casamento e a libertação de uma mulher tradicional.

1-estrela

O resultado é que meu primeiro Noitão foi uma experiência que fica entre média e boa, e que poderia ter sido claramente melhor caso os realizadores não tivessem decidido ignorar o forte tema da semana (Dia dos Namorados). Pois havia duas formas de oferecer uma noite perfeita: exibindo filmes todos românticos e interessantes, que prendessem a atenção dos casais e os solitários, ou então filmes amadores e irritantemente chatos do interior da Polônia… Seria a desculpa perfeita para esquecer o telão iluminado e passar seis horas inteiras se agarrando com uma companhia atraente.

Antes do Amanhecer (Richard Linklater)

22 22UTC Junho 22UTC 2009

(A resenha abaixo foi escrita para o Curso de Teoria e Linguagem Cinematográfica do Cinema Em Cena, ministrado pelo crítico e cineasta Pablo Villaça. O texto está intocado, ainda sem as correções apontadas pelo professor.)

Com o perdão da palavra, Celine é uma vaca. Mulher culta, inteligente, independente, nitidamente sensível à paixão, mas que faz questão de não parecer romântica. Onde, aliás, falha completamente, e exemplo disso é ela zombar do gesto romântico do rapaz que está conhecendo, embora se convença facilmente pelas palavras de uma charlatã, quando a mulher está claramente usando o método da leitura fria – que, confesso, não sei se era tão conhecido há quinze anos. Ou seja, uma não-romântica crédula? Impossível!

O rapaz? Bom, Jesse é só um moleque americano que atravessou o Atlântico para encontrar a garota que namorava à distancia, mas levou um fora. E então conheceu uma garota francesa atraente, culta, inteligente e, provavelmente, disposta a transar com ele. Perfeito para ele, não? Não. Ele quer – e muito – transar com a garota, mas isto não será o bastante porque ele é um… Romântico chorão que precisa se apaixonar por alguém.

Esta é uma das leituras que podem ser feitas do casal de Antes do Amanhecer, uma versão talvez injusta do casal que, surpreendentemente, considerando os dois parágrafos acima, é responsável por um dos poucos encontros absolutamente românticos que o cinema exibiu nas duas ultimas décadas (provavelmente estou me referindo a Antes do Pôr-do-Sol, mas okay). Isto porque Jesse e Celine, mais do que “personagens” dentro de algum estereótipo (a feminista, o carente), são dois jovens em plena descoberta da própria personalidade e, por isso mesmo, suscetíveis a mudanças, influências, mas tentando mostrar uma imagem de estabilidade que ainda não existe (a mulher questionadora, o homem que percebe a verdade).

Aos poucos, porém, Jesse e Celine vão deixando de lado as questões mais políticas e filosóficas, entrando em um terreno mais pessoal, íntimo, lentamente se abrindo, expondo, um para o outro. Eles não apenas começam a realmente confiar um no outro, mas em si mesmos. E, dessa forma, um acaba enxergando no outro o cúmplice perfeito. E um amante perfeito.

E é aqui que Antes do Amanhecer queria chegar… À verdade. Porque por mais que haja atuação, por mais que haja mentiras, entre dois estranhos há sempre um tipo de verdade que nenhum longo tempo de convivência pode descobrir. Mas uma verdade que tem a curiosa capacidade de desaparecer caso a vida permita que estes dois estranhos fiquem juntos por mais tempo – uma propriedade indispensável, diga-se de passagem. Afinal, quem suportaria viver com alguém que o conhece tão profundamente?

5-estrela1

Em pedaços – O Conto

7 07UTC Junho 07UTC 2009

(O conto abaixo ainda está em sua primeira versão e, por isso, pode apresentar erros)

Lucas nasceu em 22 de junho de 1992, o dia mais frio do ano, a noite mais escura do ano. Sua mãe, Clarice, lhe deu à luz em baixo de uma ponte, sozinha, e amou seu filho imensamente, enquanto viveu. A mãe de Lucas foi encontrada morta ao amanhecer. Seu filho, ele não estava mais ali.

Clarice jamais foi identificada. Ninguém nunca soube que aquela mulher morta viera do interior do Rio Grande do Sul à procura do homem que a engravidara. No pôr-do-sol que precedeu aquela fria noite de junho, Clarice o encontrou. Ele, noivo e com a futura esposa grávida de dois meses, sentiu uma grande dor em sua alma ao pedir que Clarice mantivesse segredo sobre o bebê, garantindo que ele lhe pagaria uma gorda pensão… Inconformada com a frieza que enxergava no homem por quem se apaixonara, embora não soubesse o quanto ele se entristecia consigo mesmo, Clarice declarou entre lágrimas que iria embora e que ele nunca mais ouviria falar nela. E ele nunca mais ouviu.

Clarice caminhava sozinha e solitária pelas ruas da cidade, ela passava por uma alameda embaixo de uma ponte quando um homem a assaltou. Com o susto, ela entrou em trabalho de parto. O assaltante, desesperado com a conseqüência de seu desespero, pensou em ajuda-la, mas optou por fugir com sua bolsa e lamentar até o fim por sua covardia, um fim que chegaria exatos dezesseis anos depois, com uma redenção.

Mas ainda naquela noite fria de junho, uma certa senhora, de idade avançada e muito doente, tivera uma crise de dores e fizera sua neta sair no meio da noite para comprar-lhe remédios, mesmo que precisasse acordar o farmacêutico. A menina também se chamava Clarice.

No meio do caminho, ao atravessar uma ponte, Clarice ouviu um choro de criança e, ansiosa, acabou encontrando a fraca mulher com seu pequenino filho sujo, ensangüentado e gelado nos braços. Uma poça de sangue, muito maior do que o derramamento comum a um parto, marcava um circulo grande em volta dos dois. A mãe morreu com um sorriso assim que viu o sorriso piedoso da estranha que se agachava a sua frente, mas não antes de sussurrar um nome de menino. E, de seus braços já frouxos, o bebê foi recolhido.

Clarice voltou para casa imediatamente, mostrando a criança para a avó, que ficou tão perturbada e tão irritada, que acabou desmaiando, fazendo a neta pensar que havia morrido por causa do coração fraco. Assustada, Clarice correu porta afora com o bebê Lucas nos braços. Ela correu e correu, sentindo o frio penetrar seu corpo e uma tristeza dolorida invadir seu coração, pois ela amava sua avó. Por alguma razão sombria, porém, Clarice sabia que amava aquele bebê em seus braços e, por esta razão, a decisão que tomou a seguir foi a mais difícil que, embora ela não soubesse, ela jamais tomaria em toda a sua longa e melancólica vida.

Clarice abandonou Lucas. Ela o deixou nos braços de um médico que ela viu sair de seu carro, pronto para iniciar mais um plantão no hospital do bairro, e saiu correndo, antes que o homem pudesse chamar alguém que fosse atrás dela. A única coisa que Clarice disse naquele brevíssimo encontro, olhando nos olhos surpresos do médico, foi: “Lucas”. E então voltou para a casa, onde encontrou a avó gemendo no chão. Clarice cuidou dela, pedindo a Deus que aquele médico cuidasse bem de Lucas, assim como ela cuidaria daquela velha, uma senhora ranzinza e sofrida que apenas no leito de morte confessaria o quanto amava a neta e o quanto era agradecida por toda a sua dedicação.

No estacionamento do hospital, o homem demorou alguns instantes para perceber que aquela mulher não o conhecia e que “Lucas” se referia à criança, e não a ele. Pois o nome do médico também era Lucas.

Lucas correu para dentro do hospital, carregando o fraco e gelado garotinho, incapaz até mesmo de chorar, e, aos gritos, foi solicitando um ou outro serviço dos outros médicos, enfermeiros e assistentes de plantão. Poucos minutos depois, o bebê Lucas estava dentro de uma incubadora, recebendo luz, calor e leite. O médico Lucas, cardiologista, era um homem frio e solitário e, para a surpresa de todos, foi diariamente à maternidade para ver o garotinho. Mas ao final de duas semanas, quando este já estava fora de perigo e sendo encaminhado para assistência social, o médico se despediu dele com um leve carinho na testa e saiu de férias. Todos acreditaram que homem fosse se sensibilizar e pedir a adoção do garoto, mas o médico jamais voltou a procurar pela criança, limitando-se a um casual pedido de informação ao retornar das férias.

A esta altura, o pequeno Lucas já estava na maternidade da Casa de Santa Clara, uma instituição social comandada pela médica e Madre Superiora Anne, uma religiosa inglesa formada em medicina pediatra. Madre Dra. Anne era uma mulher dócil, bondosa e cheia de sabedoria, e cuidou pessoalmente do pequeno Lucas, assim como cuidara de seu pequeno e doente irmão caçula, de mesmo nome santo, que morrera ainda na inocência da infância há tantas décadas. Lucas cresceu forte e saudável, vendo na Madre Dra. Anne a imagem de mãe que ele não compreendia, apenas sentia, e ambos foram tão próximos quanto suas posições permitiam que fossem, até que a senhora, médica e mãe de Lucas, quebrou uma promessa e não foi ao seu quarto certa noite contar uma história. Lucas tinha três anos quando, sem se lembrar de como era perder uma mãe, chorou esta dor pela primeira vez.

A Casa de Santa Clara mudou após a morte de sua líder, mas não para pior. O cargo da Direção foi assumido por outra médica, Dra. Clara, assim como a santa. Uma mulher muito boa e inteligente, mas, diferentemente da santa, e de Anne, era atéia. Ela, porém, não recriminava as crenças religiosas das crianças, incentivando pequenos rituais que envolviam, por exemplo, Papai Noel e Coelhinho da Páscoa. E embora não permitisse Educação Religiosa nas aulas, não se importava que as crianças freqüentassem a missa. E com o tempo, as quinze crianças, meninos e meninas de várias idades, aos poucos foram dividindo espaço com garotos e garotas mais velhos, adolescentes e, embora elas não pudessem entender imediatamente, a verdade é que aquela mudança em particular moldaria e beneficiaria suas vidas até o fim. E, principalmente, permitiria que cada uma delas vivesse ali todo o tempo de sua juventude, até que finalmente tomariam para si suas próprias vidas.

Embora educado, inteligente e bondoso, repleto de amigos e amado por todos, Lucas crescia e vivia na renovada e reformulada casa como costumamos vivenciar férias numa casa de praia ou campo, sabendo que aquele não é nosso lar, sabendo que logo será apenas uma lembrança. Ele tentava explicar esse sentimento para si mesmo, alegando acreditar que apenas quando fosse adotado teria um lar definitivo. Mas mesmo que Lucas jamais tenha sido adotado, jamais tenha deixado de morar naquela casa, embora os anos se passassem sem trégua, sem calma e sem paradas, ele nunca deixou de sentir que sua casa, seu lar, estava em outro lugar. Mas Lucas nunca ansiou. Nunca reclamou. E viveu cada um de seus dias feliz, saudável, amoroso, apreciando aquela temporada de férias que durava todos os meses do ano, todos os anos da infância e, então, cada uma das fases de sua juventude.

E foi na juventude que Lucas começou a compreender sua vida, seus sentimentos de todos os tipos. Aos treze anos, ele pensou pela primeira vez no que faria quando, dali cinco anos, deixasse a Casa de Santa Clara: ele iria velejar. Mas, claro, ao longo dos anos, essa opinião e esse desejo mudariam diversas vezes, influenciados por idéias e histórias. Mas até que chegasse o dia de partir, com uma decisão firme finalmente tomada acelerando seu coração, Lucas sentiria muitas vezes o peito vibrando. E ainda aos treze anos, ele descobriria a paixão.

De repente, Califórnia (Jonah Markowitz)

7 07UTC Junho 07UTC 2009

(Alguns meses atrás, assistir a este filme e escrevi um texto sobre ele. Mas o longa estreou em São Paulo neste último final de semana e eu não poderia deixar de vê-lo nas telonas. O que, é claro, sempre muda muito. Além disso, alguns meses são o bastante para mudar nossa perspectiva e melhorar nossos conceitos e técnicas. Assim, segue abaixo a crítica reformulada de ShelterDe repente, Califórnia).

Em O Segredo de Brokeback Mountain, o diretor Ang Lee apostou numa narrativa lenta e na calma ao ilustrar a aproximação dos personagens de Jake Gyllenhaal e Heath Ledger. Neste filme, Lee também compôs o relacionamento dos vaqueiros como um respiro para ambos de suas vidas desonestas e miseráveis, fazendo com que um fosse uma consolação para o outro. Em De repente, Califórnia, o diretor e roteirista Jonah Markowitz investiu palhetas semelhantes ao construir sua pequena obra que, embora imperfeita, tem chances de se tornar um pequeno clássico e ícone do gênero.

Zach (Trevor Wright) é um jovem adulto preso na vida pacata e arrastada de uma cidadezinha litorânea da Califórnia e que divide seus dias entre tarefas básicas, como o trabalho, que pagará suas contas e alimentação, ou o surfe e o Desenho, hobbies que tornam sua existência tolerável. No topo de sua base está Cody (Jackson Wurth), seu sobrinho de cinco anos que enxerga nele o símbolo de pai que o próprio Zach desconheceu em sua vida, embora, diferentemente de Cody, tenha convivido desde sempre com seu progenitor. Na vida, Zach também tem Jeanne, sua difícil irmã que não reconhece (ou não entende) a própria responsabilidade pelo pequeno filho, Tori, uma bela garota com quem mantém um instável namoro, e Gabe, seu playboyzinho e melhor amigo que, apesar de ter um estilo de vida resumido à farra, ainda encontra espaço para nos surpreender com uma personalidade bondosa e amigável.

É neste cenário que Zach reencontra Shaun (Brad Rowe), irmão mais velho de Gabe que se mudou para Los Angeles há vários anos. Aproveitando-se de uma viagem do caçula, Shaun decide passar uma temporada na casa vazia da família a fim de se recuperar do recente final de um relacionamento e ainda trabalhar em um novo livro. Representando a figura do “mais velho da turma”, Shaun experimenta a sensação de ser reapresentado a jovens que conheceu quando estes começavam a adolescência e que não se lembram mais dele, e ainda descobre em Zach um amigo respeitoso que, embora saiba que ele é gay, não demonstra qualquer desconforto em isolar-se com ele para surfar e sequer hesita em procura-lo em sua casa – embora não perceba a própria ansiedade pela companhia do novo amigo. Isto é, até o momento em que a intimidade divertida os leva a permitir um gesto um pouco mais profundo.

Após um inesperado beijo, Zach afasta-se de Shaun numa tentativa desesperada de afastar-se de sentimentos que, mais do que “ferir” sua masculinidade, afetam seu cotidiano engessado – e embora ele anseie por uma nova vida, o vislumbre de concretizar qualquer mudança o assusta. Assim, é natural que ele procure desajeitado por um contato físico com a namorada e, mais ainda, busque a aprovação da irmã quanto à idéia de se inscrever numa faculdade, como se receber apoio nesta decisão pudesse tornar seu sentimento mais compreensível – afinal, o apoio de Shaun ao crescimento profissional de Zach acaba ligando as duas coisas intrinsecamente. Contudo, é inequívoco o medo que Jeanne sente a tal idéia, como se Zach evoluir, crescer, apenas realçasse a insignificância de sua própria existência ou – pior – pudesse atrapalhar sua vida, uma vez que sem o irmão por perto em tempo integral, ela finalmente seria obrigada a “cuidar” do próprio filho.

O roteiro de Jonah Markowitz ilustra de forma simplista os preconceitos e a homofobia básica do indivíduo ignorante, mas acerta (apesar da obviedade) ao mostrar o receio de Jeanne, e do próprio Zach em um momento, quanto a aproximação de Shaun do pequeno Cody, só para contrasta-lo em seguida ao desprezível namorado da garota. Da mesma forma, apesar de enfocar de forma expositiva as dificuldades de Zach e também sua dedicação ao sobrinho, como nas cenas em que ele compra um par de sandálias ao invés de tênis e quando ele descalça o garotinho dormindo, estes pequenos detalhes, que apenas redundam o que já sabemos, funcionam por mostrar que a trama principal é aquela que envolve Zach e Cody e não o romance dos surfistas.

O que, é claro, não torna a história de amor menos importante. Ao contrário: é clara a importância de Shaun para o futuro de Zach, não apenas por apoiá-lo na batalha por seus sonhos, mas principalmente por revelar-se uma figura paterna tão atenciosa e carinhosa com Cody quanto o próprio tio do garoto – o que permite a Zach experimentar mais uma nova sensação, depois da atração e da paixão, o aconchego. Assim, quando em certo momento, Tori (a linda Katie Walder) pergunta para Zach se ele ama Shaun, a não-resposta do rapaz demonstra que ele não enxerga sua nova história como um mero romance, mas como algo maior, alheio às convenções idealizadas da paixão. O que não significa que Zach não esteja apaixonado, o que claramente está, apenas mostra que, para ele, amar Shaun constitui muito mais do que levar adiante um caso de amor, mas sim uma vida inteira e completa – e uma realidade cheia de esperança.

Enquanto O Segredo de Brokeback Mountain contava uma história de amor amaldiçoada pela intolerância alheia e a pessoal dos dois amantes, culminando num desfecho triste e amargo, Shelter conclui sua história de forma doce e cheia de esperança sem, com isso, trazer soluções milagrosas, apenas avanços e conquistas naturais a qualquer pessoa que se disponha a seguir um sonho. Porém, a simples imagem de uma gostosa brincadeira tendo como fundo um mar agitado e um céu carregado nos faz lembrar que nem tudo é felicidade pura. Afinal, é difícil esquecer que a felicidade completa das três pessoas em cena estará eternamente ligada a covardia de outra, fraca demais e pequena demais para sustentar a própria vida, preferindo se alimentar de migalhas enquanto tenta encontrar seu próprio lugar, seu próprio abrigo.

E talvez seja isto o que torna o sucesso de Zach ainda mais belo e orgulhoso. Ele escolheu viver uma vida completa.

4-estrela

O Retorno

7 07UTC Junho 07UTC 2009

Estou de volta. Depois de semanas a fio longe deste espaço, experimentando algumas novidades e descansos… Eu volto.

Não exatamente nestes quase quarenta dias, mas muitas coisas vem acontecendo nestes últimos tempos e provavelmente por causa de algumas delas é que fiquei tanto tempo longe.

Alguns destes acontecimentos foram ruins, outros… excelentes. Em resumo, fui assaltado algumas vezes (sim, plural), comecei a namorar (sim, eu juro), sai da TV1 e freelei em outra agência (voltando ao cargo de “dispoível no mercado de trabalho”), fiz o curso do famigerado Pablo Villaça (onde conheci pessoas incríveis, incluindo o próprio professor), comecei a me deliciar com In Treatment, me decepcionei terrivelmente com Terminator: Salvation, cheguei a uma boa conclusão do que fazer com 8 Mentiras e, mais recentemente, transpirei uma nova história…