De repente, Califórnia (Jonah Markowitz)

7 07UTC Junho 07UTC 2009

(Alguns meses atrás, assistir a este filme e escrevi um texto sobre ele. Mas o longa estreou em São Paulo neste último final de semana e eu não poderia deixar de vê-lo nas telonas. O que, é claro, sempre muda muito. Além disso, alguns meses são o bastante para mudar nossa perspectiva e melhorar nossos conceitos e técnicas. Assim, segue abaixo a crítica reformulada de ShelterDe repente, Califórnia).

Em O Segredo de Brokeback Mountain, o diretor Ang Lee apostou numa narrativa lenta e na calma ao ilustrar a aproximação dos personagens de Jake Gyllenhaal e Heath Ledger. Neste filme, Lee também compôs o relacionamento dos vaqueiros como um respiro para ambos de suas vidas desonestas e miseráveis, fazendo com que um fosse uma consolação para o outro. Em De repente, Califórnia, o diretor e roteirista Jonah Markowitz investiu palhetas semelhantes ao construir sua pequena obra que, embora imperfeita, tem chances de se tornar um pequeno clássico e ícone do gênero.

Zach (Trevor Wright) é um jovem adulto preso na vida pacata e arrastada de uma cidadezinha litorânea da Califórnia e que divide seus dias entre tarefas básicas, como o trabalho, que pagará suas contas e alimentação, ou o surfe e o Desenho, hobbies que tornam sua existência tolerável. No topo de sua base está Cody (Jackson Wurth), seu sobrinho de cinco anos que enxerga nele o símbolo de pai que o próprio Zach desconheceu em sua vida, embora, diferentemente de Cody, tenha convivido desde sempre com seu progenitor. Na vida, Zach também tem Jeanne, sua difícil irmã que não reconhece (ou não entende) a própria responsabilidade pelo pequeno filho, Tori, uma bela garota com quem mantém um instável namoro, e Gabe, seu playboyzinho e melhor amigo que, apesar de ter um estilo de vida resumido à farra, ainda encontra espaço para nos surpreender com uma personalidade bondosa e amigável.

É neste cenário que Zach reencontra Shaun (Brad Rowe), irmão mais velho de Gabe que se mudou para Los Angeles há vários anos. Aproveitando-se de uma viagem do caçula, Shaun decide passar uma temporada na casa vazia da família a fim de se recuperar do recente final de um relacionamento e ainda trabalhar em um novo livro. Representando a figura do “mais velho da turma”, Shaun experimenta a sensação de ser reapresentado a jovens que conheceu quando estes começavam a adolescência e que não se lembram mais dele, e ainda descobre em Zach um amigo respeitoso que, embora saiba que ele é gay, não demonstra qualquer desconforto em isolar-se com ele para surfar e sequer hesita em procura-lo em sua casa – embora não perceba a própria ansiedade pela companhia do novo amigo. Isto é, até o momento em que a intimidade divertida os leva a permitir um gesto um pouco mais profundo.

Após um inesperado beijo, Zach afasta-se de Shaun numa tentativa desesperada de afastar-se de sentimentos que, mais do que “ferir” sua masculinidade, afetam seu cotidiano engessado – e embora ele anseie por uma nova vida, o vislumbre de concretizar qualquer mudança o assusta. Assim, é natural que ele procure desajeitado por um contato físico com a namorada e, mais ainda, busque a aprovação da irmã quanto à idéia de se inscrever numa faculdade, como se receber apoio nesta decisão pudesse tornar seu sentimento mais compreensível – afinal, o apoio de Shaun ao crescimento profissional de Zach acaba ligando as duas coisas intrinsecamente. Contudo, é inequívoco o medo que Jeanne sente a tal idéia, como se Zach evoluir, crescer, apenas realçasse a insignificância de sua própria existência ou – pior – pudesse atrapalhar sua vida, uma vez que sem o irmão por perto em tempo integral, ela finalmente seria obrigada a “cuidar” do próprio filho.

O roteiro de Jonah Markowitz ilustra de forma simplista os preconceitos e a homofobia básica do indivíduo ignorante, mas acerta (apesar da obviedade) ao mostrar o receio de Jeanne, e do próprio Zach em um momento, quanto a aproximação de Shaun do pequeno Cody, só para contrasta-lo em seguida ao desprezível namorado da garota. Da mesma forma, apesar de enfocar de forma expositiva as dificuldades de Zach e também sua dedicação ao sobrinho, como nas cenas em que ele compra um par de sandálias ao invés de tênis e quando ele descalça o garotinho dormindo, estes pequenos detalhes, que apenas redundam o que já sabemos, funcionam por mostrar que a trama principal é aquela que envolve Zach e Cody e não o romance dos surfistas.

O que, é claro, não torna a história de amor menos importante. Ao contrário: é clara a importância de Shaun para o futuro de Zach, não apenas por apoiá-lo na batalha por seus sonhos, mas principalmente por revelar-se uma figura paterna tão atenciosa e carinhosa com Cody quanto o próprio tio do garoto – o que permite a Zach experimentar mais uma nova sensação, depois da atração e da paixão, o aconchego. Assim, quando em certo momento, Tori (a linda Katie Walder) pergunta para Zach se ele ama Shaun, a não-resposta do rapaz demonstra que ele não enxerga sua nova história como um mero romance, mas como algo maior, alheio às convenções idealizadas da paixão. O que não significa que Zach não esteja apaixonado, o que claramente está, apenas mostra que, para ele, amar Shaun constitui muito mais do que levar adiante um caso de amor, mas sim uma vida inteira e completa – e uma realidade cheia de esperança.

Enquanto O Segredo de Brokeback Mountain contava uma história de amor amaldiçoada pela intolerância alheia e a pessoal dos dois amantes, culminando num desfecho triste e amargo, Shelter conclui sua história de forma doce e cheia de esperança sem, com isso, trazer soluções milagrosas, apenas avanços e conquistas naturais a qualquer pessoa que se disponha a seguir um sonho. Porém, a simples imagem de uma gostosa brincadeira tendo como fundo um mar agitado e um céu carregado nos faz lembrar que nem tudo é felicidade pura. Afinal, é difícil esquecer que a felicidade completa das três pessoas em cena estará eternamente ligada a covardia de outra, fraca demais e pequena demais para sustentar a própria vida, preferindo se alimentar de migalhas enquanto tenta encontrar seu próprio lugar, seu próprio abrigo.

E talvez seja isto o que torna o sucesso de Zach ainda mais belo e orgulhoso. Ele escolheu viver uma vida completa.

4-estrela

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