.Apenas o Fim. (Matheus Souza)

24 24UTC Junho 24UTC 2009

Apenas o Fim é um bom filme. Mas apenas bom.

Escrito e dirigido por Matheus Souza e realizado por alunos da PUC-Rio, o filme remete a outros longas que, por sua vez, já representavam interessantes experiências cinematográficas.

Se o roteiro subverte o conceito do único-encontro-de-um-casal, consagrado por Antes do Amanhecer, e narra o encontro-derradeiro de “Ele” e “Ela”, casal de namorados que está se separando subitamente (comentarei sobre os nomes mais tarde), é a cargo da direção que fica a maior parte das referências, nos levando a filmes como Elefante (o tour por uma instituição de ensino), Apenas Uma Vez (a câmera na mão, os “nomes” do casal e, por que não, o próprio título) e Corra, Lola, Corra… Sim, Apenas o Fim faz referência clara ao longa de Tom Tykwer, interrompendo a narrativa com flashbacks que sempre mostram o casal conversando – o que é mais do que natural já que a história concebida por Matheus Souza não passa de uma boa desculpa para citar (ou homenagear, dependendo do ponto de vista) os maiores clássicos das culturas pop e nerd.

No início da projeção, Ela aborda Ele abruptamente, informando que está de partida e que tem apenas uma única hora para conversar com ele, terminar o relacionamento e se despedir. E durante a hora e meia seguinte de projeção (o tempo é estendido pelos flashbacks), nossa grande dúvida é “o que a fez tomar esta decisão?”.

Independente do resultado ou da resposta, o fato é que este é o grande fio condutor da história, o principal elemento que prende nossa curiosidade, pois fica claro que o caminho escolhido por Ela só pode ser resultado de algo que muitos são incapazes de fazer: ousar ou desistir.

Infelizmente, porém, o roteiro de Matheus Souza ignora a possibilidade de explorar este elemento e parece acreditar demais na “genialidade” de seus diálogos, resumindo a narrativa a uma série de conversas onde o casal cita ou discute uma infindável herança da juventude dos anos 90-2000, desde Pokemón, Power Ranger ou boy band prediletos até shows históricos de grandes bandas de rock. O que, nem preciso dizer, data a produção e limita drasticamente o público-alvo.

Contudo, Souza acerta em cheio na escolha dos atores que interpretam o casal de protagonistas, Erika Mader e Gregório Duvivier, já que a química entre eles é perfeita e ainda corretamente contrastante: nos flashbacks, eles são um casal romântico e profundamente apaixonado, durante o passeio, estão mais distantes e prontos para “lavar a roupa suja”, o que não nos impede de enxergar ali os reflexos da paixão que eles ainda sentem e da dinâmica gostosa que sempre tiveram (a única ressalva é sobre Duvivier, que oscila demais entre a naturalidade e a clara intenção de fazer graça).

Enfraquecido pela interrupção excessivamente longa feita por dois personagens colegas de Ele (cenas que deveriam ter durado no máximo 30 segundos) e seriamente prejudicado pelas referências metalingüísticas (o casal passa por um set de gravação que conta a história… deles), o resultado é que Apenas o Fim termina sem mostrar a que veio, já que a despedida do casal jamais soa verdadeira ou definitiva, parecendo ser uma simples peça pregada por Ela (ou “joguinho”), e ainda falhando em não explicar as motivações da garota. Além de não funcionar sequer como romance, deixando de lado o alcance dramático de uma despedida em prol das piadas e diálogos nerds.

Da mesma forma, se o casal dramático do maravilhoso Apenas Uma Vez se torna ainda mais real graças ao fato de jamais conhecermos seus nomes, algo reforçado pelos créditos finais onde lemos apenas “Guy” e “Girl”, aqui o efeito não é o mesmo (principalmente porque, ao longo do filme, ouvimos o nome pelo menos do rapaz), pois as personalidades e histórias dos protagonistas são exclusivas demais para nos identificarmos plenamente.

O que é uma pena, pois não apenas Ele e Ela formam um casal realmente interessante, merecendo a chance de um “reencontro”, como também Matheus Souza revela-se um diretor tecnicamente competente, acertando em algumas composições de quadro e na coerografia em cena (como quando coloca Ela sozinha em meio a escombros de uma reforma, salientando sua fase de transição), embora falhe em nem sempre utilizar seus conhecimentos em favor da narrativa – como fica evidente na cena em que o casal é enquadrado na escadaria através de um bom plano plongé: o uso de câmera é atraente, mas não contribui para construir o sentimento da cena em questão e apenas chama a atenção para si. Ao contrário da gostosa trilha sonora de Pedro Carneiro, que é sutil e ao mesmo tempo marcante, sempre acentuando os melhores momentos da projeção.

Assim, Apenas o Fim é um esforço cinematográfico até respeitável, influenciado por obras maiores e melhores, mas que jamais alcança o mesmo impacto que elas. Ainda assim, é um bom filme, claramente feito com carinho e nostalgia e também intimidade, nos fazendo acreditar que, apesar do tradicional “este filme é uma obra de ficção…” durante os créditos finais, é na verdade uma grande homenagem não a filmes clássicos ou a saudades da juventude, mas sim a alguma paixão que se tornou relacionamento e foi vivida com simplicidade, cumplicidade e intensidade, mas que acabou, como muitas outras acabaram e muitas outras ainda irão.

E apenas isso parece ser o bastante para transformar um projeto repleto de defeitos em uma obra que, no final das contas, merece ser vista e agraciada.

4-estrela

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