Em abril, eu li o primeiro volume da saga Luz e Escuridão, o abaixo-da-média mas suportável Crepúsculo. Um livro repleto de defeitos, mas suficientemente divertido para prender a atenção. Desde o início, porém, uma coisa me incomodou, e muito: aquele tal vampiro Edward Cullen. Um dos heróis (?) mais irritantes que já conheci. Uma criação literária “construída” às pressas, sem qualquer equilíbrio e inesperadamente unidimensional – afinal, ele tem conflitos o bastante para ser definido como um personagem complexo. E se isto não fosse ruim o bastante, a agradável Bella (uma ótima personagem a maior parte do tempo) perde todas as suas qualidades quando chega perto do imortal, tornando-se uma pirralhinha deslumbrada (“oh, aquele peito de mármore branco e frio como gelo, oh”!).
Para a minha grande surpresa, porém, são justamente estes defeitos irritantes que tornam Lua Nova, o segundo volume da saga, uma obra infinitamente superior ao capítulo original. E não poderia ser diferente já que, logo no terceiro capítulo, Edward Cullen vai embora de Forks e deixa Bella para trás. Sozinha, abandonada e mergulhada numa profunda depressão.
Mas não por muito tempo. Porque poucos capítulos depois, Bella se aproxima de seu amigo de infância, o índio Jacob Black, um garoto carismático, divertido, bondoso, bonito e… lupino. Pois Jake Black nada mais é do que um lobisomen, o inimigo natural dos bebedores de sangue.
A reviravolta não é exatamente uma surpresa, já que foi “anunciada” para os leitores desde a metade inicial de Crepúsculo, mas o modo como acontece e interfere na dinâmica Jake-Bella merece alguns elogios. Além disso, a tensão sexual entre eles é palpável e muito mais natural do que o romance impulsivo e apressado da garota com o Frio, já que o lobo não exerce o mesmo tipo de “domínio” sobre a garota, que se apaixonou por Edward não por um amor genuíno, mas porque é isto o que vampiros provocam nos seres humanos (o interessante elemento que os transforma em predadores formidáveis). O resultado é que a idéia de Bella abrir mão da eternidade para viver com o calor de Jacob é muito mais atraente do que o plano de abandonar a vida para mergulhar sem reservas no frio mundo da imortalidade.
Da mesma forma, assim como no episódio anterior, a calda de açúcar dos momentos românticos (que aqui já considero calda de chocolate) divide espaço com momentos de suspense. E bom suspense, diga-se de passagem. Não apenas a “participação especial” de um determinado vampiro na clareira, que funciona como mera introdução para o reencontro de Bella com o “fantástico”, como também a expectativa alarmante a respeito da presença de uma perigosa inimiga em busca de vingança. Por outro lado, o suspense envolvendo a transformação de Jacob é uma enrolação já que sabemos desde o início o que está acontecendo, e esperar que Bella descubra a verdade é um exercício de paciência.
Mas Luzes e Escuridão é vendida como uma “saga de vampiros” e não de lobisomens (apesar da presença marcantes deles) e, é claro, independentemente do destino plajenado por Meyer, os Cullen não poderiam ficar de fora da história por muito tempo. Assim, não é nenhuma surpresa que a divertida irmã de Edward reapareça repentinamente no “ato final” do livro, e por mais que seja interessante a reviravolta envolvendo um trágico mal-entendido, a sensação de queda é inequívoca e nada elogiosa, já que me refiro ao retrocesso na qualidade da história e não a uma boa reação de susto provocada por uma sequência particularmente bem escrita (lembre-se do Avada Kedavra no Alto da Torre de Astronomia em Harry Potter e o Príncipe Mestiço e entenderá). E não me refiro apenas ao retorno de Edward Cullen, mas também a própria narrativa, extremamente prolixa em toda a sequência na Itália, algo que Stephenie Meyer deixara de cometer nos capítulos anteriores.
E como Meyer não se contenta em estragar a história que finalmente tinha tomado o rumo certo, ela ainda destrói qualquer relevância que a trama poderia ter, o que acontece perto do final, quando Edward impede com uso de força física que Bella se despeça de seu melhor amigo – o que não é apenas moralmente desprezível, mas uma verdadeira ameaça emocional para as milhares de garotas adolescentes que enxergam em Edward Cullen a imagem do companheiro ideal.

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