True Blood – Sangue, vida e Humanidade.

21 21UTC Setembro 21UTC 2009

Primeira Parte

Dois anos após o encerramento de Six Feet Under, em 2006, uma série dramática que falava sobre família, amor, sexo e morte… em resumo, humanidade… Seu criador, Alan Ball, voltou com um novo projeto que, para susto de seus fãs, um público adulto e exigente, tratava-se de uma série sobrenatural: True Blood. A escolha do tema, contudo, não poderia ser mais astuciosa, pois Ball usa nada menos que vampiros para explorar justamente o conceito de “human being”.

Superado, porém, o preconceito inicial alavancado pelos produtos da franquia Crepúsculo, Alan Ball viu boa parte do seu velho público sentado novamente à frente do sofá para ver seu programa e, sem surpresa, assistiu também uma nova geração de fãs se unir à primeira.

Duas temporadas depois (com gostinho de uma), True Blood já desfilou uma coleção tão deliciosa de personagens que fica difícil decidir de quem se gosta mais. E chega a ser curioso que, à princípio, sejam os coadjuvantes os que roubam a cena, já que a estouradinha e sofrida Tara e o safadinho-encrencado Jason acabam sendo muito mais interessantes do que a inocente e perspicaz Sookie ou o galante e ameaçador Bill, humana e vampiro protagonistas e vítimas do amor à primeira vista.

Mas o contraste revela-se um pequeno artifício para que nos encantemos com o maior número possível de personagens antes que os protagonistas assumam seus lugares de honra, sem ofuscar os demais. O que não demora muito para acontecer, já que o romance Sookie-Bill rapidamente conquista a simpatia do espectador, graças ao carisma do casal. Assim, enquanto eles dão novos passos em seu relacionamento, Tara se arrisca em um caso com seu chefe e tenta lidar com a cada vez pior doença da mãe (caso que dá origem a uma intrigante sub-trama sobre fé), Jason se encrenca mais algumas vezes e parece não aprender a lição, o mistério de um serial killer fica mais ameaçador e novos vampiros, que vão surgindo e revelando outras facetas da raça, atiçam nossa curiosidade, revelando que o universo de True Blood é em si um personagem, e não apenas um mero cenário.

Segunda Parte

É claro que nada é perfeito e Alan Ball e seus realizadores cometem erros aqui e ali, como ao aumentar demais os indícios que criminalizam Jason, ou quando tentam despertar desconfiança no espectador desviando as suspeitas de um determinado crime para o bondoso mas esquentado e chatinho Sam. Por outro lado, acertam fácil com os diálogos, tanto cômicos (“Odeio usar os números para digitar”) quanto argumentativos (“Pois meu mundo está se abrindo rápido demais”) ou retóricos (“Estes eram humanos”).

E se o formato “short-season” ajuda algumas séries a contarem melhor suas histórias (Skins, Dexter, a própria Six Feet Under e, principalmente, as últimas temporadas de Lost), aqui o padrão não surte muito efeito já que, como mencionei anteriormente, as duas primeiras temporadas de True Blood são tão conectadas que parecem ser duas partes de uma mesma (e excelente) fase, mesmo que cada temporada conte com seu próprio “caso a ser resolvido”.

Por falar nos casos, é interessante observar que ambos não parecem desempenhar um papel tão fundamental na história, a princípio. Na primeira temporada, apesar da presença do serial killer (um suspense batido, diga-se de passagem), o mais importante na narrativa era desenvolver os personagens e apresentar ao público as regras básicas do lado vampiro do mundo. Já na segunda, a principal mudança acontece no tom da narrativa, que deixa de lado as possibilidades mais realistas (afinal, a coexistência vampiro-humano era tratada de forma bastante sóbria) para desenvolver abertamente elementos sobrenaturais (que já haviam sido introduzidos), o que considero um erro. Embora ainda na primeira temporada sejamos apresentados a um metamorfo e testemunhemos dois impressionantes exorcismos, a verdade é que essas pequenas intervenções não afetavam nossa identificação com aquele mundo. Agora, trazer uma criatura mitológica tão fabulesca quanto aquela interpretada por Michele Forbes parece ter sido um passo grande demais para uma série tão jovem.

Porém, verdade seja dita, a subtrama foi conduzida de um modo que merece aplausos, crescendo rápida e nada discretamente, mas ainda assim dentro de um limite específico, sem ousar atrapalhar nosso envolvimento com a trama paralela envolvendo fundamentalistas religiosos e, principalmente, a rápida (rápida demais) presença de Godric, o personagem mais interessante, complexo e profundo que a série nos apresentou até o momento…

Terceira Parte

Aliás, Godric ofuscou todo e qualquer momento já visto na série e provavelmente jamais será superado. Ouso dizer, ainda, que jamais fiquei tão profundamente encantado por um personagem quanto fiquei diante de Godric, interpretado por um jovem e praticamente desconhecido Allan Hyde com uma serenidade impressionante, mas também dor, revelando apenas no olhar uma existência longa demais de um ser que já viu de tudo, já fez de tudo e está pronto para seguir em frente no longo caminho da existência. E sua fala, “Eu não penso mais como vampiro”, revela de forma econômica um ser muito superior a sua própria raça e infinitamente maior que um ser humano – embora ele seja também imensamente ingênuo, por depositar sua fé em algo tão frágil (a raça humana, original ou transformada), e dono de uma inocência encantadora, a ponto de se fascinar com meras lágrimas humanas; neste caso em particular, verdadeiras em todos os sentidos.

Foi uma pena que esse momento tenha durado tão pouco… e acontecido tão rapidamente. Pois infelizmente é preciso dizer que a decisão de Godric (seguir em frente) aconteceu de forma tão súbita e inexplicável que só percebi o que estava acontecendo quando já estávamos no telhado. No mesmo caminho, True Blood deixou de lado seu momento mais fascinante para retornar a subtrama da vez e… Repito: por mais incômodo que seja, o caso foi desenvolvido de forma realmente interessante e, para minha surpresa, se revelando um perigo real para humanos e vampiros, incluindo os mais velhos e mais fortes. E o desfecho não deixa de ser satisfatório, embora súbito e contraditório (afinal – spoiler – a criatura descobriu no último instante que o animal não era o deus, então não deveria ter sido destruída – fim do spoiler).

Em vinte e quatro episódios fantásticos, sempre crescendo em ritmo, intensidade e história, True Blood já se estabeleceu como um dos melhores e mais surpreendentes lançamentos desta metade da década, ficando lado a lado de dramas formidáveis como Dexter e Lost e ainda continuando, com uma curiosa coerência, os temas e conflitos vistos na finada Six Feet Under, mas acrescentando ao quadro elementos como política, fé, religião e expiação. Ou seja, tudo o que forma nossa humanidade. Antes ou depois da transformação.

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