Arquivo para Novembro, 2009

Linhas

10 10UTC Novembro 10UTC 2009

Denise pegou a garrafa de Amarone de dentro do balde de gelo e saiu silenciosamente pela porta dos fundos. O gramado do quintal ainda estava enxarcado depois da chuva que durara o dia todo; o ar espiritava à mato, terra e concreto molhado; o céu escuro brilhava límpido com gotas de estrelas e um ou dois pedaços de nuvem acinzentada se afastavam uma da outra perto da Lua, amarela ali no horizonte. Denise se sentou no banco molhado no meio do quintal e bebeu o primeiro gole do vinho, derramando-o gargalo-garganta-abaixo. Ao abaixar a garrafa, percebeu que Pedro estava lá novamente.

O Sol já tinha ido embora quando Pedro decidiu voltar. Voltar para um lugar que era apenas “um lugar”, nada mais do que isso, nada especial. Durante duas horas, a chuva lambera seu corpo inteiro – cabelos, rosto, braços, roupas – e finalmente desistira. De quê…? De afogá-lo. De confortá-lo. De lamentar com ele. Agora Pedro estava sozinho. E mais do que as lágrimas da chuva embora, o que fazia sua solidão tão inequívoca era a terra removida abaixo de seus pés e a lápide branca nova e enxarcada a sua frente.

Pedro voltou caminhando. E no único lugar que, embora não significasse mais nada, já tivera um significado, ele parou. Abriu a porta, molhou o capacho preto, gotejou no carpete de madeira no caminho da sala para a cozinha e deixou escorregadio o chão de piso branco até o quintal. Do lado de fora, sentou-se na mesa de alvenaria perto da cerca baixa que delimitava sua residência. Deitou-se na superficie fria e molhada, saboreando o desconforto. Pouco depois, viu Denise sair de sua casa do outro lado da cerca e caminhar pelo gramado molhado até o banco de madeira no centro do quintal. O banco que ele mesmo construira naquela Páscoa, um presente de boas-vindas depois de atropelar o banco de jardim dela e de seu marido enquanto ele descarregavam o caminhão no dia da mudança.

Denise apagou o fogo da lareira elétrica e ficou parada no meio da sala, com o controle na mão. Olhou para a janela casualmente e notou que a chuva tinha parado. Ela ficou olhando pela janela, sem ver nada. Ficou pensando pouco. Sem conseguir definir pensamentos. Pensava em algum lugar. Em algum tempo. Mas não sabia quando e onde qualquer coisa começara. Ou, talvez, não tivesse certeza. Não sabia como tinha chegado até ali. Denise ficou parada, em pé, olhando para nada pela janela gotejada e embaçada. Ficou assim por quase meia hora. Então decidiu se mexer. Olhou em volta. A mobília era linda. Os porta-retratos tinham rostos familiares. As flores perfumavam o ar. A garrafa de Amarone estava mergulhada no gelo, suando deliciosamente ao encontrar o ar quente. Denise a pegou e saiu para o quintal molhado. A caminho do banco de madeira construído por seu vizinho, ela se lembrou da tarde em que se mudara para aquela casa.

André ajudava os carregadores a levar a mobília do caminhão baú para dentro da casa. Dentro da casa, indicava aonde cada coisa deveria ficar. Ele estava sozinho ali. E por sozinho, significa sem Denise. Enquanto suava sob o esforço físico que não estava acostumado, André papeava com os carregadores e explicava que sua esposa estava grávida de três meses. Que eles tinham decido se mudar para lá para dar um bom lar ao bebê. Que ela estava se despedindo de sua equipe no trabalho e apresentando a eles o novo gerente que a substituiria, facilitando a transição. Que ele não trabalhava há três anos. Que comprara a casa com a herança deixada por sua mãe. Que era escritor e compositor. Enquanto cantava um trechinho de uma música que compusera, André foi para a rua acompanhando um dos carregadores, que reconhecia a letra. Mas a música foi interrompida por um barulhinho seco. E André perdeu toda sua animação ao ver as lascas brancas de seu banco de jardim espalhadas pelo asfalto.

Carmen não sabia o que fazer. Parada no semáforo, tentava compreender a extensão daquela notícia. Engoliu uma tempestade de lágrimas e em troca vomitou um gemido. Uma vontade de gritar queimou sua garganta. E por que não? Por que não gritar bem alto? Por que não chorar, se debulhar? Um ano e dois meses. Um ano inteiro mais dois meses de suspense aflitivos. Um ano e dois meses de silêncio, de força, de autocontrole. Por que não chorar agora? Só agora? O semáforo abriu. Carmen mudou a macha e arrancou. Abriu as janelas e sentiu o vento cuspir ar em seu rosto. Seus lábios abriram um sorriso discreto e isso foi o bastante. O sorriso ficou enorme e seus olhos se derramaram em lágrimas, sua garganta rosnava e de repente sua boca gritava, urrava. Com uma mão no volante, levou a outra para a cabeça e desamarrou o laço do lenço estampado de flores. Dois meses ou três. nada mais do que isso. Em breve, aquele vento delicioso faria seus cabelos dançarem novamente. Seus novos cabelos coroariam sua nova vida. Sua nova História.

André seguia o caminhão de mudanças a poucos metros de distância. No rádio, ouvia sua própria música na voz de uma garota de dezenove anos. Ele sorriu. Ele tinha talento. Poucos compositores de sua geração sabiam falar sobre amor e vida tão intensamente como ele. Ele por acaso olhou para o relógio em seu pulso e percebeu que já estava na estrada há quase duas horas. E percebeu como tinha sido tranquila a viagem. E ao entrar na rua onde viveria e se faria feliz pelos próximos muitos anos, pensou em todos os amigos de infância que faria por ali. Todas as amizades eternas e, quem sabe, paixões secretas e platônicas.

Carmen parou o carro na frente de casa e olhou pelo retrovisor para o caminhão de mudanças que estacionava. Sentiu um sabor de fé açucarar sua boca. A vida continuava. Novas histórias começavam. Saiu do carro e olhou em volta, sorrindo para o homem que estacionava seu carro logo atrás do caminhão baú e esperando ver, no final da rua, o carro de Pedro chegando às pressas para abraça-la e ergue-la e girá-la no ar, sorrindo, gritando e chorando. Mas não era o carro dele o brilho prata que ela vislumbrava. Então foi para dentro de casa, pensando em preparar um bolo para comemorar aquele dia e até mesmo dar boas vindas ao novo vizinho que começava uma nova vida bem ao lado dela. Na cozinha, Carmen abriu os armários e começou a separar os ingredientes. E então ouviu um barulho de algo quebrando na rua. Olhou pela janela por mera curiosidade, esperando ver algum carregador lamentar seu descuido. Mas o que viu foi Pedro saindo do carro prata às gargalhadas, se desculpando sinceramente mas nada convincentemente pelo estrago que fizera a algum objeto de madeira branca e, para a surpresa de todos ao redor, abraçar seu novo vizinho que jamais vira na vida.

Não é o começo de tudo.

5 05UTC Novembro 05UTC 2009

INTRODUÇÃO

Existe uma história que sempre me fascina quando me lembro, mas ao mesmo tempo me entristece porque o final não é dos mais felizes. E como poderia ser?  Desde o início, esta parece ser a intenção da história: magoar, ferir. História, afinal, que é sobre um rapaz numa cidade estranha: ele se chama Lucas e tem uns dezesseis ou dezessete anos; ou talvez um pouco mais, é difícil dizer já que ele parece tão jovem e ao mesmo tempo carrega traços inequívocos de alguém com vinte e poucos e pesados anos. A história de Lucas pode parecer simples e clichê se considerarmos apenas a parte do “garoto novo na cidade que não conhece nada nem ninguém e acaba se apaixonando pela última pessoa de quem devia se aproximar”. Sim, ele vive uma história de amor. Mas há duas coisas que fazem da história de Lucas uma história surpreendente e inesquecível: primeiro, ele simplesmente acordou numa cidade da qual nunca ouviu falar (o que talvez não signifique muito já que ele viveu toda sua vida numa cidadezinha minúscula que outras pessoas também jamais ouviram falar); segundo, ele se apaixonou por ele mesmo, sem saber quem era – nenhum dos “dois”.

HISTÓRIA EXTRAORDINÁRIA

Lucas foi dormir ao anoitecer do dia trinta de novembro de mil novecentos e noventa e seis. Tinha que acordar muito cedo no dia seguinte já que ia viajar com a irmã e o ônibus sairia às cinco e dez da madrugada. Mas quando ele acordou e percebeu a forte claridade solar, denunciando cerca de oito ou nove horas da manhã, deu um pulo da cama achando que a irmã não o acordara porque tinha passado mal – ele nem se preocupou por ter perdido o ônibus, seu medo era a causa do atraso, que poderia ser mais uma das dolorosas crises de Camila.

Contudo, o pensamento de preocupação de Lucas foi um simples reflexo resultado do susto de sentir o sol alto; dois ou três segundos pós acordar, Lucas estava em pé e estático e pasmo: ele nunca vira o quarto onde estava agora, e certamente não era marulho o som que vinha de trás das paredes, tão pouco o Atlântico aquela cordilheira cinza e branco-sujo que ele encarava na direção em que deveria estar vendo o horizonte. E então os joelhos de Lucas o levaram subitamente para mais perto do chão, fazendo-o trocar a estabilidade por uma espécie de tremedeira e a pasmaria por um pavor calculado.

Mas esses sentimentos desapareceriam por alguns momentos nos próximos quinze minutos, pois ele seria tomado por uma mistura incompreensível de anestesia e adrenalina.

Quando o carro em que se encontrava quinze minutos depois parou atrás de um semáforo indicando vermelho, Lucas tentou compreender os últimos acontecimentos. Mas se a presença de nada menos do que três estranhos completos em um quarto de hotel de luxo em uma cidade europeia era inexplicável e um deles se comportar como se fosse um velho amigo e se apresentar como Olivier era inesperado, perturbador foi ficar no meio de uma troca de tiros aterradora enquanto era levado hotel afora pelo tal Olivier até um carro estacionado do outro lado da rua.

No semáforo, então, Lucas perguntou o que estava acontecendo. Olivier respondeu que é ele quem devia responder essa pergunta. E pergunta quem eram aquelas pessoas no quarto dele. Parte do acordo era os dois se encontrarem sozinhos. Lucas responde que nunca tinha visto aqueles homens antes, e diz que também não conhecia a ele, Olivier. Olivier diz que eles dois com certeza não se conhecem, pois apenas conversaram por e-mail. Lucas responde que não acessa o e-mail que ganhou no cursinho de informática há mais de seis meses. Olivier faz um gesto com o lábio, parecendo que não entendeu a piada. Mas Lucas diz que não é piada, que está falando sério. Que ele não faz idéia do que está acontecendo. Que foi dormir ontem como foi dormir anteontem e em todas as outras noites de sua vida e que hoje acordou num quarto de hotel com um monte de homem armado falando francês e atirando um no outro. Olivier olha fixamente para Lucas e Lucas olha para ele de volta e pergunta se por acaso ele, Lucas, sofreu um acidente e perdeu a memória.

Olivier então responde que já perdeu a memória uma vez. E que não sabe quem era antes dos vinte e dois anos. Lucas pergunta quantos anos ele tem agora. Trinta e três, de acordo com sua nova identidade.  Lucas, impressionado, pergunta se é possível que ele tenha perdido a memória também. Olivier diz que não é impossível. Lucas pergunta em que data eles estão. Olivier responde quatorze de dezembro e Lucas treme involuntariamente.

Lucas diz que ontem, quando foi dormir, era trinta de novembro. Olivier o olha preocupado e comenta o que os dois já sabia: ele tinha dormido duas semanas. Lucas olha para a rua, inconformado com a nova descoberta, e vê um painel eletrônico na rua informar a data: 14 de dezembro, segunda-feira. Lucas pergunta se hoje não é sábado. Olivier diz que não. Lucas diz que foi dormir na noite de sábado para domingo. Olivier responde que então não foi no dia trinta, pois o último dia trinta foi numa segunda-feira também.

Então sem saída e sem qualquer outra razão a não ser o desencontro de informações, Lucas pergunta em que ano eles estão. Olivier responde com um riso que é dois mil e nove. Mas imediatamente pára de ver graça na pergunta e na resposta quando vê a expressão aterrorizada no rosto do jovem e desconhecido Lucas.

Natureza humana.

4 04UTC Novembro 04UTC 2009

Eu me dou bem com essa minha personalidade meio distraída, meio ingênua… Por causa dela, por exemplo, frequentemente eu me flagro surpreso com acontecimentos que já não são mais novidade para ninguém, como quando noticiei “Gente, a Madonna desmaiou num show!”,  dias após o ocorrido, ou quando estranhei o nome “Topo Gigio”, personagem completamente estranho para  mim.  E isso é algo que causa momentos como: “Nossa, como assim só agora aconteceu a primeira morte por Gripe Suina na China!”, e alguém pergunta: “Então, Achilles… E de que mês é essa notícia, querido?”. Sem falar em todos os momentos que envolvem cores na minha vida. Eu sou daltônico. Por outro lado, me aproveito dessa característica autoreconhecida e faço brincadeiras como questionar “Que banda é essa?” ao ver alguém assistindo a um videoclipe anos oitenta do U2.

Um recente motivo de risos (e um besliquinho na bochecha acompanhado de um “Que fofo!”) foi quando declarei que quero visitar Amsterdã ano que vem para provar maconha sem peso na consciência, e quando confidenciei que estou com vontade de experimentar LSD, comentando que ia marcar uma consulta médica para saber se é seguro para o meu corpo.

Oras! Por que uma garota de 16 anos pode consultar um ginecologista ao decidir transar e um homem adulto não pode consultar, por exemplo, um cardiologista para usar drogas de acordo com o conceito de Redução de Danos?

De fato, eu realmente tomei essas duas decisões: só vou experimentar maconha quando estiver em um País em que a droga for legal, e só vou provar qualquer outra droga quando um médico disser que é relativamente seguro. E sim: eu acredito que encontrarei um médico mente aberta o bastante para ser completamente honesto (em todos os sentidos).

Mas o que me fez escrever esse post é um acontecimento ocorrido lá em setembro, num dos cantos escuros da badalada e (eu acho) bem frequentada casa noturna A Lôca.

Não entrarei em detalhes agora, para entender o caso basta ler uma matéria do G1 aqui ou, de preferência, um relato em primeira pessoa aqui (posts da época).

Leia, por favor.

lifesize-princess-leia-statue-1

Viu? Agora me diz… O que você acha?

Bom, eu estou sim surpreso. Claro que sei imagino o que rola por aí nas noites paulistanas. Mas sempre associei os casos de agressão mais graves à tribos como skinheads e punks. Sim, eu também sei que há inúmeros casos de violência e assassinato cometidos por seguranças de bares e casas noturnas. Mas sempre acreditei que estes casos fossem casos de homens recém-contratados que eram provocados e, provavelmente tão chapados quanto os baladeiros, se descontrolavam. E sempre acreditei que esses homens eram sumariamente presos ou demitidos.

E agora leio que uma das casas noturnas que eu mais frequento frequentei é justamente conhecida por abrigar seguranças que explodem à menor oportunidade. O Gerente? Simplesmente “revidou as agressões”, dominou o cliente ao invés de cumprir seu papel e tentar acalmá-lo

Eu só não acho que o flyer criado para ilustrar o protesto seja válido. “Até quando seremos tratados como lixo apenas por termos gostos diferentes?”, diz a arte gráfica. Eu não acredito (novamente minha ingenuidade falando?) que o motivo da barbarie seja preconceito contra classes, estilos ou sexualidde – afinal, trabalhar como segurança em uma balada gay e ser, por exemplo, homofóbico, não parece fazer muito sentido.

Contudo, trabalhar como segurança em qualquer que seja o lugar e ser justamente o responsável por uma agressão hedionda a um dos frequentadores… É, isso também não faz o menor sentido.

Divagações na balada.

3 03UTC Novembro 03UTC 2009

De repente, um susto: eu estava sozinho.

Aonde foram meus amigos? Onde os vi pela última vez? O que foi que eu fiz desta vez?!

Da última vez que bebi do copo de um estranho, fiquei 10 vezez mais… Animado. E curti a noite como nunca. Mas o simples fato de ter ficado alterado me incomodou e, assim, jurei que jamais voltaria a beber do copo de algum estranho.

Promessa cumprida. Eu não bebi nada.

Nada estranho. De estranhos.

De fato, as bebidas da noite foram… Smirnoff com Sprite do lado de fora da casa. Um copo cheio. Uma dose de tequila (particularmente suave e gostosa, preciso lembrar de perguntar a marca) e uma caipirinha de saquê (okay, caipisaquê). Só isso.

E, de repente, com susto, me descubro sozinho. Sem nenhum conhecido ao redor… Um redor que de repente começou a rodopiar e se inclinar para a direita e balançar para cima antes de, inclinando para a esquerda, ir para baixo lentamente (e insuportavelmente desconfortavelmente) – levando meu corpo todo junto, a exceção do estômago, que insistiu em ir na direção contrária, querendo brincar de boliche fingindo que minha úvula era o pino restante e que as bolinhas de provolone à milanesa eram a bola.

Okay, escatológico, parei.

Sentei. Abaixei a cabeça e senti pela segunda vez na vida aquela sensação estranha que senti quando fui ao Playcenter pela primeira na adolescência e última vez na vida.

Abre parêntese. Acho Playcenter tão inútil. Nem divertido é. Só serve para deixar seu estômago virado e te forçar a dar sorrisinhos sociais enquanto sua pele empalicde para um tom de verde e seus amigos aparentemente imunes a isso e tudo mais se divertem comendo cachorro quente em uma fila que os fará ficar de ponta cabeça – para não dizer que é completamente ruim, confesso que gosto muito do bate-bate, a melhor atração EVER de qualquer parque de diversões. Fecha parêntese.

A sensação era de despencar 40 metros de altura com os olhos fechados.

Ergui a cabeça e abri os olhos e… uau… Descobri o que acontecerá quando entrar em uma certa atração que será inventada algum dia: um simulador que simula todas as máquinas do Playcenter somadas as do Hopi Hari ao mesmo tempo. Acredite, alguns retardados vão curtir esse simulador. Digo isso porque a sensação é… Nojenta de tão ruim.

Fechei os olhos de novo. A sensação ruim ficou pior. Ai decidi que, entre uma sensação ruim e outra tão terrível quanto, a melhor era a que tinha alguma possibilidade… externa. E exposta.

Ficar de olhos abertos permitia que algum pedaço do meu cérebro se divertisse com as atrações gratuitas que desfilavam (dançavam, se agarravam, ritualizavam) a minha frente (e dos meus dois lados).

Até que, de repente, um susto: alguém falou comigo.

- Oi, você tá bem?

- Hein?

- Você tá bem? Tá passando mal?

- Não – respondo. Afinal, alguem algum dia acharia aquela sensação divertida e faria do tal simulador um grande sucesso no Playcenter. Ou no Hopi Hare. Então não devia ser algo exatamente descrito como “passando mal”. – Eu acho que tô bem – deixo escapar, babando uma gotinha de honestidade.

- Bebe mais um pouco – sugere a filha da puta criatura fingindo que veio de Samaria – que melhora. Eu tava assim também – confessa rindo.

- Ah – murmuro, descobrindo que estimular a audição e a voz fazia a coisa ficar um pouquinho mais desagradável. – Vou beber uma água, então… – e de repente percebendo o que estava acontecendo, qual era o sentido de tudo aquilo, acrescento: – Me ajuda a chegar no bar?

- Claro! – responde animadamente a agora atraente criatura que provavelmente tinha vindo de… alguma cidade histórica onde só tinha gente bonita e atraente. E de belas pernas grossas. Nossa, que pernas.

E assim eu me ergo com um pouco de ajuda. E quando sinto minhas pernas vibrando sem auxílio de acessórios elétricos percebo que estou realmente mal. Alguma coisa estava errada.

Enquanto caminhava até o bar com uma confortável e reconfortante muleta que provocava certas reações libidinosas no meu corpo, comecei a pensar na última hora e no que tinha acontecido.

No bar, peço uma garrafa de água e… Bam. De repente, tudo vem a tona.

Beber do copo de estranhos não é legal. Pode ter alguma coisa ilícita e/ou perigosa dentro. Eu sempre soube disso – e redescobri assistindo a MeninaMá.com.

Mas eu nunca imaginei… aliás, eu provavelmente nem acreditaria se me contassem.

Sem perceber, consumi alguma coisa estranha. Ilícita, talvez, mas com certeza perigosa (no mínimo, me deixou mal, o que me deixa irritado, o que me faz perigoso, o que torna a substância perigosa).

É foda. Depois de tanto tempo, depois de tantas experiências… divertidas e que só poderei contar para os meu netos quando eles forem grandinhos… descubro que a coisa mais básica do relacionamento sexual humano, a mais bobinha e inofensiva de todas… também oferece perigo.

Assim, guardo agora mais uma lição: ao beijar bocas estranhas, tentarei não “dividir” balas ou chicletes. E se de repente, num susto, esgolir algo estranho, vou correndo para o banheiro cuspir.

O que me leva de volta a água recém pedida no bar.

Não consegui abrir a garrafinha e a bondosa e boa (gostosa, mesmo) criatura me ajudou.

Dei um gole, sentindo a deliciosa sensação de frio banhar minha língua, gargante, traquéia e … Encontrar congestionamento no caminho. Engavetar. Começar uma perigosa discussão. E dar ré, trazendo outras coisas enganchadas.

Okay, parei. Os próximos cinco segundos foram muito escatológicos.

ATUALIZAÇÃO

De repente percebi que o título desse post é uma porcaria.