Denise pegou a garrafa de Amarone de dentro do balde de gelo e saiu silenciosamente pela porta dos fundos. O gramado do quintal ainda estava enxarcado depois da chuva que durara o dia todo; o ar espiritava à mato, terra e concreto molhado; o céu escuro brilhava límpido com gotas de estrelas e um ou dois pedaços de nuvem acinzentada se afastavam uma da outra perto da Lua, amarela ali no horizonte. Denise se sentou no banco molhado no meio do quintal e bebeu o primeiro gole do vinho, derramando-o gargalo-garganta-abaixo. Ao abaixar a garrafa, percebeu que Pedro estava lá novamente.
O Sol já tinha ido embora quando Pedro decidiu voltar. Voltar para um lugar que era apenas “um lugar”, nada mais do que isso, nada especial. Durante duas horas, a chuva lambera seu corpo inteiro – cabelos, rosto, braços, roupas – e finalmente desistira. De quê…? De afogá-lo. De confortá-lo. De lamentar com ele. Agora Pedro estava sozinho. E mais do que as lágrimas da chuva embora, o que fazia sua solidão tão inequívoca era a terra removida abaixo de seus pés e a lápide branca nova e enxarcada a sua frente.
Pedro voltou caminhando. E no único lugar que, embora não significasse mais nada, já tivera um significado, ele parou. Abriu a porta, molhou o capacho preto, gotejou no carpete de madeira no caminho da sala para a cozinha e deixou escorregadio o chão de piso branco até o quintal. Do lado de fora, sentou-se na mesa de alvenaria perto da cerca baixa que delimitava sua residência. Deitou-se na superficie fria e molhada, saboreando o desconforto. Pouco depois, viu Denise sair de sua casa do outro lado da cerca e caminhar pelo gramado molhado até o banco de madeira no centro do quintal. O banco que ele mesmo construira naquela Páscoa, um presente de boas-vindas depois de atropelar o banco de jardim dela e de seu marido enquanto ele descarregavam o caminhão no dia da mudança.
Denise apagou o fogo da lareira elétrica e ficou parada no meio da sala, com o controle na mão. Olhou para a janela casualmente e notou que a chuva tinha parado. Ela ficou olhando pela janela, sem ver nada. Ficou pensando pouco. Sem conseguir definir pensamentos. Pensava em algum lugar. Em algum tempo. Mas não sabia quando e onde qualquer coisa começara. Ou, talvez, não tivesse certeza. Não sabia como tinha chegado até ali. Denise ficou parada, em pé, olhando para nada pela janela gotejada e embaçada. Ficou assim por quase meia hora. Então decidiu se mexer. Olhou em volta. A mobília era linda. Os porta-retratos tinham rostos familiares. As flores perfumavam o ar. A garrafa de Amarone estava mergulhada no gelo, suando deliciosamente ao encontrar o ar quente. Denise a pegou e saiu para o quintal molhado. A caminho do banco de madeira construído por seu vizinho, ela se lembrou da tarde em que se mudara para aquela casa.
André ajudava os carregadores a levar a mobília do caminhão baú para dentro da casa. Dentro da casa, indicava aonde cada coisa deveria ficar. Ele estava sozinho ali. E por sozinho, significa sem Denise. Enquanto suava sob o esforço físico que não estava acostumado, André papeava com os carregadores e explicava que sua esposa estava grávida de três meses. Que eles tinham decido se mudar para lá para dar um bom lar ao bebê. Que ela estava se despedindo de sua equipe no trabalho e apresentando a eles o novo gerente que a substituiria, facilitando a transição. Que ele não trabalhava há três anos. Que comprara a casa com a herança deixada por sua mãe. Que era escritor e compositor. Enquanto cantava um trechinho de uma música que compusera, André foi para a rua acompanhando um dos carregadores, que reconhecia a letra. Mas a música foi interrompida por um barulhinho seco. E André perdeu toda sua animação ao ver as lascas brancas de seu banco de jardim espalhadas pelo asfalto.
Carmen não sabia o que fazer. Parada no semáforo, tentava compreender a extensão daquela notícia. Engoliu uma tempestade de lágrimas e em troca vomitou um gemido. Uma vontade de gritar queimou sua garganta. E por que não? Por que não gritar bem alto? Por que não chorar, se debulhar? Um ano e dois meses. Um ano inteiro mais dois meses de suspense aflitivos. Um ano e dois meses de silêncio, de força, de autocontrole. Por que não chorar agora? Só agora? O semáforo abriu. Carmen mudou a macha e arrancou. Abriu as janelas e sentiu o vento cuspir ar em seu rosto. Seus lábios abriram um sorriso discreto e isso foi o bastante. O sorriso ficou enorme e seus olhos se derramaram em lágrimas, sua garganta rosnava e de repente sua boca gritava, urrava. Com uma mão no volante, levou a outra para a cabeça e desamarrou o laço do lenço estampado de flores. Dois meses ou três. nada mais do que isso. Em breve, aquele vento delicioso faria seus cabelos dançarem novamente. Seus novos cabelos coroariam sua nova vida. Sua nova História.
André seguia o caminhão de mudanças a poucos metros de distância. No rádio, ouvia sua própria música na voz de uma garota de dezenove anos. Ele sorriu. Ele tinha talento. Poucos compositores de sua geração sabiam falar sobre amor e vida tão intensamente como ele. Ele por acaso olhou para o relógio em seu pulso e percebeu que já estava na estrada há quase duas horas. E percebeu como tinha sido tranquila a viagem. E ao entrar na rua onde viveria e se faria feliz pelos próximos muitos anos, pensou em todos os amigos de infância que faria por ali. Todas as amizades eternas e, quem sabe, paixões secretas e platônicas.
Carmen parou o carro na frente de casa e olhou pelo retrovisor para o caminhão de mudanças que estacionava. Sentiu um sabor de fé açucarar sua boca. A vida continuava. Novas histórias começavam. Saiu do carro e olhou em volta, sorrindo para o homem que estacionava seu carro logo atrás do caminhão baú e esperando ver, no final da rua, o carro de Pedro chegando às pressas para abraça-la e ergue-la e girá-la no ar, sorrindo, gritando e chorando. Mas não era o carro dele o brilho prata que ela vislumbrava. Então foi para dentro de casa, pensando em preparar um bolo para comemorar aquele dia e até mesmo dar boas vindas ao novo vizinho que começava uma nova vida bem ao lado dela. Na cozinha, Carmen abriu os armários e começou a separar os ingredientes. E então ouviu um barulho de algo quebrando na rua. Olhou pela janela por mera curiosidade, esperando ver algum carregador lamentar seu descuido. Mas o que viu foi Pedro saindo do carro prata às gargalhadas, se desculpando sinceramente mas nada convincentemente pelo estrago que fizera a algum objeto de madeira branca e, para a surpresa de todos ao redor, abraçar seu novo vizinho que jamais vira na vida.
