Não é o começo de tudo.

5 05UTC Novembro 05UTC 2009

INTRODUÇÃO

Existe uma história que sempre me fascina quando me lembro, mas ao mesmo tempo me entristece porque o final não é dos mais felizes. E como poderia ser?  Desde o início, esta parece ser a intenção da história: magoar, ferir. História, afinal, que é sobre um rapaz numa cidade estranha: ele se chama Lucas e tem uns dezesseis ou dezessete anos; ou talvez um pouco mais, é difícil dizer já que ele parece tão jovem e ao mesmo tempo carrega traços inequívocos de alguém com vinte e poucos e pesados anos. A história de Lucas pode parecer simples e clichê se considerarmos apenas a parte do “garoto novo na cidade que não conhece nada nem ninguém e acaba se apaixonando pela última pessoa de quem devia se aproximar”. Sim, ele vive uma história de amor. Mas há duas coisas que fazem da história de Lucas uma história surpreendente e inesquecível: primeiro, ele simplesmente acordou numa cidade da qual nunca ouviu falar (o que talvez não signifique muito já que ele viveu toda sua vida numa cidadezinha minúscula que outras pessoas também jamais ouviram falar); segundo, ele se apaixonou por ele mesmo, sem saber quem era – nenhum dos “dois”.

HISTÓRIA EXTRAORDINÁRIA

Lucas foi dormir ao anoitecer do dia trinta de novembro de mil novecentos e noventa e seis. Tinha que acordar muito cedo no dia seguinte já que ia viajar com a irmã e o ônibus sairia às cinco e dez da madrugada. Mas quando ele acordou e percebeu a forte claridade solar, denunciando cerca de oito ou nove horas da manhã, deu um pulo da cama achando que a irmã não o acordara porque tinha passado mal – ele nem se preocupou por ter perdido o ônibus, seu medo era a causa do atraso, que poderia ser mais uma das dolorosas crises de Camila.

Contudo, o pensamento de preocupação de Lucas foi um simples reflexo resultado do susto de sentir o sol alto; dois ou três segundos pós acordar, Lucas estava em pé e estático e pasmo: ele nunca vira o quarto onde estava agora, e certamente não era marulho o som que vinha de trás das paredes, tão pouco o Atlântico aquela cordilheira cinza e branco-sujo que ele encarava na direção em que deveria estar vendo o horizonte. E então os joelhos de Lucas o levaram subitamente para mais perto do chão, fazendo-o trocar a estabilidade por uma espécie de tremedeira e a pasmaria por um pavor calculado.

Mas esses sentimentos desapareceriam por alguns momentos nos próximos quinze minutos, pois ele seria tomado por uma mistura incompreensível de anestesia e adrenalina.

Quando o carro em que se encontrava quinze minutos depois parou atrás de um semáforo indicando vermelho, Lucas tentou compreender os últimos acontecimentos. Mas se a presença de nada menos do que três estranhos completos em um quarto de hotel de luxo em uma cidade europeia era inexplicável e um deles se comportar como se fosse um velho amigo e se apresentar como Olivier era inesperado, perturbador foi ficar no meio de uma troca de tiros aterradora enquanto era levado hotel afora pelo tal Olivier até um carro estacionado do outro lado da rua.

No semáforo, então, Lucas perguntou o que estava acontecendo. Olivier respondeu que é ele quem devia responder essa pergunta. E pergunta quem eram aquelas pessoas no quarto dele. Parte do acordo era os dois se encontrarem sozinhos. Lucas responde que nunca tinha visto aqueles homens antes, e diz que também não conhecia a ele, Olivier. Olivier diz que eles dois com certeza não se conhecem, pois apenas conversaram por e-mail. Lucas responde que não acessa o e-mail que ganhou no cursinho de informática há mais de seis meses. Olivier faz um gesto com o lábio, parecendo que não entendeu a piada. Mas Lucas diz que não é piada, que está falando sério. Que ele não faz idéia do que está acontecendo. Que foi dormir ontem como foi dormir anteontem e em todas as outras noites de sua vida e que hoje acordou num quarto de hotel com um monte de homem armado falando francês e atirando um no outro. Olivier olha fixamente para Lucas e Lucas olha para ele de volta e pergunta se por acaso ele, Lucas, sofreu um acidente e perdeu a memória.

Olivier então responde que já perdeu a memória uma vez. E que não sabe quem era antes dos vinte e dois anos. Lucas pergunta quantos anos ele tem agora. Trinta e três, de acordo com sua nova identidade.  Lucas, impressionado, pergunta se é possível que ele tenha perdido a memória também. Olivier diz que não é impossível. Lucas pergunta em que data eles estão. Olivier responde quatorze de dezembro e Lucas treme involuntariamente.

Lucas diz que ontem, quando foi dormir, era trinta de novembro. Olivier o olha preocupado e comenta o que os dois já sabia: ele tinha dormido duas semanas. Lucas olha para a rua, inconformado com a nova descoberta, e vê um painel eletrônico na rua informar a data: 14 de dezembro, segunda-feira. Lucas pergunta se hoje não é sábado. Olivier diz que não. Lucas diz que foi dormir na noite de sábado para domingo. Olivier responde que então não foi no dia trinta, pois o último dia trinta foi numa segunda-feira também.

Então sem saída e sem qualquer outra razão a não ser o desencontro de informações, Lucas pergunta em que ano eles estão. Olivier responde com um riso que é dois mil e nove. Mas imediatamente pára de ver graça na pergunta e na resposta quando vê a expressão aterrorizada no rosto do jovem e desconhecido Lucas.

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