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Palavrão #11 – A Cientista que Curou seu Próprio Cérebro

Jill Bolte Taylor teve sua vida moldada pelo sangue, pelas raízes. Irmã mais nova de um portador de esquizofrenia, foi atraída desde a juventude pelos mistérios e segredos do cérebro, o que simplesmente determinou seu destino acadêmico. Cerca de vinte anos depois, a caçula se tornou uma competente neurocientista e um dos principais nomes, no país, na causa que buscava incentivar a doação de cérebro de portadores de doenças mentais – ação fundamental para que os estudos acerca de causas e tratamentos de doenças do cérebro pudessem prosseguir e, assim, vidas pudessem ser salvas ou melhoradas. Mas todo o conhecimento não foi suficiente para impedir que a doutora sofresse seu próprio trauma – e nem poderia, já que nada teria mudado a má-f0rmação congênita dos vasos sangüíneos de sua cabeça, que foram a causa de uma grave hemorragia que se tornou um derrame colossal. Assim, sua vida foi mais uma vez afetada por suas raízes: no início, a doença de seu irmão a tornou uma médica; no fim, um simples defeito de nascença se impôs para mostrar a fragilidade do corpo.

O que ninguém esperava, porém, era que tal desafio revelaria a inacreditável força de um cérebro vivo, habitado por uma mente que se recusa a se apagar.

E assim tem início a narrativa de A Cientista que Curou seu Próprio Cérebro (ou Meu Derrame de Sabedoria, em tradução livre do título original), que após uma breve introdução contando o histórico acadêmico da biografada, finalmente nos leva à manhã em que a mulher acorda e aos poucos vai identificando cada um dos sintomas que, ela entende, são os sinais de um derrame que está sofrendo. E é neste ponto que a leitura nos prende, já que somos convidados a submergir neste fascinante e amplo universo que é um único cérebro humano. E o fato de o derrame de Taylor ter ocorrido no lado esquerdo do cérebro só torna a experiência ainda mais fascinante.

Explicando grosseiramente, o lado esquerdo do cérebro é responsável pela lógica, pelo raciocínio, enquanto o lado direito é aquele onde experimentamos as sensações e as emoções. Uma separação, aliás, que nos permite ousar e mapear um dos principais elementos da psicanálise, nomeando o hemisfério esquerdo como superego e o direito como id, dando o título de ego a personalidade que é formada pela combinação dos dois lados – que resultam no indivíduo.

Mas se A Cientista surpreende pela descrição precisa e atraente das sensações maravilhosas causadas por um derrame no lado esquerdo do cérebro, logo a narrativa começa a desafiar a lógica e nos fazer questionar.

Por um lado, temos a experiência que pode ser comparada ao uso de uma droga fortíssima. Lembrando da física primária, sabemos que tudo no universo é formado por átomos, por isso, ter um derrame no lado esquerdo do cérebro (raciocínio) faz com que o lado direito (sensações) se fortaleça e se conecte ao elemento básico – o átomo. Assim, o indivíduo não consegue mais determinar as dimensões de seu próprio corpo, e fica sem saber onde termina seu braço e onde começa uma parede, por exemplo. Esta sensação, embora soe aterrorizante, é na verdade uma experiência sensorial extraordinária, como um nirvana. Porém, a incapacitação do lado esquerdo do cérebro culmina também em deficiências mais graves, como a perda de coordenação motora e memória, o que acaba inutilizando a vítima irremediavelmente. E é neste ponto que o livro encontra seus sérios problemas.

Os primeiros capítulos, que narram o progresso do derrame, também contam a luta interna de Taylor para resistir a tentação de se entregar ao nirvana e manipular um pedido de ajuda. Tarefa concluída, a mulher é dominada pela hemorragia, mas, embora o socorro tenha chegado a tempo, as principais seqüelas já haviam se instalado, inclusive a perda total de memória: 37 anos da vida de Taylor foram apagados. E a notícia surge e some como uma mera informação, um simples dado, jamais sendo explorada de uma forma adequada que nos permitisse compreender as consequencias dessa terrível seqüela – e jamais entendemos se Taylor conseguiu recuperar pedaços de sua memória ou se acabou simplesmente criando uma vida nova a partir do derrame.

Da mesma forma, Taylor (que escreveu o livro de próprio punho ou contratou um patético ghost writer) mantém a narrativa em primeira pessoa ao longo de todos os capítulos, embora boa parte do tempo sua “personagem” estivesse simplesmente incapacitada para compreender qualquer coisa que estivesse acontecendo ou seu redor ou com ela. Ainda assim, Taylor narra como se se lembrasse de cada detalhe – o que seria tecnicamente impossível.

E se esta negligência não fosse ruim o bastante, nada nos prepara para a segunda metade do livro, que deixa de lado as importantes descrições e discussões médicas (e filosóficas) para dar lugar a insuportáveis capítulos de auto-ajuda que tentam convencer o leitor a viver uma vida mais feliz, cuidar de seu jardim e suas trilhões de florzinhas (que são as células do corpo humano) e se conectar ao Universo.

Mas essa terrível intervenção criativa não se compara a mais grave das faltas cometidas por Taylor.

AVC é uma das principais causas de morte ou incapacitação de pessoas no mundo, e a maioria das vítimas simplesmente jamais se recupera. Jill Bolte Taylor, porém, tem hoje saúde física e mental perfeitas e é tão normal quanto nós. Ela demorou 8 anos para se recuperar, período em que precisou reaprender a falar e a ouvir, ler e escrever, engolir e usar talheres, se sentar, ficar em pé, andar, caminhar, correr. Neste período, Taylor estimulou seu cérebro de todas as formas que pode, inclusive através da arte, como ao trabalhar com esculturas (de cérebros) e, principalmente, ao escrever este livro. O que imediatamente torna o processo de escrita uma parte fundamental do processo de recuperação. Infelizmente, porém, Taylor não dedica sequer um parágrafo para falar sobre este que é o seu trabalho mais importante, ignorando completamente o fascinante processo que deve ter sido escrever um livro enquanto voltava a ser uma pessoa normal.

Relevante ao apresentar as caras e formas de uma doença tão grave e misteriosa, e servindo até mesmo como guia para que potenciais vítimas identifiquem os sintomas e se antecipem com um pedido de ajuda, A Cientista que Curou seu Próprio Cérebro acaba se enfraquecendo e se perdendo graças aos discursos pedestres de “carpe vita” que jamais trazem qualquer novidade e acabam distraindo o leitor de lições e informações mais importantes, como a convivência com uma vítima de AVC e como é, efetivamente, seu processo de recuperação.

Enfim. Um grandioso relato, esmagado por frágeis idealismos.

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