Category Archives: Capítulo 8

FLIGHT 2004

Apresentação1

A Bala na Agulha | Coisas de Meninos

Assisti A BALA NA AGULHA e COISAS DE MENINOS há alguns dias e não poderia estar mais feliz com a combinação de rimas e contrastes que encontrei entre as duas peças. De um lado, uma marcante homenagem de veteranos para veteranos que têm o palco no sangue e deram a alma para Arte; do outro, uma poesia juvenil sensível e viva para quem tem a Arte na alma.

Mas se fiquei encantado com a riqueza dessa combinação, eu não poderia estar mais triste por não ter ido assisti-las antes, já que ambas estão em suas últimas apresentações: Meninos fica em cartaz por mais duas semanas no teatro Viga (de 6 a 15/dez), enquanto Bala sobe ao palco apenas HOJE, sábado, e AMANHÃ, domingo, no Tucarena.

Sobre as peças:

Primeiro temos o nó na garganta que é, afinal, a tal da bala na agulha dos personagens da querida (e dama) Nanna de Castro. O tema-título é a mágoa, a amargura, a vergonha e a culpa guardadas, combustíveis que podem explodir uma vítima sem aviso, mas que precisam de certo tempo para amadurecer e ameaçar. Isto acaba tornando A Bala na Agulha uma obra para adultos, para homens e mulheres que já encontraram ou temem lidar com o fracasso ou a humilhação. Mas “para adultos” não significa inacessível para um público mais jovem, já que o texto ágil (e divertidíssimo) inclui referências modernas que fazem qualquer um se sentir no próprio mundo, enquanto o trio de atores em cena confere carisma e repulsa num equilíbrio ideal para fascinar o espectador em qualquer fase da vida. Eduardo Semerjian é, sem dúvidas, o grande destaque, brilhante ao construir personagens dentro de seu personagem em cenas que encantam o espectador-artista – ver um processo de criação é algo fascinante mesmo quando é falso. Não é muito fácil simpatizar com os personagens, por outro lado, e isto pode perfeitamente ser a intenção da obra, afinal, eles não deixam de ser arquétipos das nossas vaidades mais perecíveis e desprezíveis. E é aqui, para mim, que reside o maior valor e alcance dramático do texto.

E também temos a preciosidade de Coisas de Meninos, fantasia sobre uma juventude ingênua, mas nada inocente. O texto é do diretor e dos próprios atores (ou seja, meninos e homens que ainda vivem a juventude ou ainda se lembram bem dela), e o resultado encanta por conseguir conferir, simultaneamente, urgência e saudade aos conflitos e reflexões de seus personagens. O trabalho está longe de ser exclusivo para adolescentes e jovens adultos, porém, já que traz ideias filosóficas que podem ser muito apreciadas por um público mais velho, e a qualidade do texto é, em si, um presente particularmente admirável. Entre os melhores momentos, temos a perturbadora fantasia de que o ar expelido do pulmão de um afogado permite um suspiro de alívio aos vivos e a orgulhosa epifania de que a sequência do número Pi é uma régua da inteligência humana, tornando-se mais longa conforme evoluímos – o que me leva ao momento em que uma professora se deixa consumir e afundar pelo remorso em uma cena particularmente angustiante. Contudo, é justo dizer que a produção peca por se prolongar demais em algumas cenas ou não construir uma narrativa mais redonda e objetiva, e que seu maior equívoco é, sem dúvidas, não explorar mais o talento musical de seus excelentes atores. Entre eles, o destaque vai para o carismático Arthur Berger e seus monólogos, que consegue a proeza de se sobressair e brilhar mesmo quando tudo nos faz olhar para o outro lado.

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Seduzido pelo Mal, um conto de amor

Jovem marinheiro heterossexual passa uma tarde conversando e bebendo com um sujeito desconhecido que ele conheceu na praia. Um homem um pouco mais velho, de personalidade fascinante, estimulante e cativante. Em certo momento da conversa, estendida para o quarto de motel onde o sujeito estava hospedado, o homem deixa claro estar tentando seduzi-lo fisicamente, apesar de já te-lo feito emocional e intelectualmente. O marinheiro parece até tentar não resistir, especialmente ao se dar conta do que a sua imagem – a de um garoto jovem e muito bonito – representa para os desejos daquele homem que ele adoraria – e deseja profundamente – ser amigo. Ele chega a posar sem camiseta para algumas fotos. Mas ele não consegue simplesmente enganar a própria sexualidade e decide ir embora antes que algo fisicamente mais íntimo seja forçado. E se despede, levando a memória de uma tarde fascinante que ele sempre se lembraria com imenso carinho e um pouco de dúvida.

Mesmo após descobrir, mais de 30 anos depois, que o cativante desconhecido era um dos maiores e mais violentos assassinos em série da história dos EUA. E que ele deveria ter sido apenas mais uma vítima.

Leia a história completa, escrita pelo próprio marinheiro, no blog Though Catalog. Link.

E leia, na Wikipedia, o perfil de Randy Kraft, o Assassino da Rodovia. Link.

Coven

Primeiros pensamentos sobre a terceira minissérie de American Horror Story, que começou muito bem.

Sem spoilers.

Aquele que parece ser o grande tema da minissérie é estabelecido sem perda de tempo: o confronto entre magia e tecnologia; mas não a já velha discussão sobre qual seria a diferença entre as duas ciências, e sim os limites pessoais, morais e éticos na prática delas numa premissa em que ambas são reais e completamente diferentes. Uma premissa, aliás, que inclui bruxas poderosíssimas que, nada mais do que humanas, podem sofrer de alcoolismo ou doenças crônicas, como diabetes, e fazem cirurgias plásticas.

Mas se o tema é bem definido com rapidez, o tom da produção não pode se gabar do mesmo nos dois primeiros episódios, já que a direção de arte, por exemplo, é incapaz de estabelecer um equilíbrio entre as cenas e cenários que se passam no século 19 e as sequências no século 21, constantemente causando estranhezas visuais, como a transição o encontro em um centro de pesquisa. Por outro lado, a mesma equipe faz acertos bem inteligentes, como ao mostrar ingredientes para poções mágicas sendo cultivados numa moderna estufa, o que reforça o tema e conta para o espectador que já existe uma certa simbiose entre os dois mundos. (E numa piada inspirada, mais tarde vemos uma bruxa usando um tablet enquanto sentada em seu trono Voodoo.)

Sobre os personagens, ainda não há muito o que falar, exceto que Ryan Murphy e Brad Falchuk não temem a antipatia do público por personagens patéticos, desprezíveis ou presos em condições insustentáveis. E isto é um elogio, já que assim eles também estabelecem os pontos iniciais de arcos dramáticos que podem ser muito recompensadores. Os destaques são a covarde Mocinha de Taíssa Farmiga (o m capital é proposital), a enojante matriarca anacrônica de Kathy Bates, o monstro de Evan Peters (que traz características sutis de suas duas encarnações anteriores na série, o que é uma continuidade intrigante) e, é claro, a poderosa bruxa de Jessica Lange, que é perversa demais para ser considerada anti-heroína, mas também uma líder relevante demais para ser chamada de vilã.

E este seu papel pode ser particularmente importante, já que os primeiros episódios – e a vinheta de abertura – indicam que uma verdadeira guerra está a caminho. Uma guerra entre ciências, entre crenças e entre bruxas.

Olivia. In Fringe. Without the Emmy.

Pensando em FRINGE e no trabalho espetacular de Anna Torv. A mulher interpretou nada menos do que TREZE versões da mesma personagem! E considerando a complexidade e a sutileza de cada versão e o resultado admirável em pelo menos 9 dos trabalhos, chega a ser ofensivo que ela não tenha sido sequer indicada a um Emmy.

Pensem bem. SPOILERS:

Além da Olivia do início da série, na terceira temporada ela interpretou a Olivia original achando que era a Olivia B; depois foi Olivia B fingindo ser a Olivia original, até finalmente poder ser 100% Olivia B. São 4 versões. No mesmo ano, ela foi possuída pela consciência de William Bell e simplesmente encarnou os trejeitos físicos e vocais de Leonard Nimoy. 5. Mais tarde, a atriz criou uma versão sutilmente diferente da Olivia original, ou seja, Olivia C, até recuperar a memória e se tornar a A de novo – uma dinâmica dramática que apenas soa familiar com o que aconteceu com a identidade da Olivia B, mas é completamente diferente. 7, então, e se considerarmos a versão levemente modificada da Olivia B, que então vira D, já são 8. E ainda temos a versão 20 mais velha da Olivia B e as duas versões, 10 e 20 anos mais velha, da Olivia A. Detalhe: a B envelheceu fisicamente enquanto a A em um momento foi envelhecida e no outro continuou com a mesma aparência da juventude. 11!

Uou.

E se incluirmos a versão da historinha de Walter em Brown Betty e a versão animada de Olivia em Lysergic Acid Diethylamide, temos impressionantes 13 versões da personagem.

Análise de Réquiem Para um Sonho | Por José Rodrigo Baldin

Réquiem Para um Sonho (2000) – Dirigido por Darren Aronofsky, com Jared Leto, Jennifer Connelly, Ellen Burstyn, Marlon Wayans.

Réquiem Para um Sonho é um dos filmes mais inquietantes que já assisti. Rico em linguagem, é uma obra que aposta em muitas rimas visuais, como veremos adiante, conta com belíssimas interpretações dos protagonistas e com uma montagem e trilha sonora que conferem peso ao drama e fazem o espectador absorver as tragédias pessoais como poucos longas conseguem. O objetivo desse texto é mostrar como a direção utiliza elementos de linguagem, como cores, figurino, posição de câmera e inserções subjetivas, para conduzir o espectador por uma experiência angustiante ao acompanhar a vida de quatro viciados em drogas lícitas e ilícitas. O diretor é Darren Aronofsky em um dos seus primeiros trabalhos, justamente em um período onde novos cineastas começavam a inovar as maneiras de contar histórias, como os três exemplos mais ou menos da mesma época dos quais gosto muito: Nolan em Amnésia (do mesmo ano, 2000), Soderbergh em Traffic (2001) e Iñarritu em 21 Gramas (2003).

Basicamente divido em três capítulos (Verão, Outono e Inverno), Réquiem Para um Sonho acompanha a decadência da vida de Harry Goldfarb (Leto) e de três personagens ligados intimamente a ele: sua mãe, Sara Goldfarb (Burstyn), uma viúva deprimida, sozinha e solitária que se entrega à lavagem cerebral televisiva e que alimenta o sonho de aparecer em um show para contar sua história; Tyrone C. Love (Wayans), seu melhor amigo que se torna seu sócio na tentativa de se consolidar como distribuidor de drogas na cidade; e Marion Silver (Connelly), sua jovem namorada que fugiu dos pais por conta da sua dependência química.

O primeiro destaque, já na sequência inicial, mostra Harry desligando a TV da mãe, que se tranca em um quarto. É a primeira vez que o diretor utiliza a divisão da tela que será recorrente durante a projeção, usada sempre que Aronofsky quer aproximar ainda mais os coadjuvantes ao protagonista. Assim, vemos dois planos, de Harry e da mãe, divididos da seguinte forma:

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Esta cena parece mostrar ao espectador uma natureza violenta do jovem, mas na verdade imediatamente acentua a loucura de Sara quando fala ao seu falecido marido, negando que aquilo estava acontecendo. Quando percebemos que a vida de Sara se afasta cada vez mais da realidade, fica claro que ali ela estava se negando a acreditar no vício do filho, e não fugindo de um garoto violento.

Este mesmo recurso será utilizado para aproximar Harry e a namorada Marion em um dos poucos momentos serenos do filme, onde os planos se alternam entre olhares e carícias, divididos na tela como na sequência citada acima:

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Este recurso se torna ainda mais interessante quando utilizado para aproximar Harry e Ty. Se nas sequências anteriores de Harry a divisão da câmera evidenciou o sentimento entre ele e Sara, separados por uma porta trancada, e entre ele e Marion, sem nada entre eles, o relacionamento entre Harry e Ty, mais estreito quando eles iniciam a sociedade, é ilustrado quando a tela exibe lado a lado o efeito das drogas nos olhos dos dois, da seguinte forma:

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Este quadro pertence a uma sequência de cortes rápidos que Aronofsky já utilizara para indicar o uso de substâncias que causam a dependência de cada um. Todos, sem exceção, são submetidos a essas inserções antes de sequências nas quais estão sob efeito de drogas.

O espectador rapidamente entende essa linguagem utilizada pelo diretor e logo vemos cortes rápidos para pílulas, cigarros de maconha, carreiras de cocaína, seringas e mesmo café, neste caso indicando claramente que Sara se entrega a dependência de qualquer substância que a altere. Adiante, Aronofsky mistura as duas linguagens para aproximar a seguinte relação de Sara com a geladeira que passa a atormentá-la durante o regime forçado:

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Ainda através de sequências estética e logicamente semelhantes, o diretor repete cenas do subjetivo dos personagens, interrompendo ao finalmente nos mostrar quais seriam as verdadeiras intenções de Harry, Sara e Marion para seguir com história.

Isso acontece com Harry roubando a arma do policial:

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Com as alucinações de Sara quando os doces descem do teto…

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… e quando seus desejos reprimidos se manifestam na sua sala:

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Por fim, a garfada de Marion no sujeito a quem se entregará por drogas:

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O interessante dessa repetição de sequências subjetivas é que todas elas acontecem quando os personagens estão sem uso de drogas. Contextualizando Sara e Marion, a primeira decide buscar ajuda médica para emagrecer, e a garota estava prestes a transar por dinheiro e assim conseguir o capital inicial para Harry voltar ao negócio ilícito.

E é nessas duas personagens que o figurino tem fundamental papel para o desenvolvimento da tragédia presente nos arcos de ambas. Sara é apresentada sem nenhuma cor vibrante e passa a buscar o vermelho ao longo da projeção, simbolizado pelo vestido que usou na formatura de Harry e que supostamente despertava o desejo do marido. Já Marion é apresentada vestindo um azul forte e passa a utilizar roupas em tons de cinza a medida que se afunda no uso de entorpecentes até assumir um figurino completamente preto, o que inclui o cabelo (sem as mechas claras do começo) e o batom escuro que usará em um momento crucial do seu arco dramático.

Falando das cores, a laranja (também como fruta, não só pigmento) é normalmente vinculada a momentos trágicos dos personagens em todos os momentos que aparece, como vemos a seguir:

A primeira pílula dos jovens oferecida por Marion:

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O cabelo tingido de Sara:

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A laranja em sua dieta:

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A laranja na mão da mãe no passado negado de Ty:

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A laranja descascada pelo traficante na última tentativa de Harry e Ty de se tornarem distribuidores:

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E por fim no caminhão que definirá o destino dos dois jovens no terceiro ato:

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Não por acaso, a presença da cor laranja indica mudança nos rumos e nos hábitos de todos, sempre com consequências piores.

A fotografia do filme reforça a piora de comportamento e o diretor utiliza lentes angulares para mostrar esses momentos quando os personagens intensificam o uso das drogas, como nos planos abaixo.

Na festa com os três jovens:

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No consultório com Sara:

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O grande momento de Sara está em um discurso onde aponta suas razões para querer tanto caber em um vestido vermelho e estar na televisão. Neste momento importante da narrativa, Aronofsky utiliza um recurso nada comum para mergulhar o espectador na história. Enquanto mãe, já utilizando os remédios para emagrecer, e filho conversam sobre boas notícias, o eixo da câmera está assim:

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… e imediatamente após Sara voltar a falar com Seymour, o falecido marido, o diretor cruza o eixo de 180 graus com um travelling na expressão de Harry, e juntos com o personagem constatamos os tiques e o vício de Sara, em uma sequência extraordinária de Ellen Burstyn:

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Com isso, o diretor, ciente do efeito que causará no espectador ao quebrar o eixo de 180 graus, muda completamente o sentido da conversa dos dois que jamais se reencontrarão.

Jennifer Connelly também tem seu momento, mas é a montagem e a mise-en-scène que definem o peso dramático da sequência onde sua personagem se corrompe pela primeira vez ao transar por dinheiro. Primeiro, o quadro muito fechado mostra a violência sexual à qual foi submetida (e que é muito menor do que aquela à qual ela se submeterá ao final do terceiro ato):

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Há a preocupação do diretor em mostrar um quarto muito fechado, totalmente diferente dos ambientes onde Marion e Harry transaram em cenas anteriores, totalmente abertos e confortáveis, apesar da ausência de cores dos ambientes já decadentes. Ao sair do apartamento, Marion continua registrada com a câmera na mesma posição no plano sequência no corredor…

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… até que chega ao elevador, um ambiente de fato fechado, claustrofóbico, com dois homens, para aumentar ainda mais a tensão da garota:

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Até que ela tem seu primeiro crash:

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Todos os elementos citados acima se intensificam no terceiro ato, quando é Inverno e isso é uma óbvia metáfora para a fase mais fria da narrativa dos quatro.

O terceiro começa com Sara completamente louca andando pela cidade em busca de uma TV que nunca existiu…

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…e então conhecemos uma Marion já entregue à prostituição por drogas pesadas,

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… Ty preso após ter levado Harry ao hospital (em um interessante plano formando uma rima visual com o plano de Marion no elevador) …

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… e, finalmente, o protagonista sujeito a uma amputação após uma infecção no braço onde injetava seu vício.

Aronofsky chega ao extremo de todos os arcos dramáticos com uma montagem da sequência clímax do longa através cortes rápidos e outros planos fazendo uma perfeita junção das histórias começando com o questionário dos policiais (“Enxerga? Escuta? Pronto para o trabalho”) e raccords visuais nada agradáveis, como a posição dos condutores do eletrochoque em Sara com a posição de Marion e outra garota quando obrigadas a fazer o que é chamado de ass-to-ass durante uma orgia, assim como o movimento do trabalho forçado de Ty e a inserção de um brinquedo de borracha em Marion.

Encerrando a narrativa de forma belíssima, o diretor utiliza planos plongé para mostrar que todos terminam seus arcos na mesma posição fetal, já que todos intimamente encontraram seus desejos e ali devem ficar:

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… exceto Harry…

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… que termina sua narrativa com o mesmo abraço…

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… que dera em sua mãe na última despedida dos dois:

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Talvez não seja um filme tão cultuado quanto serão as obras seguintes do próprio Aronofsky (especialmente Cisne Negro), mas é, sem dúvida alguma, um filme excepcional, rico em de linguagem, com uma narrativa complexa e elementos audiovisuais aplicados tornar a narrativa uma experiência minuciosamente desagradável que o espectador deve assistir no detalhe para apreciar todo o cuidado do diretor.

Dates

Gostei bastante de DATES, série britânica criada e escrita por Bryan Elsley, de Skins, que mostra diversos primeiros encontros entre casais (e duas repetições, no season finale).

Gosto de como a produção lembra um pouco a excelente In Treatment, com capítulos inteiros concentrados em uma única sequência de diálogos e personagens diferentes a cada semana, mas que retornam à trama aqui e ali. Gosto de como a primeira temporada consegue fechar arcos dramáticos para todos os personagens, vistos uma vez ou duas. Gosto dos temas abordados. Gosto dos atores e de todos os personagens, com exceção de um (o babaca do segundo episódio).

Mas me incomoda como o roteiro faz com que todos os encontros, sem exceção, sejam marcados por algum tipo de hostilidade, inclusive os mais doces ou carismáticos. Esse olhar sobre as relações românticas e sexuais do século 21 é cético e cansado demais para ser visto como um padrão e eu, que tenho minha própria dose de dates semanais, simplesmente não posso concordar com ele.

Ou talvez apenas não quero.

The Americans | Orphan Black

Assisti os pilotos de THE AMERICANS e ORPHAN BLACK, que concorrem como Melhor Série no TCA Awards, e achei curioso como os dois programas são, de certa forma, o exato oposto um da outro.

A premissa The Americans é um twist em si, contando o cotidiano de um casal de espiões russos que vive sob disfarce como um típico casal classe média norte-americano em plena Guerra Fria. Infelizmente, a historinha cai num lugar comum muito muito chato desde os primeiros minutos. A direção do piloto é incapaz de decidir qual é o tom e o gênero da narrativa, ora empregando uma trilha sonora divertidinha em uma sequência de perseguição (que envolve uma tragédia), ora expondo o espectador a situações delicadas, como a gravação de áudio ouvida por um personagem. Já o roteiro, não é brilhante mas é eficiente, especialmente por não tentar minimizar os conflitos e compromissos dos personagens com seu trabalho, como a tal gravação (embora a direção, sim, tente minimizar as dores; vide o fato de a situação da gravação ter sido revelada… em uma gravação).

Já Orphan Black é uma surpresa e das melhores. Assisti sabendo de absolutamente nada – nem trailer – e uma das minhas primeiras reações foi um sorriso de deboche ao sacar qual seria o tema da série. Eu estava certo na adivinhação, e errado na expectativa. Em menos de 50 minutos, Orphan Black vai mergulhando o espectador em um universo gradualmente mais complexo e profundo, e ainda nos brinda com uma direção enérgica e atraente e personagens sensatos e irresponsáveis na medida certa da coerência.

Clichês bem lapidados ainda podem ser bem valiosos. Reviravoltas preguiçosas só valem até sair do papel.

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Antes da Meia-Noite (Richard Linklater)

O terceiro ato de Antes da Meia-Noite é uma das coisas mais cruéis que assisti desde Namorados Para Sempre e o final da terceira temporada de Louie. E assim como o filme e a série de TV, é uma carpintaria em forma de roteiro: a longa conversa de Jesse e Céline em um quarto de hotel é uma montanha-russa emocional dentro de um labirinto com paredes de intimidade e chão de mágoas enlameadas. Chegando a espelhar os condenados e condenáveis George e Martha de Quem Tem Medo de Virgínia Wolf?, o casal aprisiona o espectador em uma discussão tão intensa que cada grito, sarcasmo e acusação parece uma agressão física.

Contudo, por mais doloroso que seja testemunhar esse momento, nós o aceitamos. Ele é fundamental e compensador por nos explicar porque revisitamos o casal nesse momento específico de suas vidas (e não apenas porque se passaram os agora tradicionais “nove anos”.) Afinal, se os dois filmes anteriores mostravam episódios fatídicos na vida do casal, este deveria cumprir a mesma função e apresentar um acontecimento.

E a transição para esse desfecho, ou seja, os dois primeiros atos, é um viagem de delícias, a dinâmica entre os protagonistas e as suas discussões são o mesmo prazer de sempre. Mesmo quando são puramente funcionais, como a conversa sobre a proposta de emprego de Céline, ou simples, como a série de debates durante um almoço que chega a incluir personagens de diferentes gerações para agregar pontos de vista – sobre o amor e as diferenças entre homens e mulheres. Só isso.

Porém, por mais gratificantes e até inspiradores que sejam alguns diálogos, nenhum deles evoca a mesma emoção ou os questionamentos dos encontros anteriores, como a doçura da conversa “telefônica” em um restaurante em 1995 ou o desabafo em um táxi em 2004. A perda de vigor é evidente, mas a aceitamos. Na vida, também perdemos o vigor para o cotidiano.

E eu aceitaria qualquer decisão de Richard Linklater, Ethan Hawke e Julie Delpy se eles tivessem até o fim a mesma coragem que tiveram até muito perto dele. O terceiro ato de Antes da Meia-Noite é uma das coisas mais cruéis que já testemunhei, mas uma vez iniciada a violência contra o espectador, eu a aceitei. Apenas para ser enganado por um momento final desnecessário e muito, muito desonesto. E isto eu não posso aceitar.

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Game of Thrones S03E10 | Por José Rodrigo Baldin

“Spoiler! Spoiler! Spoiler!” (Povo de Yunkai)

MHYSA

Em clima de dia seguinte, como não poderia deixar de ser depois do Casamento Vermelho, chegamos ao final da terceira temporada de Game of Thrones como começou: na correria. Mas antes de receber algumas doses de chá de camomila (ou qualquer outra erva de Pycelle…), o espectador foi lançado imediatamente nos eventos após o assassinato de Robb e Cat, enquanto Bolton assistia ao genocídio dos nortenhos e onde o corpo do jovem lobo era exibido com a cabeça de Vento Cinzento no lugar da sua.

Apesar de mais violência explícita nos primeiros minutos, Nutter volta a direção para deixar o espectador aliviado, já que com tantas mortes e com tamanho impacto emocional, ao mostrar quase todas personagens escapando da morte ou conquistando um objetivo – ainda que sem encerrar o arco dramático da maioria. Como um grande teaser da quarta temporada, Gendry é salvo por Davos, que escapa de uma pena de morte. Jon é atingido por flechas (diria que atiradas para não matar) e chega em Castelo Negro, assim como Sam, que antes disso ajuda Bran a atravessar a Muralha e seguir seu destino. Arya, com a ajuda de Clegane, consegue uma vingança simbólica contra um soldado Frey, e mostra grande habilidade de ladra e uma frieza assassina. Jaime chega em Porto Real acompanhado de Brienne e Qyburn e reencontra Cersei. E ainda que Theon Greyjoy continue preso por Ramsay, a decisão de sua irmã de buscá-lo é outro alento.

São os diálogos, julgo, a maior força deste episódio, onde algumas revelações foram feitas e novas sementes plantadas. A revelação mais importante foi sem dúvida a identidade de Ramsay Snow, filho bastardo de Bolton que mantém Theon cativo (rebatizado de “Fedor”), o que mostra que há muito tempo Roose arquiteta sua ascensão e a queda de Robb. O mais intrigante foi o diálogo entre Tywin e Tyrion, que para este que escreve é mais um indício de que o anão é filho de Aerys, portando um bastardo Targaryen. Somada a outras citações (“Todo anão é um bastardo aos olhos do pai” e “Já que não posso provar que você não é meu filho”), no último episódio Tywin diz a Tyrion que “o criou como seu filho porque ele era um Lannister”. Joanna, sua mãe, que morreu como as mulheres de outras casas ao dar a luz a um Targaryen, era nascida Lannister, logo, ainda que Tyrion não fosse filho de Tywin, ele continuaria a ser um familiar e por isso o criou como filho – que pode dar ainda mais dimensões ao riquíssimo lorde construído por Charles Dance.

Além disso, o episódio usa com muito mais ênfase os laços de fraternidade para amenizar os impactos da violência. Como acabo de citar, Yara Greyjoy sai ao resgate de Theon pelo seu laço sanguíneo, Sam diz a Bran que são irmãos graças ao laço com Jon e ainda há uma rara sequencia entre Cersei e Tyrion, onde a rainha regente tem a possibilidade de confidenciar ao odiado irmão (será?) um pouco mais de suas fraquezas sentimentais. O que é muito interessante para a concepção das duas personagens.

Mais uma vez apostando em rimas visuais, Jon e Dany são carregados por outras pessoas, ele por estar ferido e ela por uma aclamação. Ele na neve da Muralha, ela na árida Yunkai. Gelo e Fogo cada vez mais acentuados na narrativa tanto nestas sequências quanto na decisão de Stannis de partir com seu Deus da Luz para conter os Outros.

A sequência final, título do episódio, foi a aclamação de Daenerys Targaryen como a mãe libertadora dos escravos, que agora tem um povo, exército e dragões, como visto em um belo plano plongé absoluto que além da função de mostrar tudo o que Dany conquistou até o momento, serviu para afastar e despedir o espectador da fantasia de GRRM e para fechar uma ótima temporada.

Que venham logo Oberyn Martell e as Serpentes, Mãos Frias, Lady Stoneheart e tantos outros que farão a quarta temporada tão memorável quanto a terceira.

 Clique aqui para usar a tag Game of Thrones e ler as críticas de José Rodrigo Baldin para todos os episódios dessa terceira temporada. 

David J. Peterson, criador do idioma valiriano para a série, divulgou o conteúdo da carta que Talisa disse escrever para a mãe. Era verdade sobre o destinatário e a carta não indica nenhuma atitude suspeita como levantamos na análise anterior. No entanto, não é suficiente para que abandonemos a teoria sobre Talisa espiã, pois há mais elementos a favor de uma traição do que contra. E também porque o mais legal de As Crônicas de Gelo e Fogo é teorizar conspirações. :P

A carta dizia em Valiriano:

Muñus jorrāeliarzus,

Olvie hen embraro tolmiot nykēlot avy ivestragon issa. Nykēlo syt ūndon daor luo valzȳro ñoghossi ōressiks. Dārys issa vestris, se prūmio ñuho konir drējior issa. Ȳghāpī īlōn rāelza, kesrio syt lanta iksan, rūso zȳhosy gōvilirose zijo syt pyghas lue prūmie. Vīlībāzma ajomemēbza, yn aderī, mōrī, aōt māzīli se hēnkirī īlvi biarvī manaerili.

… e em inglês:

Dearest mother,

So much news I have to give you from over the seas. I find myself held by the arms of a husband I never expected to have. They say he is a king and of my heart that is true. He holds us safe, for now I am two, with his child beneath the heart that beats for him. The war rages on, but soon, when it is all over, we shall come to you and celebrate together.

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Game of Thrones S03E09 e A Construção do Casamento Vermelho | Por José Rodrigo Baldin

“Take me for a SPOILER” (Catelyn Stark)

PARTE 1  – THE RAINS OF CASTAMERE

Seguindo com a tradição de deixar para o penúltimo episódio o clímax da temporada, Game of Thrones colheu muitas coisas que semeou ao longo da série desde a morte de Eddard Stark, quando fora declarada a chamada Guerra dos Cinco Reis. Mais uma vez, Weiss e Benioff deixaram um roteiro lapidado para o experiente David Nutter conduzir o espectador no mais violento episódio já feito para Game of Thrones. E não é uma tarefa fácil, uma vez que até bebês foram mortos em Porto Real para evitar qualquer ameaça a Joffrey na segunda temporada.

E foi um tiro certeiro. A essa altura da fama e da expectativa que a série já conquistou, mesmo os espectadores Imaculados (aqueles que não conhecem as artimanhas de GRRM) sabiam que algo muito forte aconteceria neste nono capítulo e por isso roteiro coloca muitas personagens importantes (e queridos) em situações reais de morte, o que ajuda muito na construção da tensão das cenas finais. Isso não é tudo. O que dizer das duas sequências onde Bran e Arya chegaram muito perto de reencontrar os parentes que tanto precisam? O roteiro ainda aborda cuidadosamente o tema de traição nos núcleos de Dany e Jon para dar mais contraste ao casamento de Edmure e Roslin.

Antes de falar deste evento que ficará conhecido daqui em diante como Casamento Vermelho, vejamos rapidamente outros núcleos. Bran percebeu, sob pressão, que seus poderes lhe garantem mais possibilidades, seja entrando na mente de Summer quando quiser, seja controlando o corpo de Hodor. Um garoto que não pode andar passa a ter enormes possibilidades na narrativa e por essa razão decide seguir em busca do Corvo de Três Olhos. É como se tudo beirasse muito perto de um final feliz para alguns Starks, mas por causa dessa decisão de Bran, Rickon é que deve se separar do grupo, causando ainda mais dor aos herdeiros de Ned. Outra separação muito dramática é a de Jon e Ygritte. O bastardo de Ned chegou no limite (e nós espectadores também) de ser testado e acusado de ainda ser um corvo da patrulha, revelando ser o que Orell sempre suspeitara. Se os jovens garotos fizeram (muito bem) o que puderam para dar peso à sequência da separação, Rose Leslie sobrou em cena derramando seus sinceros sentimentos por Jon Snow. No núcleo de Arya, que na temporada anterior ameaçou Tywin olhando nos olhos, dessa vez e da mesma forma estabeleceu outro equilíbrio na relação com Clegane, o que não deixa de ser interessante que ele resolva seus problemas com a força física sem nunca deixar de respeitar a origem da menina. Dany… bom a Dany conquistou mais uma cidade e vamos ao que interessa.

Daqui em diante, spoilers pesados para quem não viu o episódio. Ainda que conheça os livros, não leia o restante. Assista ao episódio primeiro, pois há novidades.

O clímax tão esperado por todos foi traição de Roose Bolton e Walder Frey que, aliados a Tywin Lannister, usaram o casamento de Edmure Tully e Roslin Frey como uma armadilha para aniquilar todas as forças de Robb Stark de uma só vez. Entre os muitos detalhes da cena, podemos destacar a expressão corporal de Bolton e Talisa o tempo todo, como se estivessem incomodados com os eventos que se seguiriam a partir do momento em que estivessem dentro das Gêmeas. No primeiro encontro de Walder e Robb, sal e pão foi servido para garantir o direito de hóspede, ou seja, uma tradição que garantiria a segurança de um visitante uma vez que ele tivesse comido debaixo do teto do anfitrião, o que obviamente serviu para dar falsas garantias, assim como o pergaminho de Ned na primeira temporada. Já durante o casamento Blackfish sai antes do início de As Chuvas de Castamere e não é visto mais durante a festa. A música que deu o título ao episódio foi tocada como sinal para que o massacre começasse e a crescente preocupação de Cat, que rapidamente percebeu a traição, tomou conta do episódio em um show de interpretação de Michelle Fairley. A grande surpresa na adaptação foi a morte de Talisa que, como veremos adiante, tinha tudo pra ser a espiã de Tywin – e que ainda era na opinião de quem escreve.

PARTE 2 – CONSTRUINDO O CASAMENTO VERMELHO

Entre as vitórias de Robb como Rei do Norte e os tropeços de Catelyn com o cego desejo de resgatar suas filhas em Porto Real, Tywin Lannister foi o grande estrategista e o principal responsável pela vitória de sua casa na Guerra dos Cinco Reis. E sim, apesar de Stannis ainda estar vivo, toda a trama de Tywin que envolve um verdadeiro massacre de todas as forças do norte, Theon Greyjoy prisioneiro do filho de Bolton, alianças matrimoniais com Jardins de Cima e Dorne (lembre-se que Tyrion enviou Myrcella para o Sul), não há como negar que ESSA guerra foi vencida por ele. Obviamente teremos mais temporadas adiante, mas de fato o arco iniciado a partir da morte de Ned Stark se encerra aqui.

Antes de abordarmos o plano de Tywin, observemos Catelyn. Em outros textos já manifestei minha admiração por esta personagem que sim é responsável direta pela maior parte de problemas dos Stark. Entretanto, Cat é uma mãe que foi obrigada a deixar dois filhos pequenos para trás e então acompanhar o primogênito em uma guerra para vingar a morte de seu marido e resgatar as duas filhas em Porto Real. Tudo o que ela fez foi acreditando que as duas filhas ainda estivessem lá, mas desde sempre sabíamos que já não estava – e por isso pensamos na tolice de suas ações. Depois agiu como se seus dois filhos menores já estivessem mortos, mais uma vez nós sabíamos que estavam vivos. Essa condução da narrativa de forma irrestrita (nós sabemos mais que a personagem) naturalmente nos faz acreditar que suas decisões são estúpidas, mas na verdade são apenas erros de uma mãe completamente desesperada. Veja que personagem maravilhosa: Catelyn Stark nunca mais viu os quatro filhos mais jovens desde que partiu pra guerra e viu seu primogênito ser morto no casamento do seu irmão, sob a proteção do Direito de Hóspede e com uma traição arquitetada com seu maior inimigo e seu principal comandante, Roose Bolton. Antes disso tudo ainda foi prisioneira do seu filho, odiada pela maioria dos nortenhos e com a culpa de ter liberado Jaime Lannister. Não é pouco.

A frieza de Tywin garantiu sua vitória. Ainda em Harrenhal, ele diz a seu Conselho que enquanto Robb continuar a vencer suas batalhas, ele continuará acreditando ser o Rei do Norte. Neste ponto, Tywin percebe que não tem condições de vencer o norte motivado pela perda de Ned e começa planejar sua virada. Há um destaque nos elementos da cena bem a sua frente: uma pena que utilizará a partir daí para escrever inúmeras cartas e a expressão corporal de Reginald quando Tywin cita um espião entre os homens de Robb.

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E Tywin planta “Talisa” no meio de um campo de batalha com inúmeros homens dos Lannister mortos.

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Na sequência desses acontecimentos, Arya, então criada de Tywin, descobre uma carta sobre a mesa que indica a existência de um espião entre os homens de Robb.

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Em momentos diferentes, vemos Talisa disfarçar que escrevia algo enquanto Robb se aproxima e ainda esconder uma carta, com a aproximação de Catelyn, logo depois de ter uma conversa sobre espiões com o Robb.

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E quem esteve atento, a câmera nos mostrou o teor da carta com detalhes da movimentação do exército do jovem lobo para que tivéssemos a certeza de que ali havia um espião e a mise-en-scène nos indicava a todo momento que seria Talisa.

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Nos diálogos entre os futuros noivos, Talisa nunca escondeu que os Lannisters não eram seus inimigos, o que nunca foi motivo para que Robb desconfiasse de suas intenções. Nem era necessário mentir, afinal Robb já havia decidido por fim à promessa de ser casar com uma Frey, o que seria a abertura para Tywin negociar com o velho Walder o extermínio dos nortenhos. Esse foi o maior erro de Robb, sem dúvida, mas não podemos ignorar sua arrogância (vencia todas as batalhas) e sua ingenuidade ao deixar passar o fato de que Talisa, de Volantis, não tinha nenhum sotaque como todos os outros de Essos, como Syrio, Jaqen, Shae e outros. Além disso, há duas cenas que indicam o alto nascimento de Talisa simplesmente pelo uso da expressão “My Lady” quando se refere a Catelyn. Antes, vemos Arya dizer “My Lord” a Tywin, que levanta essa questão do nascimento devido a pronúncia correta. E o que dizer sobre uma garota que conhecia todas as falas do matrimônio de uma religião que não era a dela? Lembra-se da expressão corporal de Reginald que citei acima? Conclua.

As cartas de Tywin tinham de fato vários destinos. Suponho que Bolton já havia recebido alguma proposta por Harrenhal antes mesmo de Talisa e Robb se casarem. Vemos isso na movimentação dos atores quando Bolton sempre deixava os dois sozinhos,

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… incluindo a cena onde Talisa vestia quase nada…

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Estava tudo na tela. Desde a segunda temporada.

A morte de Talisa de certa forma destruiria toda a teoria acima, salvo pelo fato de ter escondido a gravidez de Walder Frey. Se ela realmente fosse a espiã, obviamente não estaria nos planos de Tywin um herdeiro de Robb e como Walder Frey questionou as roupas vestidas por ela logo na primeira cena dos dois juntos, tudo leva a crer que ali havia mentiras dentro de mentiras e isso foi um ato de traição de Talisa, que talvez não esperasse um massacre no casamento, mas que acabou vítima da mesma tragédia.

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Matrix ReCAPTCHA

Alfred Nobel criou a dinamite, aquele artefato de areia e nitroglicerina usado para achar diamantes e matar pessoas, e se arrependeu profundamente. Como você deve saber, ele tentou se redimir ao deixar como herança um prêmio que recompensasse pessoas responsáveis por coisas boas significativas – como evoluções médicas e científicas, obras literárias transformadoras e belos atos humanitários – e as estimulasse a continuar contribuindo para o avanço da sociedade. 

Luis von Ahn criou o insuportável CAPTCHA, aquela ferramenta virtual de acesso usada para separar humanos e robôs e estressar os primeiros, e mais tarde se sentiu impacientemente culpado. Como você deve saber, entender e digitar os caracteres desenhados num CAPTCHA obviamente leva alguns segundos (mais ou menos alguns milhares de dias por dia, se somarmos os segundos dos 200 milhões de usuários diários). E é aqui que entra a reviravolta que torna Luis von Ahn muito mais relevante do que Alfred Nobel. Ele não criou um Prêmio Ahn para pessoas que inventassem modos de economizar tempo. Ele decidiu dar um reboot e reinventar a própria criação – e nasceu o ReCAPTCHA, uma ferramenta que, talvez você não saiba, é uma das grandes e mais transformadoras invenções pró-Internet pós-moderna.

Assista ao TED do inventor aqui e leia uma incrível matéria da Superinteressante aqui.

Resumindo? Luis von Ahn criou uma singularidade retrocolaborativa de conhecimento: uma ferramenta que permite pessoas de todo o planeta acessarem sites e estudos do mundo todo e, ao mesmo tempo, o tempo todo, alimentarem massivos bancos de dados que servirão para digitalizar livros e traduzir artigos que, por sua vez, serão fontes de acesso e estudo para outras milhares de pessoas.

Surpreendente? Megalomaníaco? Perigoso? Fascinante? Futuro? Tudo.

Especial Game of Thrones – Resumo da Terceira Temporada

Esta semana não tivemos episódio inédito de Game of Thrones. O penúltimo do ano vai ao ar no próximo domingo e, mantendo a tradição pela terceira vez seguida, o episódio será o clímax da temporada. Mas para manter o ritmo e o clima de tensão e intriga crescente desse terceiro ano, preparamos um post especial com um resumo da temporada até aqui – e uma pequena antecipação do que esperar do finale.

Leia a seguir alguns trechos importantes selecionados das críticas de José Rodrigo Baldin, e confira também a  versão original dos diálogos especiais que abriram cada texto.

3.01 | VALAR DOHAERIS (“You want to be a hero” – Mance Ryder para Jon Snow)

Ainda em Porto Real, Tyrion surge pela primeira vez em um reflexo, o que me pareceu uma bonita metáfora para o que é a capital depois da Batalha da Água Negra. Os reflexos de sua atuação como Mão do Rei estão agora por toda parte, desde destroços de navios pela baia até a presença dos Tyrells – lembremos, antes apoiadores da causa de Renly Baratheon. Mas é na conversa com o pai que reside o grande peso sobre os ombros do anão. Responsabilizado pela morte da mãe no seu nascimento e ridicularizado por seu aspecto físico, Tyrion se lança em um diálogo praticamente suicida contra Tywin e, como esperava, sai derrotado, mas com uma visão muito mais clara da sua posição no reino. Clique aqui para ler a crítica completa.

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Tyrion é humilhado pelo pai ao reivindicar a herança da família.

3.02 | DARK WINGS, DARK WORDS

O elemento mais importante da narrativa adotada para essa temporada é a ironia dramática. Em contraste com as temporadas anteriores, onde todos os arcos dramáticos tinham um tom de conspiração girando em torno de Ned Stark, na terceira temporada já sabemos que Sansa não é a tola que passeia pelos limites de sua prisão psicológica, que Jon foi enviado ao Norte por Mormont, que Margaery é hábil com as palavras para encantar o rei etc.. Em outras palavras, Game of Thrones faz o espectador ter o controle da história adotando uma narrativa irrestrita na maioria dos núcleos, ao contrário da narrativa absolutamente restrita da primeira temporada, quando sabíamos tanto quanto Ned Stark. A maioria dos núcleos estavam ligados a ele e dele dependíamos para compreender tudo o que ali se passava. Com a morte de Ned, a impressão foi que tudo estava perdido. Clique aqui para ler a crítica completa.

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Catelyn lamenta a perda de seus quatro filhos mais jovens.

3.03 | WALK OF PUNISHMENT (“There’s a beast in every men” – Sor Jorah Mormont para Daenerys Targaryen)

Assim como as torturas de Theon, Jaime sofre uma mutilação. Os dois casos estão ligados a homens de Bolton, o que é uma decisão muito inteligente e interessante dos roteiristas para construir de forma crescente a violência da guerra. E não é gratuita. Tanto as torturas de Theon quando a mão direita decepada de Jaime são elementos importantes para a construção de novas personagens. Theon torturado e Jaime sem a mão da espada passam a ter rumos completamente diferentes na história, já que deixam de ser tudo o que foram até agora. E a julgar pela ação de Jaime quando salvou Brienne de um estupro apenas com palavras (coisa que esperaríamos de Tyrion), destaco a tridimensionalidade com a qual o cavaleiro passa a ser retratado depois de um ano como prisioneiro. Clique aqui para ler a crítica completa.

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O mercenário Vargo Hoat decepa a mão direita de Jaime.

3.04 | AND NOW HIS WATCH IS ENDED (“Dracarys!” – Daenerys Targaryen comandando seu dragão)

O tema central deste quarto episódio, sem dúvidas, é a ideia de liberdade. Assim como Jaime, os núcleos Arya, Bran, Dany, Theon e Cersei também abordam o tema sob óticas diferentes. Seja através do posicionamento da câmera, seja através de diálogos ou mesmo através de ações, a liberdade é questionada e mesmo limitada por prisões impostas pela posição social de um ou outro personagem. Note como a câmera do diretor Alex Graves captura Joffrey atrás das grades dentro do Septo de Baelor, enquanto ele é aprisionado pelos planos dos Tyrells. Em outro momento, galhos em um sonho verde de Bran formam outra grade separando o menino do espectador. Veja como Theon é novamente encarcerado na sala onde fora submetido a torturas em um jogo cruel de um ainda enigmático personagem nortenho. Veja como a Cão é condenado a colocar a prova sua inocência em um julgamento por combate, pelo qual pode conquistar sua liberdade. E Sansa? “Livre” em Porto Real com dois guardas ao lado até mesmo quando se retira para rezar. Clique aqui para ler a crítica completa.

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Rei Joffrey aprisionado na sedução de Margaery Tyrell.

3.05 | KISSED BY FIRE (“That’s cruel even for you” – Tyrion para Cersei Lannister)

E mesmo com muita história desenrolada neste quinto episódio, quem se destaca (e com muito tempo em tela) é o dinamarquês Nikolaj Coster-Waldau que sedimenta de uma vez por todas a tridimensionalidade de Jaime em um (quase) monólogo melancólico e cheio de dor, como se todo aquele personagem-dentro-do-personagem fosse colocado pra fora justificando com muita propriedade o assassinato de Aerys. A cena é tão eficiente que estabelece uma rima visual com o banho de Jon e Ygritte, posiciona o espectador com uma ótica completamente diferente na Guerra do Usurpador, coloca a dura personagem Brienne em uma posição de fragilidade sem sua armadura e ainda assim com uma humanidade tocante percebe que depois de tudo aquilo, ainda cometeu o ato falho de chamá-lo de regicida. Cena épica. Perceba como é maravilhoso que quando Brienne o toma nos braços para ajudá-lo, ela grita “Regicida!” e ele apenas diz que tem um nome. “Jaime” – este que somente Cersei conheceu. Clique aqui para ler a crítica completa.

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Brienne de Tarth acode o Regicida.

3.06 | THE CLIMB (Don’t ever beatray me, Jon Snow” – Ygritte para o namorado Patrulheiro da Noite)

Com a mesma competência do quinto episódio, o roteiro é bastante coerente, apostando em longos diálogos expositivos e pouca ação. A meu ver, o momento mais entediante foi exatamente a cena título (The Climb), quando Jon, Ygritte, Orell e o interessante Tormund escalam a muralha. Apesar de servir como uma rima visual para uma narração em off de Petyr Baelish – onde ele destaca sua ascensão política em Westeros –, a cena da escalada reforça a relação de Jon e sua namorada selvagem, o que poderia ser descartada sem afetar em nada a narrativa. Ainda sim, o plano no final do episódio é eficaz ao afastar a câmera do casal no topo da muralha que separa os mundos dos dois jovens, agora unidos por um beijo (note que antes disso os dois olham para os dois lados da muralha). Duas interpretações para essa movimentação de câmera ao final do episódio: ou nos afastamos a partir de agora de qualquer manifestação de afeto ou, o que gosto muito mais, era a visão que Jojen teve no começo do episódio, pois ele poderia estar “montado” na águia de Orell – que não estava utilizando seus poderes naquele momento. Faz sentido, pois ainda que cronologicamente a cena final se passou dias depois da visão do garoto Reed, ele já afirmara em episódios anteriores que suas visões poderiam ser do passado, do presente ou do futuro. Clique aqui para ler a crítica completa.

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Jon e Ygritte, patrulheiro da noite e selvagem, chegam ao topo da Muralha que separa seus mundos.

3.07 | THE BEAR AND THE MAIDEN FAIR (“The Lannister send their regards” – Jaime Lannister para Roose Bolton)

Há outros momentos ótimos graças a atuações de Charles Dance, que através da movimentação em cena passa a se posicionar em um nível acima de Joffrey, o que foi suficiente para mudar o rumo da conversa e transformar o rei em neto; e Natalia Tena que também ganha mais espaço para desenvolver Osha. Como sua cena veio depois de um diálogo entre Jon e Ygritte (e Ygritte e Orell) pudemos dar mais importância à relação com seu parceiro transformado em Outro, assim entendemos seu repúdio de seguir além da muralha. Clique aqui para ler a crítica completa.

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Tywin Lannister responde pacientemente as curiosidades de seu real neto.

3.08 | SECOND SONS (“And so my watch begins” – Tyrion Lannister para Sansa Lannister)

E como afirmei ser o episódio com mais ênfase ao Gelo e Fogo, a caminho da Muralha, Sam e Goiva reencontram um Caminhante Branco e duas coisas ficam claras: espadas normais não causam nenhum efeito sobre essas misteriosas entidades que devem ser mortas com a obsidiana (ou vidro de dragão) encontrada por Sam no Punho dos Primeiros Homens. Como dragões estão relacionados ao fogo e a criatura claramente ficou com aspecto de gelo ao se partir, este episódio deu um outro prisma para os conflitos entre os homens e a magia desta fantasia. Outro detalhe que não pode ficar pra trás é a nuvem de corvos que se acumulou na Árvore Coração para avisar Sam da aproximação do Caminhante Branco. Clique aqui para ler a crítica completa.

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Sam mata um Caminhante Branco com um punhal de obsidiana.

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Para encerrar, breves comentários sobre os dois últimos episódios da temporada.

THE RAINS OF CASTAMERE é o nome de uma canção da Casa Lannister e a música foi tocada em poucos momentos na série até hoje: o último foi muito discreto e pontuou o encerramento do episódio 3.07, quando Jaime Lannister salvou a vida de Brienne de Tarth, e o anterior foi nos créditos finais do episódio 2.09, que narrou a vitória dos Lannister contra Stannis Baratheon na Batalha da Água Negra. Isso mostra que a série usa a canção de forma muito simbólica para marcar as conquistas dos Leões. Mas ela também pode representar uma inversão traiçoeira dos produtores (assim como George R. R. Martin adora chocar os leitores), afinal, o próximo episódio mostrará o casamento da Casa Tully com a Casa Frey, uma aliança fundamental para o plano de Robb Stark de tomar Rochedo Casterly, o lar dos Lannister.

O Rei do Norte executa uma estratégia para virar o jogo na guerra.

O Rei do Norte executa uma estratégia para virar o jogo na guerra.

Já o episódio final se chama MHYSA e não há muito o que deduzir a respeito dele. O nome significa “mãe” em ghiscari, a língua materna dos escravos de Yunkai, a cidade que Daenerys Targaryen planejar conquistar. Com isso, só o que podemos antecipar é uma grande e empolgante sequência de batalha incendiária que fará a libertação dos Imaculados parecer um piquenique. E considerando que a temporada vem se esforçando bastante para constantemente apresentar situações paralelas, como Baldin pontuou diversas vezes em seus textos, e que o tema da série  – Gelo e Fogo – ganhou bastante importância esse ano, pode ser recompensador esperar por uma segunda sequência de batalha no episódio: além de Dany no deserto escaldante, talvez tenhamos Jon lutando na Muralha congelada.

A Mãe de Dragões joga o jogo dos grandes conquistadores.

A Mãe de Dragões joga o jogo dos grandes conquistadores.

Aqueles que viverão para sempre.

Liberdade

Eu tenho um amigo que se prepara para viver para sempre. Outro, planeja ser um dos primeiros colonizadores de Marte. E tem esse rapaz, que olhava mais longe do que qualquer outro e para quem a Existência estava além da vida biológica e da memória histórica. Para ele, a Existência era justamente incondicional à biologia e à memória.

Igualdade

Algumas pessoas acreditam que quando morremos despertamos como parte do Universo, nos combinando especialmente às pessoas que nos foram importantes. Eu acredito em parte disso. Ele acreditava completamente.

 Humanidade

“Nós somos, essencialmente, conscientes” é a sentença que abre um de seus últimos artigos. Sentença não apenas no sentido gramatical, mas também fatal. Para algumas pessoas, o corpo é um escafandro apertado demais para o espírito, que acredito ser a combinação de nossa consciência e a identidade.

(Os subtítulos desse post montam o lema do brasão do Rio Grande do Sul.)

O Bóson de Fringe.

O tema de Fringe, criado por compositor Michael Giacchino e pelo próprio J.J. Abrams, autor da série, em 2008:

O tema do Bóson de Higgs, teoria confirmada em 2012 pelo CERN e transformada em música, através da tradução de sua fórmula matemática para notas musicais, pelo pesquisador e compositor inglês Domenico Vicinanza

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