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Não é o começo de tudo.

5 05UTC Novembro 05UTC 2009

INTRODUÇÃO

Existe uma história que sempre me fascina quando me lembro, mas ao mesmo tempo me entristece porque o final não é dos mais felizes. E como poderia ser?  Desde o início, esta parece ser a intenção da história: magoar, ferir. História, afinal, que é sobre um rapaz numa cidade estranha: ele se chama Lucas e tem uns dezesseis ou dezessete anos; ou talvez um pouco mais, é difícil dizer já que ele parece tão jovem e ao mesmo tempo carrega traços inequívocos de alguém com vinte e poucos e pesados anos. A história de Lucas pode parecer simples e clichê se considerarmos apenas a parte do “garoto novo na cidade que não conhece nada nem ninguém e acaba se apaixonando pela última pessoa de quem devia se aproximar”. Sim, ele vive uma história de amor. Mas há duas coisas que fazem da história de Lucas uma história surpreendente e inesquecível: primeiro, ele simplesmente acordou numa cidade da qual nunca ouviu falar (o que talvez não signifique muito já que ele viveu toda sua vida numa cidadezinha minúscula que outras pessoas também jamais ouviram falar); segundo, ele se apaixonou por ele mesmo, sem saber quem era – nenhum dos “dois”.

HISTÓRIA EXTRAORDINÁRIA

Lucas foi dormir ao anoitecer do dia trinta de novembro de mil novecentos e noventa e seis. Tinha que acordar muito cedo no dia seguinte já que ia viajar com a irmã e o ônibus sairia às cinco e dez da madrugada. Mas quando ele acordou e percebeu a forte claridade solar, denunciando cerca de oito ou nove horas da manhã, deu um pulo da cama achando que a irmã não o acordara porque tinha passado mal – ele nem se preocupou por ter perdido o ônibus, seu medo era a causa do atraso, que poderia ser mais uma das dolorosas crises de Camila.

Contudo, o pensamento de preocupação de Lucas foi um simples reflexo resultado do susto de sentir o sol alto; dois ou três segundos pós acordar, Lucas estava em pé e estático e pasmo: ele nunca vira o quarto onde estava agora, e certamente não era marulho o som que vinha de trás das paredes, tão pouco o Atlântico aquela cordilheira cinza e branco-sujo que ele encarava na direção em que deveria estar vendo o horizonte. E então os joelhos de Lucas o levaram subitamente para mais perto do chão, fazendo-o trocar a estabilidade por uma espécie de tremedeira e a pasmaria por um pavor calculado.

Mas esses sentimentos desapareceriam por alguns momentos nos próximos quinze minutos, pois ele seria tomado por uma mistura incompreensível de anestesia e adrenalina.

Quando o carro em que se encontrava quinze minutos depois parou atrás de um semáforo indicando vermelho, Lucas tentou compreender os últimos acontecimentos. Mas se a presença de nada menos do que três estranhos completos em um quarto de hotel de luxo em uma cidade europeia era inexplicável e um deles se comportar como se fosse um velho amigo e se apresentar como Olivier era inesperado, perturbador foi ficar no meio de uma troca de tiros aterradora enquanto era levado hotel afora pelo tal Olivier até um carro estacionado do outro lado da rua.

No semáforo, então, Lucas perguntou o que estava acontecendo. Olivier respondeu que é ele quem devia responder essa pergunta. E pergunta quem eram aquelas pessoas no quarto dele. Parte do acordo era os dois se encontrarem sozinhos. Lucas responde que nunca tinha visto aqueles homens antes, e diz que também não conhecia a ele, Olivier. Olivier diz que eles dois com certeza não se conhecem, pois apenas conversaram por e-mail. Lucas responde que não acessa o e-mail que ganhou no cursinho de informática há mais de seis meses. Olivier faz um gesto com o lábio, parecendo que não entendeu a piada. Mas Lucas diz que não é piada, que está falando sério. Que ele não faz idéia do que está acontecendo. Que foi dormir ontem como foi dormir anteontem e em todas as outras noites de sua vida e que hoje acordou num quarto de hotel com um monte de homem armado falando francês e atirando um no outro. Olivier olha fixamente para Lucas e Lucas olha para ele de volta e pergunta se por acaso ele, Lucas, sofreu um acidente e perdeu a memória.

Olivier então responde que já perdeu a memória uma vez. E que não sabe quem era antes dos vinte e dois anos. Lucas pergunta quantos anos ele tem agora. Trinta e três, de acordo com sua nova identidade.  Lucas, impressionado, pergunta se é possível que ele tenha perdido a memória também. Olivier diz que não é impossível. Lucas pergunta em que data eles estão. Olivier responde quatorze de dezembro e Lucas treme involuntariamente.

Lucas diz que ontem, quando foi dormir, era trinta de novembro. Olivier o olha preocupado e comenta o que os dois já sabia: ele tinha dormido duas semanas. Lucas olha para a rua, inconformado com a nova descoberta, e vê um painel eletrônico na rua informar a data: 14 de dezembro, segunda-feira. Lucas pergunta se hoje não é sábado. Olivier diz que não. Lucas diz que foi dormir na noite de sábado para domingo. Olivier responde que então não foi no dia trinta, pois o último dia trinta foi numa segunda-feira também.

Então sem saída e sem qualquer outra razão a não ser o desencontro de informações, Lucas pergunta em que ano eles estão. Olivier responde com um riso que é dois mil e nove. Mas imediatamente pára de ver graça na pergunta e na resposta quando vê a expressão aterrorizada no rosto do jovem e desconhecido Lucas.

Em pedaços – O Conto

7 07UTC Junho 07UTC 2009

(O conto abaixo ainda está em sua primeira versão e, por isso, pode apresentar erros)

Lucas nasceu em 22 de junho de 1992, o dia mais frio do ano, a noite mais escura do ano. Sua mãe, Clarice, lhe deu à luz em baixo de uma ponte, sozinha, e amou seu filho imensamente, enquanto viveu. A mãe de Lucas foi encontrada morta ao amanhecer. Seu filho, ele não estava mais ali.

Clarice jamais foi identificada. Ninguém nunca soube que aquela mulher morta viera do interior do Rio Grande do Sul à procura do homem que a engravidara. No pôr-do-sol que precedeu aquela fria noite de junho, Clarice o encontrou. Ele, noivo e com a futura esposa grávida de dois meses, sentiu uma grande dor em sua alma ao pedir que Clarice mantivesse segredo sobre o bebê, garantindo que ele lhe pagaria uma gorda pensão… Inconformada com a frieza que enxergava no homem por quem se apaixonara, embora não soubesse o quanto ele se entristecia consigo mesmo, Clarice declarou entre lágrimas que iria embora e que ele nunca mais ouviria falar nela. E ele nunca mais ouviu.

Clarice caminhava sozinha e solitária pelas ruas da cidade, ela passava por uma alameda embaixo de uma ponte quando um homem a assaltou. Com o susto, ela entrou em trabalho de parto. O assaltante, desesperado com a conseqüência de seu desespero, pensou em ajuda-la, mas optou por fugir com sua bolsa e lamentar até o fim por sua covardia, um fim que chegaria exatos dezesseis anos depois, com uma redenção.

Mas ainda naquela noite fria de junho, uma certa senhora, de idade avançada e muito doente, tivera uma crise de dores e fizera sua neta sair no meio da noite para comprar-lhe remédios, mesmo que precisasse acordar o farmacêutico. A menina também se chamava Clarice.

No meio do caminho, ao atravessar uma ponte, Clarice ouviu um choro de criança e, ansiosa, acabou encontrando a fraca mulher com seu pequenino filho sujo, ensangüentado e gelado nos braços. Uma poça de sangue, muito maior do que o derramamento comum a um parto, marcava um circulo grande em volta dos dois. A mãe morreu com um sorriso assim que viu o sorriso piedoso da estranha que se agachava a sua frente, mas não antes de sussurrar um nome de menino. E, de seus braços já frouxos, o bebê foi recolhido.

Clarice voltou para casa imediatamente, mostrando a criança para a avó, que ficou tão perturbada e tão irritada, que acabou desmaiando, fazendo a neta pensar que havia morrido por causa do coração fraco. Assustada, Clarice correu porta afora com o bebê Lucas nos braços. Ela correu e correu, sentindo o frio penetrar seu corpo e uma tristeza dolorida invadir seu coração, pois ela amava sua avó. Por alguma razão sombria, porém, Clarice sabia que amava aquele bebê em seus braços e, por esta razão, a decisão que tomou a seguir foi a mais difícil que, embora ela não soubesse, ela jamais tomaria em toda a sua longa e melancólica vida.

Clarice abandonou Lucas. Ela o deixou nos braços de um médico que ela viu sair de seu carro, pronto para iniciar mais um plantão no hospital do bairro, e saiu correndo, antes que o homem pudesse chamar alguém que fosse atrás dela. A única coisa que Clarice disse naquele brevíssimo encontro, olhando nos olhos surpresos do médico, foi: “Lucas”. E então voltou para a casa, onde encontrou a avó gemendo no chão. Clarice cuidou dela, pedindo a Deus que aquele médico cuidasse bem de Lucas, assim como ela cuidaria daquela velha, uma senhora ranzinza e sofrida que apenas no leito de morte confessaria o quanto amava a neta e o quanto era agradecida por toda a sua dedicação.

No estacionamento do hospital, o homem demorou alguns instantes para perceber que aquela mulher não o conhecia e que “Lucas” se referia à criança, e não a ele. Pois o nome do médico também era Lucas.

Lucas correu para dentro do hospital, carregando o fraco e gelado garotinho, incapaz até mesmo de chorar, e, aos gritos, foi solicitando um ou outro serviço dos outros médicos, enfermeiros e assistentes de plantão. Poucos minutos depois, o bebê Lucas estava dentro de uma incubadora, recebendo luz, calor e leite. O médico Lucas, cardiologista, era um homem frio e solitário e, para a surpresa de todos, foi diariamente à maternidade para ver o garotinho. Mas ao final de duas semanas, quando este já estava fora de perigo e sendo encaminhado para assistência social, o médico se despediu dele com um leve carinho na testa e saiu de férias. Todos acreditaram que homem fosse se sensibilizar e pedir a adoção do garoto, mas o médico jamais voltou a procurar pela criança, limitando-se a um casual pedido de informação ao retornar das férias.

A esta altura, o pequeno Lucas já estava na maternidade da Casa de Santa Clara, uma instituição social comandada pela médica e Madre Superiora Anne, uma religiosa inglesa formada em medicina pediatra. Madre Dra. Anne era uma mulher dócil, bondosa e cheia de sabedoria, e cuidou pessoalmente do pequeno Lucas, assim como cuidara de seu pequeno e doente irmão caçula, de mesmo nome santo, que morrera ainda na inocência da infância há tantas décadas. Lucas cresceu forte e saudável, vendo na Madre Dra. Anne a imagem de mãe que ele não compreendia, apenas sentia, e ambos foram tão próximos quanto suas posições permitiam que fossem, até que a senhora, médica e mãe de Lucas, quebrou uma promessa e não foi ao seu quarto certa noite contar uma história. Lucas tinha três anos quando, sem se lembrar de como era perder uma mãe, chorou esta dor pela primeira vez.

A Casa de Santa Clara mudou após a morte de sua líder, mas não para pior. O cargo da Direção foi assumido por outra médica, Dra. Clara, assim como a santa. Uma mulher muito boa e inteligente, mas, diferentemente da santa, e de Anne, era atéia. Ela, porém, não recriminava as crenças religiosas das crianças, incentivando pequenos rituais que envolviam, por exemplo, Papai Noel e Coelhinho da Páscoa. E embora não permitisse Educação Religiosa nas aulas, não se importava que as crianças freqüentassem a missa. E com o tempo, as quinze crianças, meninos e meninas de várias idades, aos poucos foram dividindo espaço com garotos e garotas mais velhos, adolescentes e, embora elas não pudessem entender imediatamente, a verdade é que aquela mudança em particular moldaria e beneficiaria suas vidas até o fim. E, principalmente, permitiria que cada uma delas vivesse ali todo o tempo de sua juventude, até que finalmente tomariam para si suas próprias vidas.

Embora educado, inteligente e bondoso, repleto de amigos e amado por todos, Lucas crescia e vivia na renovada e reformulada casa como costumamos vivenciar férias numa casa de praia ou campo, sabendo que aquele não é nosso lar, sabendo que logo será apenas uma lembrança. Ele tentava explicar esse sentimento para si mesmo, alegando acreditar que apenas quando fosse adotado teria um lar definitivo. Mas mesmo que Lucas jamais tenha sido adotado, jamais tenha deixado de morar naquela casa, embora os anos se passassem sem trégua, sem calma e sem paradas, ele nunca deixou de sentir que sua casa, seu lar, estava em outro lugar. Mas Lucas nunca ansiou. Nunca reclamou. E viveu cada um de seus dias feliz, saudável, amoroso, apreciando aquela temporada de férias que durava todos os meses do ano, todos os anos da infância e, então, cada uma das fases de sua juventude.

E foi na juventude que Lucas começou a compreender sua vida, seus sentimentos de todos os tipos. Aos treze anos, ele pensou pela primeira vez no que faria quando, dali cinco anos, deixasse a Casa de Santa Clara: ele iria velejar. Mas, claro, ao longo dos anos, essa opinião e esse desejo mudariam diversas vezes, influenciados por idéias e histórias. Mas até que chegasse o dia de partir, com uma decisão firme finalmente tomada acelerando seu coração, Lucas sentiria muitas vezes o peito vibrando. E ainda aos treze anos, ele descobriria a paixão.

Heart enriching…

23 23UTC Março 23UTC 2009

Sarah Kane é uma dramaturga inglesa que chamou a atenção do mundo com suas peças fortes e depressivas, agressivas, opressoras. Ainda muito jovem, teve suas peças compradas e encenadas num importante teatro de Londres e depois ao redor do mundo. Mas, como é prerrogativa dos gênios, seu dom foi sua maldição, e os mesmos sentimentos que ela transformava em palavras e cenas a afundaram na depressão. Num período sobrevivido entre clícinas psiquiátricas, Kane escreveu a peça 4:48, uma de suas obras mais intensas e que fala sobre suicídio – o título seria a hora em que a maioria dos casos acontecem. Esta foi sua última contribuição a 5ª arte: Sarah Kane suicidou-se em 20 de fevereiro de 1999, aos 28 anos.

O curta-metragem abaixo é uma adaptação da peça Crave, seu penúltimo trabalho, e é assinado pela produtora britânica Arri Média, produzido e dirigido por Richard Jakes e Michael Tamman. Os casal que divide a cena em recortes e frases é interpretado por Christofer Duniop e Fiona Peance.

Este curta-metragem é um dos mais belos filmes e poema e já vi, comparável talvez aos maravilhosos Antes do Amanhecer, Antes do Pôr-do-Sol, Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças, Apenas Uma Vez… Alguns dos filmes mais tristes e românticos que já tive a felicidade de presenciar.

Reflexões de um Horizonte representa, sem dúvidas, os mais bem aproveitados seis minutos dos últimos tempos. Está no áudio original, com legendas em inglês. Abaixo do vídeo, está minha tradução livre para o português.

e eu quero brincar de esconde-esconde

e te dar minhas roupas

te dizer que eu amo seus sapatos

e sentar nos degraus enquanto você toma banho

e massagear sua nuca

e beijar o seu rosto

e segurar sua mão

e dar um passeio

não me importar quando você comer minha comida

e te encontrar no bar

e falar sobre o seu dia

falar sobre o seu dia

e rir da sua

sua paranóia!

e te dar fitas que você não ouve

assistir grandes filmes

assistir filmes terríveis

e te falar sobre o programa de tv que eu vi ontem a noite

e não rir das suas piadas

querer você de manhã

mas te deixar dormir mais um pouco

te dizer o quanto eu amo

seus olhos

seus lábios

sua nuca

seus peitos

seu tipo esperto

e sentar na escada fumando até seus vizinhos chegarem

e sentar na escada fumando até você chegar

e ficar preocupado quando você chegar

tarde

e ficar feliz quando você chegar cedo

e te dar girassóis

e ir para sua festa e dançar

me desculpar quando eu estiver errado

e feliz quando você me perdoar

olhar suas fotos

desejar que eu te conhecesse eternamente

ouvir sua voz

no meu ouvido

sentir sua pele

na minha pele

e ter medo quando você estiver com raiva

e te dizer que você é gostosa

e te abraçar quando você estiver ansioso

e te segurar quando você se machucar

e te querer quando eu te cheirar

e te irritar quando eu te tocar

e lamentar

quando eu estiver perto de você

e lamentar quando eu não estiver

babar no seu peito

sufocar você à noite

e ficar com frio quando você tomar o cobertor

e com calor quando você não tomar

e me derreter ao seu sorriso

e me dissolver quando você rir

mas não entender como você pode achar que eu te rejeito

quando eu não estou rejeitando você

e imaginar

como você poderia sequer pensar que eu te rejeitaria

e imaginar quem você é

mas te aceitar de qualquer jeito

e te falar sobre o anjo de natal

o garoto da floresta encantada

que voou através do oceano

porque ele amou você

e te comprar presentes que você não quer

e levá-los embora de novo

e te pedir para casar comigo

e você dizer “não” de novo

mas continuo pedindo porque embora

você pense que eu não quero

eu sempre quis desde a primeira vez que eu pedi

eu ando pela cidade, pensando

mas ela é vazia sem você

mas eu quero o que você quer

e acho

que estou me perdendo

mas

mas

mas

eu vou te contar o pior de mim

e tentar

te dar o melhor de mim

porque

você não merece nada menos

responder suas perguntas quando eu preferir não responder

e te contar a verdade

quando eu realmente não quero

e tentar ser honesta

porque eu sei que você prefere isto

e pensar que tudo acabou mas

esperar por apenas mais dez minutos

antes que você me jogue para fora da sua vida

esqueça quem eu sou

e me deixar tentar e chegar mais perto de você

e de algum jeito

algum jeito

de algum jeito comunicar algo devastador

eterno

dominante

incondicional

cercado

enriquecedor

esclarecedor

avançado

interminável

amor

eu sinto por você

Uma vez.

18 18UTC Junho 18UTC 2008

Junho|Junho

- Vai. – Disse Oliver, quando entendeu o que significava aquele olhar. – Pode ir.
E Marcus continuou com aquele olhar de doçura e completa incompreensão. Oliver deu o primeiro sorriso que conseguiu fingir e se afastou andando de costas, então se virando e indo embora. Se um dezoito-de-junho depois ele achava que ele faria isso, algo de errado deve ter acontecido no meio desse caminho.
- Espera – pediu Marcus –, você não entendeu.
Se ele não tivesse entendido, ele teria dito espera assim que ele andou um passo para trás. Oliver ia dizer algo como não-torne-mais-difícil, mas não queria que aquilo parecesse qualquer coisa difícil, então disse:
- Ãh?
- Você não me entendeu – disse Marcus.
- Okay – fez Oliver, pra ganhar tempo. – Por favor, não ouça ironia no que eu vou dizer agora, mas uma coisa na qual você é ótimo é em explicar. Você sempre foi muito simples.
- Mas você acha que eu quero ir… E não é verdade.
Mas Marcus sabia que fora bastante claro, e sabia que nada desfaria aquilo. Em respeito ao pensamento de Oliver, esperou que ele respondesse. E Oliver demorou alguns segundos para encontrar a resposta adequada aquela situação.
- E eu não queria te deixar ir. Mas nós dois sabemos que aqui não é o seu lugar.
Em outro tempo, Marcus diria vem-comigo. Mas nesse outro tempo, Marcus jamais teria que ir embora. O tempo não cura tudo; às vezes achamos que nos recuperamos, não entendemos que o tempo só continua, só muda. O tempo destrói tudo. Inclusive a dor.
- Eu não posso simplesmente ir – disse Marcus.
- Pode sim. – Oliver sorriu. – Não é pra ser difícil. Ninguém está enganando ninguém.
- Se eu for embora, eu vou te perder.
- E se você voltar, eu estarei aqui.
Se ele fosse embora, ele não iria voltar. Os dois sabiam.
- Se eu for embora, eu não vou voltar.
- Você sabe – Eu sei – disseram os dois ao mesmo tempo.
Um sino começou a badalar na torre da igreja do outro lado da rua. Uma vez. Duas vezes. Três vezes… E Oliver usou a simplicidade típica do outro:
- Então está claro que esta é a última vez que nos vemos.
Cinco vezes, seis vezes, Marcus contou. Ele estava sem relógio e não tinha certeza da hora, então prestou atenção aos badalos do sino para saber se já era hora de voltar. Sete vezes. Parou. Sete da noite, ele podia ir um pouco mais longe…
Naquele dia o tempo já estava mudando, Marcus podia sentir o efeito do frio nos lábios prestes a rachar. A viagem foi mais fácil do que prometia, ele pensou, enquanto atravessava a rua caminhando dez centímetros fora da faixa de pedestres. Um motoqueiro provocou o motor, acelerando em ponto morto, apressando os pedestres. Marcus odiava quando eles faziam aquilo, sentia vontade de parar bem na frente da moto até que o verde acendesse, só pra atrasar o idiota um segundo que fosse – ninguém seria tão estúpido a ponto de tentar atropelá-lo; mas como ele não tinha certeza sobre o limite da estupidez humana, nunca se arriscou. O semáforo abriu quando Marcus já estava alguns passos calçada adentro e viu o motoqueiro costurando agilmente entre os carros, até que sumiu do seu campo de visão, como se se escondesse numa esquina não muito distante. Marcus virou em sua própria esquina e continuou sua caminhada aleatória. Não parecia ter se passado muito tempo quando ele ouviu novamente alguns badalos indicando a nova hora. Na verdade ele não tinha chegado muito longe quando decidiu fazer o caminho inverso e voltar para o hotel, por isso achou que passaria pela igreja quando ela ainda estivesse silenciosa. Não que tenha sido algum tipo de surpresa, perder a noção do tempo é algo comum, mas de certa forma ele achou que tivesse perdido algo mais além do tempo… Nada concreto, aquilo não passava de uma sensação.
Oito vezes e chega. Há um segundo ele pisava no exato lugar onde pisava uma hora e um segundo atrás. Então ele pensou que talvez não tivesse saído do lugar e que aquela hora inteira tivesse caminhado enquanto ele permanecia parado. Um velho amigo criaria mil histórias baseado naquela simples premissa, e uma delas provavelmente seria que ele tivesse sonhado durante um segundo o caminho que fez no que parecia uma hora inteira, e que o oitavo badalo o acordou. Marcus era menos crédulo do que ele, e menos criativo também. Não que ele ignorasse a força do acaso, mas algumas coincidências simplesmente não são importantes.
- Ôpa… Desculpe – disse Marcus, com um educado sorriso, quando se virou e esbarrou num rapaz que passava perto dele naquele instante.
O rapaz parecia abalado, o fôlego frágil o impediu de responder imediatamente as desculpas de Marcus quando finalmente entendeu que o estranho a sua frente tinha esbarrado nele – algo que deve ter demorado dois segundos e alguns décimos. Assim, quando o rapaz respondeu com um sorriso forçado e o início de uma palavra que começava com i, Marcus já perguntava…
- Você está bem?
- Estou. – O rapaz respondeu parecendo ter certeza demais para quem está bem. Mas ele percebeu rápido que o estranho não acreditava nele e tratou de se explicar: – Só estava um pouco distraído, desculpe não te ver, foi minha culpa.
- Imagina! Eu me virei sem atenção… Aliás, posso te pedir uma informação?
- Sim, claro. – Sorriu de novo, mais educado do que atencioso.
No meio do caminho de volta, Marcus pensou em procurar por um lugar da qual já ouvira falar, mas não sabia onde ficava. Foi passando por pessoas querendo pedir orientação, e acabava deixando a pergunta para a próxima que passasse ou, quem sabe, um guarda que cruzasse o caminho. Marcus se lembrou que queria saber como chegar naquele lugar, mas enquanto perguntava para o rapaz se podia perguntar, percebeu que não se lembrava do que queria saber. Só continuou a pergunta porque achou que seria rude interromper a frase.
- Qual é o seu nome? – perguntou, então, não encontrando nenhuma outra pergunta que fizesse sentido, e percebendo que, de certa forma, aquela também não fazia.
Apesar de não ser a mais indiscreta das perguntas, o rapaz não achou que a ouviria de um estranho em quem esbarrasse, e mais pelo supetão do que pela vontade de responder ou pela curiosidade em contra-perguntar por-quê, ele disse:
- Oliver. – E contra-fez: – Por quê?
Marcus riu.
- Desculpe, Oliver. É que eu me esqueci de qual era a pergunta que ia fazer. Juro.
E Oliver riu de volta. Algo naquela simplicidade absurda o fez rir.
- E qual é o seu? – perguntou.
- Marcus. Muito prazer.
Marcus estendeu a mão para ele.
- De onde você é? – Perguntou Oliver enquanto apertava sua mão rapidamente.
- São Paulo.
- Imaginei.
Marcus estendeu a mão para Oliver novamente.
- Bom, você deve ter mais o que fazer – disse Marcus, com um tom de reticência tímida não muito natural. – Mas foi um prazer, Oliver.
- Espero que goste da cidade.
- Essa é a idéia.
- Tchau. – Oliver se afastou.
- Tchau – terminou Marcus, indo na direção oposta.
Ele percebeu em menos de um segundo que estava com um sorriso divertido estampado no rosto. Marcus adorava conhecer pessoas educadas.
- Espera! – falou alto, se virando, na direção de Oliver.
Oliver parou e se virou, ainda não estava longe demais. Marcus só precisava de um pouco de imaginação para descrever as feições do seu rosto.
- Sabe onde fica a Torre de TV?
Oliver deu dois ou três passos de volta entre o chamado de Marcus e a resposta em tom casual que deu pra ele:
- Vou passar do lado.
Marcus deu passos largos, quase corridos, para alcançar Oliver rapidamente. E só quando estava a um metro dele perguntou:
- Então se importa se eu for com você?
- Não.
Foi Oliver, desta vez, depois deles começarem a andar juntos, quem fez a primeira pergunta.
- O que veio fazer em Brasília?
- Passear… Talvez ficar.
- Talvez?
- É. Eu tenho que me mudar até o final do mês, meu inquilino decidiu vender a casa que eu alugava. Aí percebi que não devia… digamos, desperdiçar… não sei-o-quê, e decidi me mudar para outra cidade ao invés de ir pra rua de baixo.
- Já visitou mais alguma cidade pra ver de qual gosta mais?
- Ainda não – riu Marcus. – Estou começando agora a jornada.
Oliver riu antes de dizer:
- Então, agora eu realmente espero que goste de Brasília.
- Tomara que sim – concordou Marcus. – Não tenho muita paciência pra ficar indeciso.
Os dois ficaram em silêncio um pouco, como se apreciassem um café. Ambos com um risinho no canto dos lábios. Oliver gostava de conhecer gente engraçada. Marcus parecia engraçado.
- Mas e você? – perguntou Marcus.
- Eu o quê?
Marcus demorou dois segundos antes de perguntar. Oliver olhou para ele quando percebeu sua demora. Marcus tentou manter o mesmo tom de voz ao perguntar:
- O que veio fazer em Brasília?
- Como assim? – Perguntou Oliver. Marcus estava confundindo algo. – Eu sou daqui.
Marcus olhou para Oliver de volta. Como continuavam caminhando e precisavam olhar por onde pisavam, não se demoraram muito nessa troca de olhar. Mas demoraram o bastante para Marcus dizer e Oliver ouvir:
- Não é não.
Oliver parou de andar discretamente. Marcus também.
Nove vezes. Marcus tirou do pescoço a corrente de bolinhas e as estendeu para Oliver. Dez vezes. Oliver hesitou. Onze vezes. Oliver as recolheu, sem tocar a mão de Marcus, no exato instante em que o sino badalou – elas se foram, as doze vezes. Marcus sabia que não haveria o último toque, mas naquele breve instante sentiu algo que não soube interpretar, nem mais tarde, se era certeza de que Oliver faria, ou vontade que ele fizesse.
Oliver não tinha feito e Marcus lhe lançou aquele olhar de doçura e incompreensão. Aí Oliver disse aquelas palavras:
- Vai. Pode ir.

História extraordinária

9 09UTC Junho 09UTC 2008

Existe uma história que sempre me fascina quando me lembro, mas ao mesmo tempo me entristece porque o final fica em aberto, ou seja, não da resposta às principais dúvidas que a própria trama estabelece, o que não chega a ser ruim, já que o “roteiro”, por assim dizer, é muitíssimo bem elaborado e construído – as tais lacunas são justamente a intenção da história. História, afinal, que é sobre um rapaz numa cidade estranha: ele se chama Lucas e tem uns dezessete ou dezoito anos, ou talvez um pouco mais, é difícil dizer já que ele parece tão jovem e mesmo assim carrega traços indubitáveis de alguém com vinte e poucos e pesados anos. A história de Lucas pode parecer simples e clichê se considerarmos apenas a parte do “garoto novo na cidade que não conhece nada nem ninguém e acaba se apaixonando pela última pessoa de quem devia se aproximar”. Sim, ele vive uma história de amor. Mas há duas coisas que fazem da história de Lucas uma história surpreendente e inesquecível: primeiro, ele simplesmente acordou numa cidade da qual nunca ouviu falar (o que talvez não signifique muito já que ele viveu toda sua vida numa cidadezinha minúscula da qual a maioria das pessoas também jamais ouviu falar); segundo, ele se apaixonou por ele mesmo, sem saber quem era – nenhum dos “dois”.

Ouro e Prata

5 05UTC Dezembro 05UTC 2007

 

Não minta para mim, idiota! Se você não disser onde dormiu ontem a noite eu acabo com tudo agora. Ah, ficou com medo, né? Que bom. Pelo menos você sabe que eu não sou idiota. Pára de mentir, eu sei que é mentira. Eu liguei na casa da sua mãe e ela disse que você tinha saído logo depois do jantar. Foi o seu pai que atendeu, deixa de ser mentiroso. Pelo amor de deus, o que é que custa dizer a verdade pelo menos uma vez na vida, eu sei que você não dormiu na casa dos seus pais… E eu sei que você não dormiu no escritório. Eu também liguei na casa dele, eu liguei para todo lugar… Sai, sai… Me larga. É lógico que eu tô chorando, imbecil! Pensa que eu não sei que você saiu com aquelas vagabundas da faculdade? Pensa que eu não sei de nada, é? Ah meu deus… Meu deus… Meu deus… Por que você fez isso comigo? OLHA PRA MIM! Eu te dei tudo, te dei a minha vida, te dei a minha casa, te dei o meu dinheiro, o meu corpo, a minha saúde. E agora você sai e se diverte e se gaba e gasta todo o meu dinheiro com aquelas vadias. Eu nunca, nunca fiz nada de errado. Eu estou aqui todos os dias, esperando, aguardando, me cuidando para você ter um bom motivo, um ÓTIMO MOTIVO para vir pra casa. Mas aí o que você faz? SAI COM AQUELAS VAGABUNDAS! Eu te odeio… Te odeio te odeio, odeio, odeio, odeio! ODEIO! Sai daqui! Sai da minha casa! MENTIROSO! Cachorro! Eu vi você no carro dela, eu vi você beijando ela… Ah, não… Imagina… Eu é que enlouqueci de uma hora para a outra. Eu vi, seu desgraçado! Com os meus próprios olhos! Eu vi tudo, tudinho… Eu te vi dando o meu dinheiro para ela. Eu VI! Eu não quero saber, não quero te ouvir, não quero te perdoar… Você não tem mais chance. Já era… Agora já era… Não, não, não… Sai de perto de mim! Quê?!… Mas o quêêê?!… Não, não… Sai do jeito que você tá. Não tem nada seu nessa casa. Aliás até a roupa do teu corpo fui eu que te dei. Devia te fazer sair pelado! Você não gosta de se exibir? Então? Que ótima oportunidade, hein? Mostrar o rabo entre as pernas, e esse… Esse grande, nossa, que pedaço de ouro, né?! Te deu tudo o que você queria, esse negócio. Como é que você se sente, hein, sabendo que não tem nada além disso. Na-da. Deve ser horrível ser você… Agora sai, sai daqui. Vai, sai. Não? Quer mais persuasão? Então olha… Hahahaha… Isso! Foge… Vai, foge, cachorro. Corre! Isso, corre… Rápido. O quê?… Ha-ha… Louco é você. Você é quem perdeu o juízo quando achou que eu ia te deixar me usar… Quando pensou que eu não ia reagir. Cala a boca! E pára de rir! Acha que pode rir de mim? SAI DAQUI! SAI! SAAAAAAAI! AAAH! AAAH! AAAH! Aah? Ai meu deus! AAAAAAAAAAAH! Naão… Não, desculpa… Aai… Ai meu amor, desculpa… Não, não faz isso… Não faz! Aaah! AAAAAAH! O que eu fiz?!!!! Alguém me ajuda! Eu não queria… Eu não queria… Eu juro que não queria… … Aaai… Seu cachorro…!

Eironeía

5 05UTC Dezembro 05UTC 2007

Inspirado na obra da cantora canadense Alanis Morissette.

Este conto foi escrito no final de 2003 e, desde então, passou por poucas revisões já que  decidi mantê-lo como representante daquela época. Reconheço que não é o melhor dos meus textos (ainda acho que meus contos mais dignos são Uma vez. e Cicatriz), mas por seu significado (para mim e para algumas outras pessoas), é um pelos quais mais tenho carinho.

Espero que apreciem.

Ironia

Camila, uma mulher de quase quarenta anos e muito bonita, entrou em casa no exato instante em que o relógio badalou à uma hora da manhã. Ela deixou a luz apagada, já conhecia muito bem o caminho que percorria todos os dias há quase seis anos. Embora não fosse uma surpresa, tropeçar depois de alguns passos não era exatamente o que esperava que acontecesse. Ela pegou rápido o celular de dentro da bolsa e iluminou o chão para encontrar: um tênis. Ela o recolheu, subiu as escadas em silêncio – o par estava quase no último degrau – e, no andar de cima, viu uma claridade fraca por baixo da primeira porta do corredor. Camila se aproximou e bateu levemente; aguardou, mas ninguém respondeu, então abriu a porta.

Uma adolescente de talvez dezessete anos, e muito parecida com Camila, estava deitada ainda com os óculos no rosto e a tevê ligada. Era Ana. Camila deixou o par de tênis no chão e foi até a cômoda acender um abajur – que tomou o quarto de azul – e desligar o televisor. Ela aproximou-se da garota e, quando tentou tirar seus óculos, a fez acordar. Ana sorriu.

- Ssh… Está tarde, mocinha, volte a dormir.

- Olá, Cinderela – disse Ana carinhosa, com a voz abafada por um bocejo e se levantando. – Sabia que já passa da meia-noite? Está atrasada.

- Pois é… – murmurou Camila se sentando na cama, parecia exausta. – Mas pra mim ainda é sexta-feira.

- E então, como foi?

- Advinha – desafiou a mulher arregalando os olhos e com um sorriso sintético

- Ham… deixe-me, ver… – pensou Ana fazendo a mesma expressão. – Acho que… perfeito! – e riu agudo pela animação.

Mas Camila murchou o sorriso falso e abaixou os olhos com um suspiro.

- Ah, meu Deus! – desanimou Ana. – Foi tão ruim assim?

- Não exatamente – disse Camila defensiva. – Só um pouco… Irônico?

- Por quê?

- Tinha um saxofonista.

- Ai! Sério?

- É.

- Nossa…

- É, eu sei.

- Olha, quer ouvir algo irônico de verdade?

- Tenho?

- Tem.

- Tá.

- É que acabou de dar na reportagem: quarta-feira um velhinho completou noventa e oito anos e… Ganhou na loteria.

- E daí?

- Você acha pouco?

- Tá, ele é velho, mas isso não é tão irônico assim, ele deve ter família.

- Tem. Um sobrinho de quarenta e dois anos, americano.

- Então.

- O cara foi executado hoje na cadeira elétrica.

- Nossa!

- Pois é, o advogado parou dois minutinhos na estrada para vomitar uma panqueca e não chegou a tempo de mostrar ao Governador a prova da inocência do moço.

- Você tá falando sério?

- Tô.

- Meu deus, mas isso é um absurdo!

- Pois é. Mas ainda não acabou.

- Tem mais?!

- O engraçado é que não. Lembra do titio milionário?

- Ãh?

- Ontem ele morreu.

Camila soltou um soluço. Algo que lembrou uma risada de susto.

- Que horror!

- Pois é. Não sobrou mais nada: nem tio nem sobrinho.

- Eles não tinham mais parentes?

- Nenhum.

- Nossa! – disse Camila então, caindo num silêncio retumbante. E breve. – Isso foi bem irônico.

- Pois é – disse Ana, olhando para a outra, que mirava o tapete azulado (mas que era branco).

As duas reagiram em coro para dizer alguma coisa, mas se interromperam ao mesmo tempo, uma dando a vez para a outra, que aceitou de bom grado a gentileza, mas se interrompeu a segunda vez. Ana decidiu não tentar a terceira e Camila disse:

- Pois é… Acredita que tinha uma mosca no meu Chardonnay? – disse Camila distraída.

- Nossa! – disse Ana, que novamente ia falar, mas se interrompeu a terceira vez quando alguém abriu a porta do quarto sem bater.

- Te acordamos, Dê? – perguntou Camila, olhando para a mulher pouco mais jovem que ela e ainda sonolenta.

- Não – disse Denise, entrando – fiquei com vontade de varrer e levantei.

Ana riu. Camila esticou um braço na direção dela e Denise foi até a cama para se deitar no colo da oferecida.

- Sobre o que estão conversando?

- Ironia – respondeu Ana.

- Aquela coisa que dizemos que acontece quando chove granizo no dia do seu casamento?

- É – disse Ana.

- Quando anunciam um passeio grátis depois que você já pagou?

- Isso.

- Aquele bom conselho que você simplesmente não aceitou?

As três olharam para entrada do quarto. Lúcia, uma jovem de vinte e poucos anos, estava encostada na moldura da porta olhando para elas.

- Quem ia imaginar que estava certo? – perguntou Denise.

Camila sorriu e olhou para Lúcia outra vez.

- Ficou com vontade de pintar a casa?

- Não, acordei com as vozes de vocês.

Ana e Denise riram rápido. Camila só tremeu os lábios.

- Cabe mais uma aqui – disse Camila, esticando os braços também para Lúcia.

Lúcia foi até elas e deu a volta pela cama, deitando ao lado de Ana. Camila abaixou os braços. Elas ficaram em silêncio por um tempo, então Denise disse, pensativa:

- Fiquei sabendo que o Sr. Certinho tinha medo de voar, mas mesmo assim ele aprontou as malas e beijou sua família – (“Adeus” disse Lúcia) – Me disseram que o cara esperou sua maldita vida inteira para fazer aquela viagem.

- E aposto – apostou Lúcia – que enquanto o avião caía ele pensava: “Nossa, isto é tão divertido!”.

- E isto não é irônico? – perguntou Camila, um pouco mais séria do que a ocasião pedia.

- E como foi a festa? – perguntou Lúcia desdenhosa.

Camila soltou uma risadinha…

- Irônica – disseram Camila e Ana juntas.

- Pois é – começou Lúcia -, a vida tem um jeito engraçado de ir furtivamente sobre você na hora em que tudo está indo bem.

- E com certeza – disse Ana -, tudo daria certo.

- Mas eu era a única pessoa desacompanhada – desabafou Camila. – Ah, e tinha um saxofonista.

- Ai! – disseram as duas mulheres que ainda não sabiam disso.

- E a vida – disse Lúcia – tem um jeito incrível de te ajudar quando você pensa que tudo está acabado.

- Está acabado – disse Camila olhando para Lúcia.

- Mas e aquele cara do jornal? – perguntou Denise, erguendo a mão como uma aluna bem educada. – Ele não disse que te encontraria na festa?

- E encontrou.

- E? – fizeram duas das três (Lúcia não parecia muito interessada).

- Ele me apresentou a esposa. E como era bonita a filha da mãe!

Das quatro (é, Camila também), Lúcia foi a primeira a rir.

- Faça o que eu digo e o que eu faço – disse Lúcia.

- Estou ponderando seriamente sobre isso – respondeu Camila.

- Não sei se é boa idéia – disse Ana.

- Por quê? – cobrou Lúcia.

- Seria um pouco irônico demais.

- Ironia é um congestionamento quando você já está atrasada – declarou Denise.

- E um aviso de “não fume” na sua pausa para o cigarro – disse Lúcia.

- E como ter dez mil colheres – disse uma Camila indignada – quando tudo o que você precisa é de uma faca – terminou com um esguicho agudo.

Elas riram cansadas. Então ficaram em silêncio e Ana disse:

- É encontrar o homem dos seus sonhos e então conhecer sua linda esposa.

Lúcia virou os olhos e riu sem achar graça e Camila se deitou sobre ela, acariciando o rosto de Denise no seu colo. Ana concordou em relaxar também, mas achou que não precisava tirar os óculos ainda.

- Isto não é irônico? – perguntou a mulher de quase quarenta anos. – Um pouco irônico demais, não acham?

Todas ficaram em silêncio mais uma vez. Denise meio que roncou ao tentar conter uma risada e as outras na cama não a imitaram, preferiram rir mesmo. Depois, lentamente foram ficando quietas, calmas, caladas. Só Camila, depois, voltou a falar, e falou cada vez mais baixo:

- É como perder o vestido horas antes do “sim”. Morrer do coração ao ler o bilhete premiado.

Lentamente ela foi sentindo o sono.

- Morrer do seu maior medo, mas acabou de terminar a terapia. Ele podia ter vomitado nos fios…

Com ela, três mulheres mudas.

- Ele devia viver de amor, na Terra, não no Céu. Foi mancada atrasar o relógio e furar o pneu; mas eu só queria fumar, por que ele foi deixar o gás vazar?

Camila fechou os olhos.

- Mas achar o seu Shrek na festa da Fiona é…

Ela sorriu para si mesma.

- É tentar matar uma mosca com uma colher; pagar por um vinho e logo depois a casa oferecê-lo de graça, mas você já pagou.

Ela fez uma careta.

- Aí você encontra a mosca na sua taça.

Ela pareceu ressonar, trocando a careta por um rosto calmo e inexpressivo. Seus olhos mexeram e ela murmurou alguma coisa que lembrou “é, eu realmente acho…”, deixando nos lábios um esgar de sorriso, tornando sua feição ligeiramente irônica, banhada por uma leve luz azulada (mas o batom era rosa; discreto, mas rosa).

- Ela dormiu? – perguntou Ana, tentando ver o rosto da mãe.

- Acho que sim – disse Denise.

Lúcia deu um tapa indeciso na cabeça de Camila, que acordou de novo. Ana devolveu um tapa em Lúcia, reclamando.

- Acho que preciso de um banho – disse Camila, acordando meio zonza, parecendo querer fingir que não dormiu por um instante.

Ana olhou direto para Lúcia.

- Acho que não vai dar – disse Denise.

- Por quê? O encanador não veio? – perguntou Camila.

- Veio – disse Lúcia.

- E qual era o problema?

- Nada demais – disse Lúcia. – Ele só emendou uma rachadura pequena. Mas pediu que trocássemos o encanamento até o final do ano, por segurança.

- Então qual é o problema com o banheiro? Hein, Ana?

- Ela tentou matar uma barata agora à noite – disse Denise. E Lúcia completou, com um riso:

- E conseguiu destroçar dois canos.