Ela continuou parada, mesmo quando o barco já desaparecera na escuridão. Não conseguia entender, não compreendia porque doía tanto. Ela havia vencido; e a dor da vitória era amarga demais.
Vinte e cinco centavos; esse era o preço daquele momento. Cinco moedas.
Há dois dias era diferente: há dois dias seus olhos ainda eram castanhos. Hoje, seus olhos azuis secos e opacos não dizem mais que a vida é linda. Eles gritam, roucos, que não vela a pena, eles gemem que viver é uma penitência injusta demais para quem tem vida e não consegue mais respirar.
O barco deu seu último apito e ela sabia que o garoto de olhos castanhos não poderia cumprir sua última promessa. Ele atravessava o Atlântico e o Atlântico todo a trespassava como uma interminável lança banhada em veneno. Pela primeira vez ela odiou o mar. Odiou-o por carregar seus olhos, por deixá-la cega, por ressuscitá-la viva.
Segurando sua mão, ele despejou algo dentro dela e a selou para e com um beijo. Ao invés de responder o que era aquilo, quando ela perguntou, ele apenas e carinhosamente disse que ainda acertaria as contas com ela; e se afastou. Ela levantou a mão e quis ver o que estava ali dentro, mas parou à ordem dos olhos dele (“espere até que eu vá”), acentuados pelo movimento de sua mão. Ela continuou olhando-o, imóvel.
Ele embarcou e, detrás da amurada, se entregou a olhar a garota estática. Ele ergueu uma mão e tocou o lábio com o indicador, parecendo pedir silêncio, e ela sentiu uma forte brisa levar para longe sua alma, seu coração e seu ar. Ela não sobreviveria, não com apenas vinte e cinco centavos, o que descobriu haver em suas mãos. Cinco moedas de cinco centavos: o pagamento imposto por ela quando disse que um dia ele entenderia o quanto a amava e que quando chegasse esse dia seria tarde demais. Ela sabia o que ia acontecer, não por ser uma bruxa ou uma feiticeira, mas por ser uma amante e por ser tão errante.
As ondas do mar levavam para longe seu espírito gêmeo e nunca mais ele acharia o caminho de volta.
Outra brisa soprou a praia e trouxe consigo gotas de chuva grossas e frescas. Essa chuva parecia enfeitiçada, talvez estivesse pois trouxe-lhe um largo e melancólico sorriso. As gotas pesadas batiam com força contra o seu rosto e, a cada impacto, diante dos seus olhos explodiam imagens de vida ao lado de olhos castanhos. Foi fácil rir então, e sem a obrigação de camuflar a dor: não era preciso agradar – enganar – alguém. Não desta vez. Ela agora, em meio à água da chuva, em seus lábios sentia o gosto das próprias lágrimas, e elas não estavam amargas, mas vivas e gritando coros alegres. Havia algo alegre. Não importava que havia acabado, mas que tinha começado, e não importava que nunca mais o teria… ela eternamente o sentiria.
Com a chuva ela conseguiu matar o que a feria, e agora estava livre outra vez. Ainda mais livre do que da última vez. Agora estava viva apenas por ela – mas uma parte de si sempre viverá por ele – seja quem for ele.
A chuva cessou de repente e um grito afugentou a escuridão, a luz do farol iluminou o vasto oceano que agora estava vazio e talvez calmo. E outra vez ela se lembrou de que nunca mais o veria. Então se virou e caminhou para casa. Mas não imaginou que seus olhos azuis, agora escuros, olhavam naquele momento uma praia distante, onde uma garota de vestido amarelo junto ao corpo molhado caminhava na direção oposta à do observador, cuja memória trouxe à tona uma frase ouvida algum tempo atrás:
- As vidas se cruzam…
E, distante, alguém lhe acompanhou:
- … e os caminhos se separam.
“As almas gêmeas se reencontram”.