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Palavrão #10

28 28UTC Julho 28UTC 2009

Em abril, eu li o primeiro volume da saga Luz e Escuridão, o abaixo-da-média mas suportável Crepúsculo. Um livro repleto de defeitos, mas suficientemente divertido para prender a atenção. Desde o início, porém, uma coisa me incomodou, e muito: aquele tal vampiro Edward Cullen. Um dos heróis (?) mais irritantes que já conheci. Uma criação literária “construída” às pressas, sem qualquer equilíbrio e inesperadamente unidimensional – afinal, ele tem conflitos o bastante para ser definido como um personagem complexo. E se isto não fosse ruim o bastante, a agradável Bella (uma ótima personagem a maior parte do tempo) perde todas as suas qualidades quando chega perto do imortal, tornando-se uma pirralhinha deslumbrada (“oh, aquele peito de mármore branco e frio como gelo, oh”!).

Para a minha grande surpresa, porém, são justamente estes defeitos irritantes que tornam Lua Nova, o segundo volume da saga, uma obra infinitamente superior ao capítulo original. E não poderia ser diferente já que, logo no terceiro capítulo, Edward Cullen vai embora de Forks e deixa Bella para trás. Sozinha, abandonada e mergulhada numa profunda depressão.

Mas não por muito tempo. Porque poucos capítulos depois, Bella se aproxima de seu amigo de infância, o índio Jacob Black, um garoto carismático, divertido, bondoso, bonito e… lupino. Pois Jake Black nada mais é do que um lobisomen, o inimigo natural dos bebedores de sangue.

A reviravolta não é exatamente uma surpresa, já que foi “anunciada” para os leitores desde a metade inicial de Crepúsculo, mas o modo como acontece e interfere na dinâmica Jake-Bella merece alguns elogios. Além disso, a tensão sexual entre eles é palpável e muito mais natural do que o romance impulsivo e apressado da garota com o Frio, já que o lobo não exerce o mesmo tipo de “domínio” sobre a garota, que se apaixonou por Edward não por um amor genuíno, mas porque é isto o que vampiros provocam nos seres humanos (o interessante elemento que os transforma em predadores formidáveis). O resultado é que a idéia de Bella abrir mão da eternidade para viver com o calor de Jacob é muito mais atraente do que o plano de abandonar a vida para mergulhar sem reservas no frio mundo da imortalidade.

Da mesma forma, assim como no episódio anterior, a calda de açúcar dos momentos românticos (que aqui já considero calda de chocolate) divide espaço com momentos de suspense. E bom suspense, diga-se de passagem. Não apenas a “participação especial” de um determinado vampiro na clareira, que funciona como mera introdução para o reencontro de Bella com o “fantástico”, como também a expectativa alarmante a respeito da presença de uma perigosa inimiga em busca de vingança. Por outro lado, o suspense envolvendo a transformação de Jacob é uma enrolação já que sabemos desde o início o que está acontecendo, e esperar que Bella descubra a verdade é um exercício de paciência.

Mas Luzes e Escuridão é vendida como uma “saga de vampiros” e não de lobisomens (apesar da presença marcantes deles) e, é claro, independentemente do destino plajenado por Meyer, os Cullen não poderiam ficar de fora da história por muito tempo. Assim, não é nenhuma surpresa que a divertida irmã de Edward  reapareça repentinamente no “ato final” do livro, e por mais que seja interessante a reviravolta envolvendo um trágico mal-entendido, a sensação de queda é inequívoca e nada elogiosa, já que me refiro ao retrocesso na qualidade da história e não a uma boa reação de susto provocada por uma sequência particularmente bem escrita (lembre-se do Avada Kedavra no Alto da Torre de Astronomia em Harry Potter e o Príncipe Mestiço e entenderá). E não me refiro apenas ao retorno de Edward Cullen, mas também a própria narrativa, extremamente prolixa em toda a sequência na Itália, algo que Stephenie Meyer deixara de cometer nos capítulos anteriores.

E como Meyer não se contenta em estragar a história que finalmente tinha tomado o rumo certo, ela ainda destrói qualquer relevância que a trama poderia ter, o que acontece perto do final, quando  Edward impede com uso de força física que Bella se despeça de seu melhor amigo – o que não é apenas moralmente desprezível, mas uma verdadeira ameaça emocional para as milhares de garotas adolescentes que enxergam em Edward Cullen a imagem do companheiro ideal.

4-estrela

Palavrão #9

29 29UTC Abril 29UTC 2009

Quando li a biografia As Muitas Vidas de Robert Altman no início deste ano, um excelente livro produzido para a mostra homônima promovida no ano passado pelo Centro Cultural Banco do Brasil, fiquei particularmente satisfeito com o ritmo da narrativa que, apesar de inevitavelmente episódica (cada capítulo falava sobre a produção de um filme), contava com uma fluidez admirável, especialmente porque transformava os trabalhos do cineasta em pedaços de sua própria existência e não apenas em linhas de um currículo invejável. Assim, os saltos temporais (de alguns meses, ás vezes anos) não afetavam o desenvolvimento cuidadoso da trajetória de Altman e ainda a romantizavam como algo exclusivamente cinematográfico. Porém, a possível razão dessa conexão talvez seja uma provável distância mantida entre o Altman-autor e o Altman-Homem, um texto decentemente manipulado para nos fazer enxergar apenas o primeiro – embora, obviamente, o livro apresente inúmeros episódios da vida particular de Altman, todos são absolutamente ligados a sua vida profissional.

O que me trás a conclusão da resenha de O Cinema Além das Montanhas, biografia do mineiro Helvécio Ratton, escrita pelo crítico de cinema Pablo Villaça para o projeto Coleção Aplausos, editado pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo.

Como comentei na edição anterior do Palavrão, a primeira parte da biografia merece aplausos pela intensisade angustiante da narrativa, que nos leva dos porões da Ditadura brasileira para a ainda mais sanguinolenta Ditadura chilena e de volta para os reflexos políticos de uma época miserável de nossa História, culminando num capítulo inflexivo que promete, ou pelo menos sugere, um pouco de paz.

E então entramos em um universo diferente… A Criação Artística, a 7ª Arte, o Cinema!  (E a Publicidade. Foi engraçado perceber que isto parece ser uma constante entre os principais mestres criativos que conheço, pessoalmente ou não, e que estou justamento trilhando este caminho, mas isto é um detalhe pessoal que não entra no contexto.)

Nesta segunda parte de O Cinema Além das Montanhas, Pablo Villaça inicia uma fase muito mais epísódica do que a anterior, mas não dividindo os capítulos por filme, e sim dividindo o processo de criação (e algumas curioidades) das produções em alguns capítulos. E, infelizmente, por mais fascinante e agradável que seja “testemunhar” os bastidores mais do que muito interessantes das obras, o fato é que estes capítulos funcionam apenas como um mero diário de bordo (com o perdão do trocadilho) e perdem o alcance dramático que possuiam quando eram românticos. (Mas vale dizer que  os capítulos dedicados ao curta-documentário Em Nome da Razão, além de serem belíssimos e deprimentes, funcionam como uma trânsição entre as duas narrativas do livro, já que ainda é profundamente emocional e ao mesmo tempo bastante profissional).

Nos capítulos finais, O Cinema… acaba deixando de lado todo o peso emocional da história que conta e assume um tom puramente informativo, o que prejudica o texto. A tal ponto que, nas últimas páginas, o s capítulos dedicados a algumas  “despedidas” e a uma “novidade”, ficam sem o peso dramático que poderiam alcançar, soando como mero adendo, ou melhor, um simples post em um blog.

Mas, é claro, estes detalhes não são capazes de diminuir a força da trajetória deste cineasta admirável que é Helvécio Ratton. Da mesma forma, por mais distoantes que sejam os tons da narrativa, o texto de Pablo Villaça é sempre interessante e bem construído, tornando a leitura um processo fácil e muito rápido. Sem esquecer do prazer didático que é acompanhar uma história que narra períodos tão intensos de nossa História nacional, o que é sempre uma experiência fascinante, por mais trágicos e terríveis que sejam os acontecimentos.

4-estrela

Palavrão #8

22 22UTC Abril 22UTC 2009

Este feriado prolongado foi bem… “interessante”. Mas, entre umas e outras surpresas (vide post anterior e outros comentários no meu Twitter), consegui concluir o primeiro volume da saga Fronteiras do Universo, A Bússola de Ouro.

E  o que dizer?

Lyra Belacqua é uma das personagens de literatura-fantasia mais carismáticas que conheci nos últimos tempos. Seu mau humor ácido, sua praticidade e inteligência indiscutíveis, sua coragem e força de espírito… Tudo nela é deliciosamente divertido e inspirador. E é incrível perceber, ao longo da trama, que ela é uma boa garota mesmo sendo filha de um casal tão desgraçado como são seus pais.

Sobre a trama, A Bússola de Ouro é igualmente inspiradora. Uma história aparentemente simples que vai ganhando complexidade com o tempo, nos fazendo vacilar ao lado de Lyra enquanto esta tenta entender qual lado deve apoiar, sem saber que lhe aguarda um inevitável destino amargo (embora a morte de determinado persoangem e o encontro de outros dois tenha sido uma decepção). O livro é particularmente eficiente ao descrever este co-universo de forma tão simples, nos permitindo entender facilmente sua cultura local a respeito dos deamons - o que torna o encontro de Lyra com um garotinho perdido um dos momentos mais impressionantes e trágicos deste primeiro volume.

Em poucos capítulos, foi possível perceber que Phillip Pullman criou uma história sobre crianças, mas não para crianças – embora os jovens sejam seu público alvo. Começarei em breve a ler A Faca Sutil (estou ansiosissimo), mas não creio que a história chegará ao nível perturbador de uma obra como o longametragem O Labirinto do Fauno. O que, é claro, não diminui em nada o poder dessa história magnetizante que A Bússola de Ouro promete para as trilogia As Fonteiras do Universo.

5-estrela1

E, neste final de semana também, comecei a ler a biografia do cineasta Helvécio Ratton, escrita por Pablo Villaça, crítico de cinema, editor do site Cinema em Cena e meu futuro professor, o surpreendente O Cinema Além das Montanhas. Conclui hoje de manhã a primeira parte do livro, As Circunstâncias, que narra o encontro de Ratton com a política e a assustadora Ditadura de dois países. Uma primeira parte completamente cinematográfica, com capítulos curtos e desesperadores (já no Prólogo, entramos num clima de tensão angustiante) que culminam num golpe político arrasador – e ler a transcrição da mensagem de determinado líder político, resistindo ao golpe enquanto exerga um trágico desfecho se aproximando rapidamente, foi particularmente tocante.

É claro que Villaça revela-se um excelente escritor nestas linhas até agora impecáveis. Porém, nem o mais competente letrado seria capaz de construir uma narrativa tão formidável se não tivesse em mãos um material a altura. E é isto o que Helvécio Ratton oferece em sua história… Mais do que isso, é História de verdade.

5-estrela1

Palavrão #7

7 07UTC Abril 07UTC 2009

Finalmente terminei de ler a série As Crônicas de Nárnia.
O texto abaixo revela informações spoilers da saga.

O Sobrinho do Mago (2)
O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa (1)
O Cavalo e seu Menino (3,5)
Príncipe Caspian (1)
A Viagem do Peregrino da Alvorada (4)
A Cadeira de Prata (3)
A Última Batalha (2)

Farei aqui um breve resgate de comentários, e acrescentarei novos.

Pelo menos dois dos livros são quase insuportáveis, e outros dois são apenas suportáveis. Infelizmente, entre eles, justamente os dois primeiros sem enquadram nestes padrões.

O Sobrinho do Mago até tem um começo promissor, parecendo um inofensivo mas típico conto de fadas, mas de repente, sem mais nem menos, começa a cair… cair… cair… E literalmente do nada a verdadeira história começa. A verdade é que as Crônicas dessa tal Nárnia, assim como a própria Nárnia, começam do nada… Os personagens estão simplesmente passeando por determinado lugar e, de repente (quase no final do livro), se deparam com a Criação do mundo (no sentido bíblico mesmo) – ou criação do País, melhor dizendo, já que este é o título que Nárnia recebe ao longo da saga. E se até poderia ser interessante “assistir” a Criação de um ponto de vista mais pessoal – fantasioso, mas pessoal – o fato é que o fenômeno torna-se risível já que não passa de um número musical. Sim, um musical.

O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa não passa de um contozinho pedestre com ares de épico. É tão entediante, tão irritante e tão recheado de clichês quanto a superprodução concebida por Andrew Adamson em 2005. Aliás, preciso fazer justiça e dizer que o livro é ainda pior.

Felizmente, porém, O Cavalo e Seu Menino é uma verdadeira reviravolta, já que, pequenas convenções e previsibilidades à parte, narra uma história infinitamente mais tensa e interessante do que a série parecia ser capaz, além de encontrar o devido tom dos contos épicos (embora sua história seja bastante intimista).

Contudo, Lewis volta a cair em Príncipe Caspian. E, para minha grande surpesa, durante a leitura eu não conseguia parar de pensar numa certa autora-personagem criada por J.K. Rowling em Os Contos de Beedle, o Bardo. Faço um comentário mais completo sobre isso neste post. Príncipe Caspian é tão ruim que chega a parecer trabalho de casa de aluno do primário. Aliás, chego a acreditar que até mesmo uma criança poderia ter deito algo muito melhor.

Mas a tortura não dura muito. Caspian, o livro, cai e dá lugar a A Viagem do Peregrino da Alvorada – indiscutivelmente o melhor livro da saga, e não apenas por comparação. Este é realmente um bom livro. Repito abaixo os comentários sobre ele que fiz no último Palavrão:

Peregrino da Alvorada, é uma grata surpresa. A narrativa é mais episódica e óbvia do que nunca, mas ao menos tem um objetivo  claro desde o início e foge a velha fórmula: crianças aparecem em Nárnia no primeiro capítulo-conhecem as criaturas locais no segundo-descobrem que há um vilão terrível no terceiro-atravessam o país nos próximos doze capítulos-e a história acaba com dois parágrafos narrando a batalha (e com a “esperada” aparição de Aslam, acrescento).  Além disso, o corajoso e honrado ratão Ripchip está ainda mais presente e divertido neste episódio, e Lewis mantém um ritmo mais sombrio e mais cheio de ação aqui, com momentos de calmaria que servem para alguma coisa na história – mas vale dizer que ele acovarda na tal Ilha dos Pesadelos, que poderia ter rendido momentos horripilantes. Enfim, A Viagem do Peregrino da Alvorada poderia ser muito melhor se não tivesse um passado tão condenável.

E, finalmente, a reta final. A Cadeira de Prata sofre uma visível queda qualitativa, mas ainda consegue se manter no jogo. Os protagonistas humanos continuam desinteressantes, diferente das criaturas narnianas e as pequenas aventuras, que são divertidas – mas inofensivas. E embora o desfecho só fique claro depois do reencontro com o Cavaleiro Negro, a partir deste instante o mistério perde a graça, contudo, a ação se acentua e as páginas ficam ainda melhores.

E, para terminar, A Última Batalha. Lembra-se de O Sobrinho do Mago, que narra o nascimento de Nárnia assim-de -repente, de supetão, na história? Pois é, como era de se esperar, a saga terminou com a morte de Nárnia, ou apocalipse, armagedom – Lewis jamais foi tão óbvio em suas referências cristãs como neste livro (e isso porque ele chegou a praticamente dizer “procure e aceite Cristo” ao final de Peregrino da Alvorada). Contudo, o modo como tudo termina é um verdadeiro anti-clímax para a saga – e para o volume, que até então oferecia um desafio interessante para os protagonistas. Ou seria melhor dizer covardia? Pois, pela primeira vez, Lewis colocou seus personagens em um cenário definitivamente perigoso e sem esperança, nos fazendo relamente temer pela segurança deles e acreditar que só um milagre poderia salvá-los. Justamente o que acontece. Tão subitamente quanto começara, Nárnia encontra o fim de repente… E, assim, todos os problemas dos heróis são resolvidos. Por que se preocupar em lutar até a morte, em vencer o numeroso e forte inimigo? É só esperar um pouquinho mais que o próprio Apocalipse dará um jeito nos vilões – isto é, se você for o mocinho da história.

Com a exceção de apenas dois livros realmente bons e um mediano, protagonistas desinteressantes e antagonistas completamente inofensivos, As Crõnicas de Nárnia alcança a marca-média de 2,5 pontos em 5. Não conseguindo explicar como conseguiu tanta fama e longevidade através das décadas.

O que me leva a uma conclusão simples: a forte pregação cristã deu conta do recado. E apenas isso.

UP 8 de Abril

Curiosidade: a saga possui duas ordens oficiais de leitura.

A ordem cronológica, que começa com SM e termina em UB (esta, a ordem que eu li) e também a ordem em que foi escrita. Diferente do que alguns poucos pensam, C.S. Lewis concebeu o universo de Nárnia na seguinte ordem: LFG; PC; VPA; CP; CSM; SM e UB.

Palavrão #6

7 07UTC Abril 07UTC 2009

Leia os primeiros comentários sobre o romance clicando aqui.

Em seus capítulos finais, Crepúsculo realmente deixou de lado a mistura de canela com açúcar e mergulhou rasamente no suspense e na ação. O encontro da família Cullen com o trio de vampiros-nômades foi tenso e intenso, a raiva de Edward por colocar sua amada em perigo finalmente soou como um prenúncio de tragédia e, por fim, a fuga as pressas acentuou a urgência e a gravidade da situação. Da mesma forma, a constatação de que o único modo de se verem seguros novamente seria assassinando eliminando o perigo, elevou ligeiramente o grau de seriedade da trama. Assim como o aviso de sequestro de uma determinada personagem.

Infelizmente, todas estas boas notícias se revelaram como boato de tablóide e a história se sabotou mais uma vez. O confronto entre Bella e seu predador foi bom, mas a trapaça dele teve o efeito inverso ao esperado: longe de lamentar o sacrifício inútil de Bella, nos irritamos com sua burrice – para começar, ela não poderia realmente acreditar que algum humano sairia vivo daquela situação, e depois, ela já tivera provas o suficiente para saber que deveria confiar nos Cullen. E, para completar, novamente a covardia… A única vítima fatal na história foi o próprio vilão e a “reviravolta” mais previsível e esperada de todas… Simplesmente não aconteceu.

No final, apesar de seu último capítulo com gosto de glacê, Crepúsculo se revela uma história boa e com potencial, mas não suficientemente boa para se sustentar sozinha. Em breve, tentarei encarar Lua Nova que, acredito, será melhor.

Mas, se não for, será para mim o fim da série Luz e Escuridão.

Palavrão #5

23 23UTC Março 23UTC 2009

A série As Crônicas de Nárnia parece ter um padrão. Tirando o primeiro e estúpido livro, ela apresentou O Leão…, O Cavalo e seu Menino, Príncipe Caspian e A Viagem do Peregrino da Alvorada. Respectivamente: ruim, bom, péssimo, ótimo.

Se realmente houver um padrão, significa que eu ainda tenho que enfrentar uma história terrível (a próxima) e uma história excelente (a seguinte e última!), e pensar nisso não é nada empolgante, mesmo que eu esteja a poucos passos de atravessar esta floresta.

Assim, decidi dar uma trégua da série de C.S. Lewis, mas é minha obrigação dizer que o último livro que li, Peregrino da Alvorada, é uma grata surpresa. A narrativa é mais episódica e óbvia do que nunca, mas ao menos tem um objetivo  claro desde o início e foge a velha fórmula: crianças aparecem em Nárnia no primeiro capítulo-conhecem as criaturas locais no segundo-descobrem que há um vilão terrível no terceiro-atravessam o país nos próximos doze capítulos-e a história acaba com dois parágrafos narrando a batalha. Além disso, o corajoso e honrado ratão Ripchip está ainda mais presente e divertido neste episódio, e Lewis mantém um ritmo mais sombrio e mais cheio de ação aqui, com momentos de calmaria que servem para alguma coisa na história – mas vale dizer que ele acovarda na tal Ilha dos Pesadelos, que poderia ter rendido momentos horripilantes. Enfim, A Viagem do Peregrino da Alvorada poderia ser muito melhor se não tivesse um passado tão condenável.

E agora… O momento atual. Antes de continuar a leitura das Crônicas, decidi iniciar uma obra mais moderna, mas igualmente controversa: Crepúsculo. E, embora a obra de Stephanie Meyer esteja longe de ser boa, para minha enorme surpresa, a leitura é até que fluida. Meyer está numa linha tênue entre o puro (e adocicado) romance e o suspense, e por mais que estes dois gêneros possam coexistir saudavelmente em certas obras, aqui causam um certo desequilíbrio.

A narração da protagonista incomoda no início – Meyer parece usar a garota para desferir o maior número possível de frases de efeito que conhece -, mas aos poucos fica mais natural. E por mais insultiva, fálica e nóxia que seja a “admiração” (um eufemismo) de Bella pelo “maravilhoso Edward”, revelando uma autora carente e deslumbrada que poderia perfeitamente escrever estes romances semieróticos extremamente açucarados, a ferramenta funciona quando entendemos que aquele charme irresistível de Edward tem um propósito fincado na Evolução – tais características o tornam um predador invencível. Bella, por sua vez, revela uma personalidade forte e madura, e ao mesmo tempo tipicamente adolescente – e assim suscetível. E, se por um lado, ela reage adequadamente aos fenômenos confusos que testemunha quando Edward está por perto, interrogando-o assim que tem a chance, por outro, Meyer falha ao tentar nos fazer acreditar que Bella é capaz de aceitar tão bem as respostas do mistério que o garoto representa. É inacreditável que uma garota tão responsável possa aceitar tão passivamente que o homem por quem está apaixonada seja uma criatura fabulesca. Afinal, apesar da fantasia, a trama parecia estar ambientada num mundo real (o nosso mundo, infinitamente mais cético do que o de cinquenta anos atrás) onde aceitar uma “revelação” dessas é impraticável.

Eu parei pouco depois disso. Apesar de tais absurdos, Crepúsculo tem a decência de oferecer uma narrativa rápida. Mas, a partir de agora, parece que a história vai deixar o tradicional um pouco de lado e se aprofundar no suspense.

Espero que ela não perca as qualidades que a fazem suportável.

Palavrão #4

17 17UTC Março 17UTC 2009

Em um dos episódios do livro de J.K. Rowling, o agradável Os Contos de Beedle, o Bardo, as “anotações” de Alvo Dumbledore falam sobre uma certa autora chamada Beatrix Bloxam, uma mulherzinha enjoativa que, preocupada com a influência dos contos de Beedle, publicava suas próprias versões “melhoradas”, culminando em trechos como:

“Então a panelinha dourada dançou de prazer – tim tirim tim – batendo seus pezinhos rosados! (…) A panelinha ficou tão feliz que se encheu de docinhos (…) ‘Mas não se esqueça de escovar seus dentinhos!’, gritou a panelinha…”

Hoje, terminei de ler o quarto livro da série As Crônicas de Nárnia, o episódio Príncipe Cáspian. Bom, a sensação que tenho é que Alvo Dumbledore está para J.K Rowling assim como Beatriz Bloxan está para C.S. Lewis.

Preparem as espadas, me condenem. Mas o texto de C.S. Lewis consegue ser tão insuportável quanto um único parágrafo escrito pela imaginária Bloxam. Não consigo entender como esta série de livros sobreviveu tanto tempo a ponto de se tornar um clássico literário.

Palavrão #3

11 11UTC Março 11UTC 2009

Depois de um fevereiro inteiro sem ler qualquer livro, semana passada comecei a ler a série As Crônicas de Nárnia.

Já conclui O Sobrinho do Mago e O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa.

O primeiro é extremamente infantil, como era de se esperar, e sem um único parágrafo de tensão – especialmente porque o próprio texto se sabota, já que à qualquer sutil expectativa de problema sério, Lewis acalma os muito jovens leitores com frases como “fulano de tal chegaria a rir disso anos mais tarde, em sua saudável e feliz velhice“. E se animais falantes são uma prerrogativa das histórias infantis, a primeira aparição de Aslam chega a ser absurda até mesmo em seu próprio universo fantasioso (o que explica por que uma legião de fãs defende a ordem dos livros de acordo com suas publicações, permitindo considerar aque  apresentação de Aslan acontece em O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa.) O único momento não ruim do livro é aquele em que o sobrinho do título ajuda sua mãe a recuperar a saúde, trecho este que quase consegue ser tocante. Quase.

E então encarei o livro que deu origem ao péssimo filme de Andrew Adamson. E compreendi que praticamente todos os defeitos do longa são culpa do material original que, por sua vez, e enjoativamente meloso. O que torna o sucesso e longevidade da série incompreensíveis.

ísto é, até o (até agora) excelente O Cavalo e seu Menino.

Mergulhado num tom muito mais sério e infinitamente mais tenso do que os dois primeiros livros, este terceiro volume se beneficia da agressividade de um povo miserável e da aventura de personagens que foram tomados de suas famílias ainda muito jovens e viveram anos de sofrimento desconhecendo sua verdadeira e nobre origem. Mas por mais que haja convenções, como quem é bom é muito bom e quem é mau é muito mau, até mesmo um dos mais básicos é conduzido de forma elegante, como o caso da menina que não simpatiza muito com o menino (e já sabemos que serão grandes amigos ou amantes no final): ela tem razões reais para ser, na verdade, cautelosa com ele, o que não a impede de tomar atitudes nobres como não deixar um companheiro para trás ou, mais nobre ainda, deixá-lo seguir em frente. E o próprio menino (o menino do título), embora criado miseravelmente e sem qualquer valor, tem sua própria nobreza de caráter, o que talvez remeta ao seu sangue real (revelação que certamente só acontecerá no final do livro, claro).

Estou feliz com a drástica mudança narrativa na saga de C.S. Lewis (embora ele não resista a mania de acalmar os leitores com frases revelando o futuro seguro dos personagens). E já sabendo que o filme Príncipe Caspian é muitísimo superior ao seu antecessor, imagino que a qualidade dessa série literária irá apenas aumentar no decorrer das páginas e volumes.

Forte esperança.

UP (12/03): Revi ontem a noite alguns trechos do primeiro filme da série e percebi, surpreso, que o longa-metragem consegue ser muito melhor do que o livro.

Sem título.

29 29UTC Janeiro 29UTC 2009

(O texto abaixo contém spoilers das obras comentadas).

Se for verdade que o início de cada ano estabelece a atmosfera dos próximos meses, não sei exatamente o que esperar. Embora saiba onde olhar.

Para mim, 2009 começou de um jeito inesperado, estabelecendo uma atmosfera que eu nunca  experimentei antes. E o mais estranho nisso é que tal clima começou por causa do filme Marley & eu e assentou em mim por causa de dois romances maravilhosos: o já citado As Cinco Pessoas que Você Encontra no Céu, e o agridoce Dear John, do ótimo Nicholas Sparks.

Com Marley & eu, eu chorei pela primeira vez em muito tempo. Não. Eu não chorei por causa da morte do cachorro, mas simplesmente, tristemente, e belamente… Por causa da velhice. Ver aquele cachorro… Veja bem, aquele cachorro, envelhecer, lentar, parar… Ver aquilo me destruiu.

E então As Cinco Pessoas… contou a história de Eddie, começando pela sua morte aos 83 anos. Simples assim. Mas a morte, honestamente, não me assuta, não me incomoda. O que me tocou com este romance foi a revisita que Eddie faz a sua vida, encontrando tudo o que já tinha perdido em meio as lembranças do cotidiano.

Um velho tão comum, tão banal, quem acreditaria que teve aquela história tão intensa. Curiosamente, este livro divide com Dear John um tema poderoso: a guerra e seus efeitos sobre um soldado. Quando encontrei Eddie na batalha, não pude deixar de admirar a sua força e a sua virtude, e ao mesmo tempo a coragem (tudo sensibilizado pelas atrocidades habituais desse cenário). Mas Eddie não pára por ai e em sua jornada ele não revive apenas momentos de sua vida, mas também sua velhice. Em sua primeira parada, ele é um jovem soldado cheio de vida e força, mas a cada parada depois disso, ele sente o corpo ficar mais frágil, mais flácido, uma dor surgir aqui, ali… Até tornar-se mais velho do que o próprio pai quando este morreu. Até tornar-se o velho que era quando morreu. O grande soldado que tornou-se velho aos trinta anos e viveu assim por mais cinquenta.

Mas agora estou lendo Dear John. Ainda não terminei, tive que parar em um momento crucial para não chorar no Metrô. Não quero falar muito sobre este livro agora. Basta dizer que John é um personagem tão errático quanto todos nós, e também um americano belicista.

Porém, um filho.

Um filho que foi criado por um homem que, mesmo sem saber ser vítima de Asparger, fez o melhor que pode para cuidar de seu garoto.

Jovem adulto, John conhece a bondosa e sábia Savannah, que se torna o grande amor de sua vida e de quem irá se separar durante alguns meses por causa de seu compromisso militar. A poucos meses de cumprir seu serviço, porém, acontece o 11 de setembro, e, por um impulso de patriotismo, John prorroga seu alistamento por mais dois anos. O que, como esperado, causa o fim definitivo daquela história de amor. Infelizmente, Sparks cometeu o erro de Savannah escrever uma carta de término para John enquanto este está em plena guerra do Iraque - algo que uma mulher táo sábia e carinhosa como ela jamais faria, por motivos óbvios. Assim, John fica sozinho no mundo, exceto pelo seu pai.

O homem bom e silencioso que, para medo do filho, está prestes a morrer.

Eu parei no último capítulo de vida do pai de John. Quando o filho o leva para viver em uma casa especial, onde receberá os cuidados para uma morte decente, algo que a vida solitária não permitiria. Porém, rotineiro com é, deixar sua casa, suas coisas, é uma tortura terrível para tal homem, o que deixa John em um grande dilema: fazer seu pai morrer em um lugar que o assusta, mas onde será bem cuidado, ou deixá-lo viver seus momentos finais no único lugar onde ele se sente seguro, mas onde pode morrer deitado numa cama molhada de urina? John toma a decisão que, para ele, parece a mais correta e leva seu pai para a tal casa de cuidados.

E as linhas que narram o medo e a tristeza daquele homem em deixar seu único lar… Mais do que velho, mais do que indefeso… Assustado com a certeza de uma morte próxima. E, sim, embora  John fuja dessa verdade, uma morte solitária. Sua bondade o leva a sacrificar seu espírito apenas porque sabe que deixará o filho mais tranquilo. E John vai embora, sem saber que era a última vez que via seu pai vivo.

E ainda falta quase 80 páginas para o final do livro.

Em meio a tudo isso, eu só consigo pensar nisso: na velhice. Na perda, na solidão. Só consigo pensar no triste momento em que as pessoas tão vivas e alegres que conheço hoje começarão a envelhecer, lentar, parar…

E se não fosse o bastante, hoje cedo, enquanto caminhava até o prédio da Criação, cruzei com um casal de velhinhos. Duas pessoas lindas, que certamente foram muito atraentes quando jovens, andando eretamente encurvados, orgulhosos, de mãos dadas, serenos, apaixonados, felizes. Rindo.

Eles estavam rindo. E ao passar por eles, não me contive. Cruzei a esquina tentando limpar as lágrimas que agora estão presas esperando por uma desculpa para escapar.

Como pode a coisa mais triste do mundo ser tão bela?

(E eu ainda tenho apenas 22 anos. Não entendo por que martelo tanto essa informação. E ainda tenho que enfrentar Longe Dela e O Curioso Caso de Benjamim Button. Além de Minha Vida Sem Mim, acho que um pouco fora do tema, mas já sei que angustiante.)

Palavrão #1

21 21UTC Janeiro 21UTC 2009

O primeiro post da série Palavrão será multi.

Aqui, comentarei ou apenas citarei livros que estou lendo no momento. Ou, neste primeiro caso, que acabei de terminar de ler.

Agora, em janeiro, li dois livros simultaneamente e um terceiro na última semana. Nada demais, considerando a fácil leitura que estas três obras oferecem.

- O guia do mochileiro das galáxias
- As muitas vidas de Robert Altman
- As cinco pessoas que você encontra no céu

O primeiro é, como eu esperava, divertidíssimo.
O segundo, além de muito divertido, é extremamente instrutivo e empolgante, e o mais interessante de tudo: me deixou com uma leve sensação de que Altman não é, em sua técnica, um bom exemplo a seguir (como assim não seguir o roteiro? Como assim abusar e praticamente só usar do improviso?). E mesmo assim o cara criou filmes (e bastidores) marcantes que angariam cada vez mais admiradores e seguidores. Há muito tempo eu adquiri um gosto especial pela narrativa multiplot (várias tramas paralelas, como 21 gramas, Magnólia, ou mesmo um filme mais convencional como Titanic, por exemplo) mas só agora percebi o quanto ela é fascinante.
O terceiro… merece alguns comentários à parte.

Prometo tentar publicar em breve.