Na violenta natureza sobrenatural

31 31UTC Agosto 31UTC 2009

Neste final de semana, tirei o atraso e assisti a quatro filmes que já deveria ter visto há algum tempo.

Crepúsculo
Violência Gratuita
Coraline e o Mundo Secreto
Na Natureza Selvagem

Um ruim, um bom, um ruim e um excelente. Assim, uma média ótima para a sessão.

Crepúsculo basicamente consegue o mesmo resultado do livro. Uma narrativa ligeiramente agradável, uma protagonista carismática e um protagonista… Apenas um pouquinho mais interessante que o original, mas imediatamente sabotado por um Robert Patinson sem graça e com uma beleza plástica artificial e mal aproveitada – qualquer rapaz rico, que se vista bem e tenha um cabelo fashion (!) (a cor é realmente ótima) atrairia mais atenção do que os demais. Agora, por que a a garota se sentiria mais atraida por ele do que pelo carismático Mike Newton ou pelo dócil e familiar Jacob Black, é um mistério – não, não é, os sanguessugas têm o “poder” predatório de atrair sensualmente as pessoas (leia-se: presas).

2-estrela

Mas o tédio (sim, fiquei entediado com Crepúsculo) logo foi substituido pela tensão e os nervos à flor da pele. Violência Gratuita não apenas é um exercício narrativo perturbador (a revira-volta no terceiro ato é um tapa na cara), como também um execício emocional angustiante. Em certo momento do longa, o simples enquadramento do personagem George sentado em uma cadeira ao lado de uma janela fez meu ar desaparecr, já que anos e anos de cinema-óbvio me ensinou a temer qualquer “entrada” para o vilão, especialmente quando a câmera se fixa num mesmo quadro por mais do que poucos segundos.

4-estrela

Infelizmente, Coraline e o Mundo Secreto não continuou o nível de Violência Gratuita, revelando-se um filme visualmente encantador (que cores maravilhosas!), com personagens muito agradáveis e basicamente divertidinho, mas que no final das contas não parece oferecer mais ou melhor do que outras obras do gênero (embora, curiosamente, eu não consiga comparar sua trama a qualquer outra).

2-estrela

Na Natureza Selvagem cumpriu e superou todas as expectativas. Deixei por último já esperando que fosse o melhor, e não me enganei. Angustiante desde a primeira cena, quando vemos a personagem de Marcia Gay Harden acordando abalada, é particularmente feliz com sua coleção de personagens, já que todos os indivíduos que cruzam o caminho do protagonista são belíssimos ao seu próprio modo; em especial a triste Jan, de Catherine Keener, que me comoveu profundamente em suas poucas e marcantes cenas.

(Kristen Stewtart, a Bella de Crepúsculo, também cruza a tela por aqui, provando ser uma atriz mais talentosa do que parecia no romance-vampiresco).

Mas o que mais me emocionou em Na Natureza Selvagem foi a narrativa em off de Jena Malone, que interpreta a doce e companheira irmã do protagonista e, assim, abre uma janela para sua família – sendo, além de tudo, outra vítima do abandono do rapaz. Tentando condenar a atitude do irmão ao mesmo tempo em que tenta se convencer de que o compreende, a garota assiste a gradual degradação emocional de seus pais, o que a faz sofrer ainda mais pelo desaparecimento do irmão.

E se a morte do viajante é aguardada desde o início da jornada, o modo como acontece confere um sabor agridoce ao desfecho, revelando-se ao mesmo tempo um anticlímax e um alívio, – eu, francamente, esperava por um destino violento, e confesso que fiquei feliz que a consequência final de sua aventura tenha sido tão branda, embora ainda dolorosa.

Contudo, o que mais perturba, angustia e fascina em Na Natureza Selvagem é pensar nos personagens que cruzaram a tela ao longo da projeção e que, por um tempo certamente indeterminável, devem ter esperado que aquele jovem encantador voltasse a suas vidas. Incluindo neste lista, a própria família do rapaz, eternamente condenada à dor de esperar por alguém que jamais irá voltar – e, pior, sem jamais ter certeza de quais foram os últimos sentimentos dele, se foram culpados até o fim ou se, antes do fim, conseguiram ser perdoados por erros que, de certa forma, eram inevitáveis.

5-estrela1


Do inconsciente ao subconsciente, passando pelo medo.

30 30UTC Agosto 30UTC 2009
Mauro Vilela Pietrobon

Uma coisa boa a precisar, antes de começar este post, é o seguinte: Eu sou uma das pessoas mais hipocondríacas que o mundo já conheceu. Mas não é nem que eu acho que eu estou sempre com uma doença, ou que se eu cortar o dedo, eu logo terei que amputar o braço. Minha hipocondria começou por aí, mas atualmente é algo bem mais complexo, e que ninguém conseguiria me persuadir de que eu estou errado.

As doenças que eu tenho certeza ou quase que eu tenho são todas de ordem psicológica. Já existia esse sentimento em mim, mas se intensificou depois de ler o artigo na SuperInteressante falando sobre psicopatia. Desde então, não é que eu acho, é que eu sei que eu tenho uma grande tendência à psicopatia.
Eu comecei a ficar mais controlado, atualmente, eu não começo a acreditar quando alguém me diz que eu posso ter alguma doença, mas fico com mais raiva da pessoa por ter colocado esse sentimento dentro de mim.
Aconteceu há pouco tempo com o Marcelo, eu comentei que eu tinha medo de todas essas coisas de ordem psicológica, e ele me disse “Você sabe que é possível que nenhum dos seus amigos existam, né?” E é óbvio que eu sei disso! É óbvio que eu já pensei muito mais nisso do que a maioria das pessoas, mas era uma coisa na qual eu não pensava fazia um bom tempinho já. Por ele ter recolocado (ou pelo menos tentato recolocar) essas ideias na minha cabeça, não é nem que eu comecei a acreditar mais, eu simplesmente aceitei que era possível (e até um certo ponto, provável) que isso fosse verdade, mas o meu maior sentimento na hora foi raiva dele! Eu quase decidi parar de falar com ele. Mas me controlei, falei pra ele não fazer muito isso, e continuei a vida normalmente.

Agora, uma das doença que sempre me incomodou bastante é…
a dupla personalidade

a dupla personalidade
Quer dizer, eu falo sozinho, eu falo muito, muito, muito sozinho! Eu chegava a falar sozinho na escola, na rua… Chegaram até dias que eu comecei a falar com duas vozes diferentes, como se fosse mesmo um diálogo. Sempre na consciência de que era eu fazendo as duas vozes.
Mas aí vem a parte do inconsciente, na história. Eu sonho umas coisas muito malucas, os meus sonhos quase nunca são “liguei pra minha mãe”, em geral têm começo, meio, um monte de problemas, e um fim. Isso não seria um problema tão grande, até porque eu sei que não sou o único a ter esses sonhos gigantescos. (Se bem que eu boto fé de que eu fui o único que conseguiu morrer mais do que dez vezes numa noite só!) 
Só que hoje, eu cochilei durante uns cinco minutos, e quando acordei, percebi (ou achei) que tinha sonhado, assim! Depois de despertar, até achei estranho aquele silêncio, pois meu sonho tinha até trilha sonora! E isso foi um sonho que não durou mais do que cinco minutos.
Isso foi hoje de tarde, não me preocupei muito com isso, não achei que pudesse ser um sinal de dupla personalidade, ou qualquer coisa do gênero; mas depois do que aconteceu mais tarde comecei a considerar que talvez fosse um sinal! Porque talvez eu não estivesse sonhando, mesmo, mas talvez outra pessoa estivesse cantarolando uma música, usando o meu corpo e a minha voz para isso, e quando acordei, achei que tivesse sido um sonho porque era o mais racional a se acreditar!
Mas acontece que hoje eu fui na dentista. E para isso, eu peguei um ônibus, e um livro. Eu estava na Alemanha, pós-primeira guerra mundial, quando de repente bateu um sono, mas um sono estranho, porque eu estava gostando muito da história, não tinha dormido particularmente mal de noite, e mesmo assim, estava com dificuldade para me manter reto na poltrona. Estava cambaleando, prestando atenção, para sentir quando o ônibus passasse por cima do viaduto, minha indicação de que era para apertar o botão para parar. Não senti o viaduto, e foi nessa hora que meu subconsciente fez uma pequena intervenção na minha vida, depois disso eu tive tempo de raciocinar e perceber que essa estranha passagem que meu inconsciente está fazendo, tentando mais e mais se aproximar do meu subconsciente, até virar parte da minha consciência é extremamente assustadora, porque isso com certeza será uma dupla personalidade, e se o inconsciente já está praticamente lá, no subconsciente, eu devo dizer que eu tenho medo! acordei com uma voz dizendo numa altura muito grande “SIM!” Ninguém tinha dito aquilo, vinha diretamente do meu subconsciente. Esse inconsciente que raramente aparece para mim, decidiu aparecer para me acordar. Eu acordei, li a placa da rua, e percebi que era a hora de apertar o botão, ainda extremamente intrigado pela maneira como eu tinha sido acordado, apertei o botão, e desci do ônibus. O ponto não tinha passado, eu apertei o botão segundos antes do ônibus quase passar reto por ele, e ele não passou pois eu fui acordado pelo meu subconsciente.
Ãhn?
Como meu subconsciente pode ter me acordado, sabendo que eu já tinha passado o viaduto, se nem meu consciente tinha a capacidade de saber, principalmente porque foi provavelmente a primeira vez que fiz esse percurso de ônibus nessa hora do dia, nessa velocidade?
Oi, eu sou o Mauro, e hoje minha segunda personalidade me acordou no ônibus.

Pagando bem… Putz, nem isso.

26 26UTC Agosto 26UTC 2009

TRÊS AMIGOS SE ENCONTRAM DURANTE O ALMOÇO:

WILSON
O que você está fazendo na vida, Roberto?

ROBERTO (ex-executivo da Pirelli)
Bem… Eu montei uma recauchutadora de pneus. Não tem aquela estrutura e organização que havia quando eu trabalhava na Pirelli, mas vai indo muito bem…

WILSON
E você, José?

JOSÉ (ex-gerente de vendas da Shell)
Eu montei um posto de gasolina. Evidentemente também não tenho a estrutura e a organização do tempo que eu trabalhava na Shell, mas estou progredindo… Mas e você Wilson?

WILSON (ex-publicitário da grande Agência)
Ah, eu montei um puteiro. Claro que não é aquela zona toda da Agência, mas já tá dando algum lucro…

———————————————————————-

Explicando a piada…

1 – Você trabalha em horários estranhos (que nem as putas);

2 – Te pagam para fazer o cliente feliz (que nem as putas);

3 – Seu trabalho vai sempre além do expediente (que nem as putas);

4 – Você é mais produtivo à noite (que nem as putas);

5 – Você é recompensado por realizar as idéias mais absurdas do cliente (que nem as putas);

6 – Seus amigos se distanciam de você e você só anda com outros iguais a você (que nem as putas);

7 – Quando você vai ao encontro do cliente você precisa estar apresentável (que nem as putas);

8 – Mas quando você volta parece que saiu do inferno (que nem as putas);

9 – O cliente sempre quer pagar menos e quer que você faça maravilhas (que nem as putas);

10 – Quando te perguntam em que você trabalha você tem dificuldade para explicar (que nem as putas);

11- Se as coisas dão erradas é sempre culpa sua (que nem as putas);

12 – Todo dia você acorda e diz: NÃO VOU PASSAR O RESTO DOS MEUS DIAS FAZENDO ISSO (que nem as putas).

13 – O pior é que a gente gosta !! (que nem as putas).


ourTunes #22(,5)

21 21UTC Agosto 21UTC 2009

A primeira vez que ouvi falar na banda americana Evanescence foi em meados de 2001/2002. Nesta época, eu tinha acabado de redescobrir Alanis Morissete e estava em busca de  outras cantoras, especialmente vocalistas femininas de bandas de rock. Curiosamente, nesta época surgiram para mim duas outras cantoras: Pitty e Avril Lavigne. Mas na época, não consegui ouvir nenhuma música do Evanescence. Isto finalmente aconteceu na época da produção do filme Demolidor – O Homem Sem Medo (do qual, confesso, gosto bastante) e, é claro, a primeira música que ouvi foi Bring Me To Life.

Alguns meses mais tarde, algo maravilhoso aconteceu. O surpreendente videoclipe de Bring Me To Life foi lançado. E a cena da janela me causou arrepios pela primeira vez.

como você pode ver através de meus olhos
como se fossem portas abertas?
conduzindo você até meu interior
onde eu me tornei tão entorpecida

sem uma alma
meu espirito dorme em algum lugar frio
até que você o encontre lá e o leve
de volta pra casa

(acorde-me) acorde-me por dentro
(eu não consigo acordar) acorde-me por dentro
(salve-me) chame meu nome e me salve da escuridão
(acorde-me) faça meu sangue correr
(eu não consigo acordar) antes que eu me desfaça
(salve-me) salve-me do nada que eu me tornei

agora que eu sei o que me falta
você não pode simplesmente me deixar
respire dentro de mim e me faça real
traga-me para a vida

(acorde-me) acorde-me por dentro
(eu não consigo acordar) acorde-me por dentro
(salve-me) chame meu nome e me salve da escuridão
(acorde-me) faça meu sangue correr
(eu não consigo acordar) antes que eu me desfaça
(salve-me) salve-me do nada que eu me tornei

traga-me para a vida
eu tenho vivido uma mentira
não há nada por dentro

traga-me para a vida

congelada por dentro
sem o seu toque, sem o seu amor, darling
só você é a vida entre a morte

todo esse tempo
eu não posso acreditar que eu não pude ver
preso no escuro
mas você estava lá na minha frente

eu tenho dormido há 1000 anos, parece
eu tenho que abrir meus olhos para tudo

sem um pensamento
sem uma voz
sem uma alma

não me deixe morrer aqui
deve haver algo a mais

traga-me para a vida

(acorde-me) acorde-me por dentro
(eu não consigo acordar) acorde-me por dentro
(salve-me) chame meu nome e me salve da escuridão
(acorde-me) faça meu sangue correr
(eu não consigo acordar) antes que eu me desfaça
(salve-me) salve-me do nada que eu me tornei

traga-me para a vida
eu tenho vivido uma mentira
não há nada por dentro

traga-me para a vida

5-estrela1

Mas isto não acabou.

Hoje, seis anos depois do lançamento de Bring Me To Life e o primeiro álbum, Fallen, a agora Amy Hartzler (sobrenome de seu marido) está trabalhando no terceiro álbum de estúdio da banda - ainda sem nome conhecido -, que será provavelmente lançado em 2010 (o que sugere um padrão, ou seja, 4º álbum só em 2015?). Assim espero, pelo menos.

Por enquanto, Amy nos agracia com pequenos lançamentos independentes da banda que a consagrou, como sua participação no Acústico MTV da banda Korn, cantando Freak On a Leash; a ótima versão de Sally’s Song, numa revisita à trilha sonora do filme O Fantástico Mundo de Jack, de Tim Burton; e, mais recentemente, sua participação no programa Legend & Lyrics, onde faz uma outra e belíssima parceria, apresenta uma música inédita (que será divulgada com o lançamento dos DVDs do programa) e ainda faz uma segunda revisita, mas desta vez a sua própria música: o debute Bring Me To Life.

Uma versão que, sem dúvidas, é a mais bela performance de sua carreira.

E detalhe para a “carinha” de senhora casada que ela está…
Fofa, fofa, como sempre. :)

congelada por dentro
sem o seu toque, sem o seu amor, darling
só você
é a vida entre a morte

acorde-me por dentro
acorde-me por dentro
chame meu nome e me salve da escuridão
faça meu sangue correr
antes que eu me desfaça
salve-me do nada que eu me tornei

traga-me para a vida
traga-me para a vida

5-estrela1


Eu quero dar-dar-dar.

9 09UTC Agosto 09UTC 2009

Mauro Vilela Pietrobon

Nossa… Conversa interessante na janta hoje.

Começou com dois amigos da família falando sobre teatro. Ele escreveu uma peça pra ela, falando mais ou menos sobre ela, enfim. E os dois ficaram falando sobre a peça: ela falando como a peça é maravilhosa, como o marido dela é um gênio, enfim. Ele falando mais sobre o teatro, mesmo.
Depois de um tempo, a conversa passou pra teatro, os dois falando como vida de ator é complicada. Meu pai falando que vida de ator é complicada, sim, mas que se um ator, além de ator, também escreve, fica mil vezes mais fácil. Minha mãe olhando pra mim, de vez em quando e pontuando “viu só no que você está se metendo?” –> não mudei de ideia, continuo querendo ser ator. Minha mãe falando que nem era me fazer mudar de ideia, a missão dela, mas que era pra eu ficar atento, ouvindo.
Depois de um tempo, a conversa foi mudando, avançando, mudando e mudando, até que teatro não seria mais nem uma “tag” se aquilo fosse um post.

Certo, teve uma hora que a conversa passou ao tema “mulheres e vida de casal”. (Nem um pouquíssimo surpreendente, já que minha mãe estava à mesa.) Acontece que exatamente essa pessoa: minha mãe, ela tem essa teoria de que a mulher faz uma coisa que ela chama de “dar”. Certo, existe um verbo sem conotação erótica que é “dar”, eu concordo, não é sempre que alguém diz coisas como
- Eu dei um livro pro meu pai.
que eu penso em sexo. Ainda bem, eu não tenho mais 12 anos. Bem, aí a questão, é que minha mãe diz que a mulher a.do.ra “dar”. Ou seja, ela gosta de fazer coisas pelos homens, pelos filhos, e ela gosta de, por exemplo, ir me buscar na bwatch às 5h00. Ela gosta de arrumar a cama pro marido, fazer a janta. Enfim, e é isso que minha mãe chama de “dar”. Eu continuaria não tendo problemas com essa expressão, se não fosse uma coisa, chegou um momento da conversa no qual minha mãe falou a seguinte frase, pontuando com muita força o verbo:
- Dar é muito bom! Dar é ótimo! Dar é a melhor coisa que tem! Os homens não imaginam como é bom dar! Dar é a melhor coisa do mundo! Dar é muito, muito, muito bom!


Nudez no espelho (ou ourTunes #21)

3 03UTC Agosto 03UTC 2009

A sensação de experimentar um relacionamento aberto é quente.

Às vezes confortável como um cobertor, às vezes emocionalmente agressiva como água fervente. Afinal, como lidar com o fato de que alguém com quem você tem um compromisso (independente da profundidade) precisa se satisfazer fisicamente com outra pessoa que não você, talvez apenas beijando, talvez apenas transando? É difícil e inunda nossa mente com suposições e imaginação. E por mais que haja um acordo, por mais que não se assuma o incômodo, o resultado é que os envolvimentos extras crescerão por um mero ciclo vicioso, onde cada parte se envolverá cada vez mais com  alguém de fora apenas por considerar que o parceiro ou a parceira já estará fazendo isso. E não importa que, à rigor, a prática seja a regra da relação.

Dito isto, não posso dizer que um namoro aberto seja a pior opção para duas pessoas que percebem gostar uma da outra,  mas sabem que, no momento em particular, não podem oferecer fidelidade. Porém, não posso defender que tal “liberdade” seja o melhor caminho. Há algo de especial no esforço de deixar a atração física por outra pessoa apenas no pensamento, pois a diferença entre fantasiar e satisfazer um desejo é a diferença entre lealdade e fidelidade. Todos desejamos outra pessoa, mesmo quando estamos com alguém que já esteve em nossas fantasias. Desejar a maçã não é o pecado original, você ainda pode escolher não mordê-la.

Ou pode não escolher ficar no jardim.

Há uma certa magia na estrada do amor-livre, do amar-solto, um estilo de vida que  qualquer um pode experimentar, mas que apenas poucos são capazes de saborear completamente, sem ferir ou morrer. Dizem que isto é fuga, que esta é a escolha pelo nada à dor, mas eu digo que não. Quem mais sabe o que te mata senão você? Quem pode jurar que roubar aquele beijo sabendo que será o único não é um autosacrifício?

Quem ama solto não foge do amor, se apaixona todos os dias por amores que já nascem impossíveis.

Quem ama solto não foge do amor, ama à primeira vista.

A cada piscar.

só deixo meu coração
na mão de quem pode fazer da minha alma
suporte para uma vida insinuante
insinuante anti-tudo que não possa ser
bossa-nova hardcore, bossa-nova nota dez
quero dizer, eu tô pra tudo nesse mundo, então
só vou deixar meu coração, a alma do meu corpo
na mão de quem pode

na mão de quem pode e absorve
todo céu, qualquer inferno
inspiração de mutação
da vagabunda intenção
de se jogar na dança absoluta da matança
do que é tédio, conformismo, aceitação
do fico aqui, vou te levando nessa dança

submundo pode tudo do amor
pode tudo do amor

porque não quero teu ciúme que é o cúmulo
ciúme é acúmulo de dúvida, incerteza de si mesmo
projetado, assim jogado como lama anti-erótica
na cara do desejo mais intenso de ficar com a pessoa

e eu não tô à toa
eu sou muito boa

eu sou muito boa pra vida
eu sou a vida oferecida como dança
e não quero te dar gelo,
jealous guy

vê se aprende, se desprende
vem pra mim que sou esfinge do amor
te sussurrando: decifra-me… decifra-me…

só deixo minha alma, só deixo o coração
só deixo minha alma na mão de quem pode

só deixo minha alma só, deixo meu coração
na mão de quem ama solto

eu vou dizendo que só deixo minha alma
só deixo meu coracão
na mão de quem pode fazer dele
erótico suporte
pra tudo que é ótimo
fator vital

4-estrela


102

2 02UTC Agosto 02UTC 2009

Mauro Vilela Pietrobon

Este aqui será, possivelmente, o post mais curto e menos enriquecedor sobre minha personalidade que eu farei neste blog! Mas ele se mostra extremamente necessário depois do último post que eu fiz por aqui. O último post que eu fiz aqui, como os leitores assíduos devem bem lembrar, foi o post no qual eu falava sobre a ortografia da palavra Parati, eu falei e falei, para chegar à conclusão simples de que Y é uma letra horrível e nem um pouco brasileira, que merecia ser excluída de qualquer nome de qualquer cidade que existe no nosso bonito país. Mas acontece que, uma (imagino que) leitora do blog viu este bendito post e provavelmente se sentiu na obrigação de me mostrar que não existe, no nosso vocabulário, nada de mais brasileiro que o Y:

Na verdade o Y não tem nada de americano mas de indígena… Sem contar que é a vogal no vocabulário espanhol usado para os sons das línguas indias da américa latina. rs Beijos.

Eu me senti até meio mal por ter feito um post SÓ pra reclamar dessa forma de escrever o nome dessa bendita cidade. Por isso me senti obrigado a fazer um post dizendo que, agora que a Juliana Chu me ajudou a abrir os olhos, posso escrever sem nenhum peso na conciência:
PARATY!


Palavrão #10

28 28UTC Julho 28UTC 2009

Em abril, eu li o primeiro volume da saga Luz e Escuridão, o abaixo-da-média mas suportável Crepúsculo. Um livro repleto de defeitos, mas suficientemente divertido para prender a atenção. Desde o início, porém, uma coisa me incomodou, e muito: aquele tal vampiro Edward Cullen. Um dos heróis (?) mais irritantes que já conheci. Uma criação literária “construída” às pressas, sem qualquer equilíbrio e inesperadamente unidimensional – afinal, ele tem conflitos o bastante para ser definido como um personagem complexo. E se isto não fosse ruim o bastante, a agradável Bella (uma ótima personagem a maior parte do tempo) perde todas as suas qualidades quando chega perto do imortal, tornando-se uma pirralhinha deslumbrada (“oh, aquele peito de mármore branco e frio como gelo, oh”!).

Para a minha grande surpresa, porém, são justamente estes defeitos irritantes que tornam Lua Nova, o segundo volume da saga, uma obra infinitamente superior ao capítulo original. E não poderia ser diferente já que, logo no terceiro capítulo, Edward Cullen vai embora de Forks e deixa Bella para trás. Sozinha, abandonada e mergulhada numa profunda depressão.

Mas não por muito tempo. Porque poucos capítulos depois, Bella se aproxima de seu amigo de infância, o índio Jacob Black, um garoto carismático, divertido, bondoso, bonito e… lupino. Pois Jake Black nada mais é do que um lobisomen, o inimigo natural dos bebedores de sangue.

A reviravolta não é exatamente uma surpresa, já que foi “anunciada” para os leitores desde a metade inicial de Crepúsculo, mas o modo como acontece e interfere na dinâmica Jake-Bella merece alguns elogios. Além disso, a tensão sexual entre eles é palpável e muito mais natural do que o romance impulsivo e apressado da garota com o Frio, já que o lobo não exerce o mesmo tipo de “domínio” sobre a garota, que se apaixonou por Edward não por um amor genuíno, mas porque é isto o que vampiros provocam nos seres humanos (o interessante elemento que os transforma em predadores formidáveis). O resultado é que a idéia de Bella abrir mão da eternidade para viver com o calor de Jacob é muito mais atraente do que o plano de abandonar a vida para mergulhar sem reservas no frio mundo da imortalidade.

Da mesma forma, assim como no episódio anterior, a calda de açúcar dos momentos românticos (que aqui já considero calda de chocolate) divide espaço com momentos de suspense. E bom suspense, diga-se de passagem. Não apenas a “participação especial” de um determinado vampiro na clareira, que funciona como mera introdução para o reencontro de Bella com o “fantástico”, como também a expectativa alarmante a respeito da presença de uma perigosa inimiga em busca de vingança. Por outro lado, o suspense envolvendo a transformação de Jacob é uma enrolação já que sabemos desde o início o que está acontecendo, e esperar que Bella descubra a verdade é um exercício de paciência.

Mas Luzes e Escuridão é vendida como uma “saga de vampiros” e não de lobisomens (apesar da presença marcantes deles) e, é claro, independentemente do destino plajenado por Meyer, os Cullen não poderiam ficar de fora da história por muito tempo. Assim, não é nenhuma surpresa que a divertida irmã de Edward  reapareça repentinamente no “ato final” do livro, e por mais que seja interessante a reviravolta envolvendo um trágico mal-entendido, a sensação de queda é inequívoca e nada elogiosa, já que me refiro ao retrocesso na qualidade da história e não a uma boa reação de susto provocada por uma sequência particularmente bem escrita (lembre-se do Avada Kedavra no Alto da Torre de Astronomia em Harry Potter e o Príncipe Mestiço e entenderá). E não me refiro apenas ao retorno de Edward Cullen, mas também a própria narrativa, extremamente prolixa em toda a sequência na Itália, algo que Stephenie Meyer deixara de cometer nos capítulos anteriores.

E como Meyer não se contenta em estragar a história que finalmente tinha tomado o rumo certo, ela ainda destrói qualquer relevância que a trama poderia ter, o que acontece perto do final, quando  Edward impede com uso de força física que Bella se despeça de seu melhor amigo – o que não é apenas moralmente desprezível, mas uma verdadeira ameaça emocional para as milhares de garotas adolescentes que enxergam em Edward Cullen a imagem do companheiro ideal.

4-estrela


I have.

28 28UTC Julho 28UTC 2009

O que dizer num reencontro com alguém que você não vê há quatro anos? E se você ainda for apaixonado depois de todo esse tempo?

Há cerca de quatro meses eu conheci uma pessoa com quem comecei a sair. Alguém mais jovem do que eu, numa curiosa e divertida inversão de papéis, pois me lembro que meus relacionamentos mais interessantes aconteceram quando eu tinha meus dezesseis e dezessete anos e, sempre, com pessoas mais velhas – às vezes cinco anos, ás vezes dez, uma vez mais de… Uhmmm, deixa pra lá. Na véspera de completarmos um mês desde o primeiro encontro, fui pedido em namoro. E às vésperas de completarmos três meses de namoro, fui “terminado”. Foi um relacionamento breve, mas gostoso. Fico feliz em poder dizer que namorei uma pessoa realmente boa – e com amigos fantásticos, diga-se de passagem.

Mas o que esse olho-de-furacão tem a ver com o reencontro mencionado no início deste post? Provavelmente nada, exceto que chegadas e despedidas tendem a trazer nostalgia à tona. E com a nostalgia, vem a memória e com a memória a análise, a autodescoberta.

Li recentemente um certo comentário sobre amor dizendo que podemos amar várias pessoas na vida, mas não ao mesmo tempo.

Não ao mesmo tempo.

Não. Isto não é verdade. Pelo menos, não se aplica a mim.

Afinal, quem ousaria dizer que o sentimento que tive por duas pessoas nos últimos quatro anos não foi amor? Quando, ao mesmo tempo, eu ainda alimentava aquele amor por um alguém ausente… Eu nunca parei de amar esta presença do meu passado. E isto não me impediu de me apaixonar novamente.

Assim, a verdade que pode machucar, principalmente quem se identifica com ela, não é “Love… I have for you”.

Apenas… “I have”.


101

18 18UTC Julho 18UTC 2009

Bem, eu fui parar em Paraty porque depois de um bom tempo, minhas duas irmãs estavam aqui por São Paulo, e já que os outros três (papai, mamãe e o filhinho: eu) também, mamãe decidiu nos levar todos a Paraty para termos mais uma viagem juntos (já fomos a Buenos Aires todos juntos, eu nem preciso dizer que foi bem mais emocionante).
Chegando lá, nós todos ficaríamos em uma pousada que era super simpática, super limpinha, enfim. Uma beleza. Na viagem deu tudo certo, ontem finalmente os jovens sairam para farrear, por mais que os dois menores optaram por partir mais cedo. Enfim… Se deu tudo certo, por que diabos eu estaria escrevendo um post sobre essa coisa de viagem?
- Quer dizer: uma viagem onde tudo deu certo, quantas vezes já não vimos isso acontecendo?
Por um simples motivo: O nome dessa joça de cidade…Paraty. Paraty. PA.RA.TY.
Mas que raiva que eu tenho desse nome! Pior que isso só os que são do nível de “Juquehy”. Vocês, meus amigos brasileiros, não concordam plenamente comigo sobre o fato de o nome dessas cidades ficar bem melhor quando escrito “Parati” ou “Juqueí”?!? Quer dizer, é querer MUITO pagar de americano colocar nome com Y quando essa porra dessa letra nem existia no nosso vocabulário antes dessa maldita reforma ortográfica!
Tudo isso para dizer: Vou continuar escrevendo PARATI sem peso na conciência, e vou continuar barrando o Y sempre que eu for fazer um post desta natureza!

Mauro Vilela Pietrobon


Apresentação.

8 08UTC Julho 08UTC 2009

Bem, todos sabemos que, apesar de ser uma coisa super clichê e super boba, é ainda assim, super necessário que nós nos apresentemos no nosso primeiro post!
Bem, eu sou um autor novo, aqui pelo Continuação., e por isso, acho que deveria começar por me apresentar adequadamente.

Bom, comecemos pelo começo: eu tenho um blog paralelo a esse (não, meu nome não é a parte mais importante!) E o tal blog se chama Onde as nuvens acabam… (é um nome super deprimente prum blog super feliz, não reparem). E por lá, eu tenho toda uma bagunça com os meus nomes, que eu fico alterando de assinatura, e volta e meia as pessoas não entendem mais grande coisa. Bom, verdade seja dita, não entendiam grande coisa. Mas agora, que eu coloquei um pequeno resumo de como são os nomes lá na coluna da esquerda, está tudo mais fácil para todo o mundo.
Mas não estou aqui para falar sobre o meu outro blog, mas sim para falar sobre:
1. Como eu vim parar aqui.
2. Quem caralhos sou eu, afinal.
Bom, já que uma coisa meio que é ligada na outra, vou responder às duas questões ao mesmo tempo:

Oi, eu sou o Mauro. (essa é a hora que todos à minha volta têm que dizer “Oi Mauro!”) e… eu acho que eu nunca comi um peixe.
(Leia-se: “Oi, eu sou o Mauro, tenho 16 anos e amo Procurando Nemo).
Eu ainda estudo e estou planejando ser um ator, no futuro. Certo, a parte interessante sobre a minha pessoa:
- Eu sou apaixonado por cinema, logo eu vou muito ao cinema. Indo muito ao cinema, eu acabei conhecendo o “Noitão do HSBC Belas Artes”, e ao ir nesse tal evento, eu comecei a participar ativamente (muito ativamente) da comunidade no Orkut. E de lá, eu conheci várias pessoas, entre elas o tal do Achilles de Leo, dono original deste bendito blog. Depois de começarmos a sair, e nos conhecermos bem melhor, acabou que eu fui chamado para ser o segundo autor deste.
E é isso que eu estou fazendo aqui. Caso vocês não gostarem do jeito que eu escrevi este post, desistam de continuar me lendo, porque, queiram vocês ou não, é assim que eu escrevo!

E bom, eu passarei aqui de vez em quando, falando coisas relativamente aleatórias! Não vou postar tanto quanto no Onde as nuvens acabam…, mas vou postar um pouquinho, ainda assim!

Espero que vocês gostemapontando eu!

 

Mauro Vilela Pietrobon

ps: um dos meus vícios de escritura é não pular linha pra parágrafo, espero que não incomode muito.


.Apenas o Fim. (Matheus Souza)

24 24UTC Junho 24UTC 2009

Apenas o Fim é um bom filme. Mas apenas bom.

Escrito e dirigido por Matheus Souza e realizado por alunos da PUC-Rio, o filme remete a outros longas que, por sua vez, já representavam interessantes experiências cinematográficas.

Se o roteiro subverte o conceito do único-encontro-de-um-casal, consagrado por Antes do Amanhecer, e narra o encontro-derradeiro de “Ele” e “Ela”, casal de namorados que está se separando subitamente (comentarei sobre os nomes mais tarde), é a cargo da direção que fica a maior parte das referências, nos levando a filmes como Elefante (o tour por uma instituição de ensino), Apenas Uma Vez (a câmera na mão, os “nomes” do casal e, por que não, o próprio título) e Corra, Lola, Corra… Sim, Apenas o Fim faz referência clara ao longa de Tom Tykwer, interrompendo a narrativa com flashbacks que sempre mostram o casal conversando – o que é mais do que natural já que a história concebida por Matheus Souza não passa de uma boa desculpa para citar (ou homenagear, dependendo do ponto de vista) os maiores clássicos das culturas pop e nerd.

No início da projeção, Ela aborda Ele abruptamente, informando que está de partida e que tem apenas uma única hora para conversar com ele, terminar o relacionamento e se despedir. E durante a hora e meia seguinte de projeção (o tempo é estendido pelos flashbacks), nossa grande dúvida é “o que a fez tomar esta decisão?”.

Independente do resultado ou da resposta, o fato é que este é o grande fio condutor da história, o principal elemento que prende nossa curiosidade, pois fica claro que o caminho escolhido por Ela só pode ser resultado de algo que muitos são incapazes de fazer: ousar ou desistir.

Infelizmente, porém, o roteiro de Matheus Souza ignora a possibilidade de explorar este elemento e parece acreditar demais na “genialidade” de seus diálogos, resumindo a narrativa a uma série de conversas onde o casal cita ou discute uma infindável herança da juventude dos anos 90-2000, desde Pokemón, Power Ranger ou boy band prediletos até shows históricos de grandes bandas de rock. O que, nem preciso dizer, data a produção e limita drasticamente o público-alvo.

Contudo, Souza acerta em cheio na escolha dos atores que interpretam o casal de protagonistas, Erika Mader e Gregório Duvivier, já que a química entre eles é perfeita e ainda corretamente contrastante: nos flashbacks, eles são um casal romântico e profundamente apaixonado, durante o passeio, estão mais distantes e prontos para “lavar a roupa suja”, o que não nos impede de enxergar ali os reflexos da paixão que eles ainda sentem e da dinâmica gostosa que sempre tiveram (a única ressalva é sobre Duvivier, que oscila demais entre a naturalidade e a clara intenção de fazer graça).

Enfraquecido pela interrupção excessivamente longa feita por dois personagens colegas de Ele (cenas que deveriam ter durado no máximo 30 segundos) e seriamente prejudicado pelas referências metalingüísticas (o casal passa por um set de gravação que conta a história… deles), o resultado é que Apenas o Fim termina sem mostrar a que veio, já que a despedida do casal jamais soa verdadeira ou definitiva, parecendo ser uma simples peça pregada por Ela (ou “joguinho”), e ainda falhando em não explicar as motivações da garota. Além de não funcionar sequer como romance, deixando de lado o alcance dramático de uma despedida em prol das piadas e diálogos nerds.

Da mesma forma, se o casal dramático do maravilhoso Apenas Uma Vez se torna ainda mais real graças ao fato de jamais conhecermos seus nomes, algo reforçado pelos créditos finais onde lemos apenas “Guy” e “Girl”, aqui o efeito não é o mesmo (principalmente porque, ao longo do filme, ouvimos o nome pelo menos do rapaz), pois as personalidades e histórias dos protagonistas são exclusivas demais para nos identificarmos plenamente.

O que é uma pena, pois não apenas Ele e Ela formam um casal realmente interessante, merecendo a chance de um “reencontro”, como também Matheus Souza revela-se um diretor tecnicamente competente, acertando em algumas composições de quadro e na coerografia em cena (como quando coloca Ela sozinha em meio a escombros de uma reforma, salientando sua fase de transição), embora falhe em nem sempre utilizar seus conhecimentos em favor da narrativa – como fica evidente na cena em que o casal é enquadrado na escadaria através de um bom plano plongé: o uso de câmera é atraente, mas não contribui para construir o sentimento da cena em questão e apenas chama a atenção para si. Ao contrário da gostosa trilha sonora de Pedro Carneiro, que é sutil e ao mesmo tempo marcante, sempre acentuando os melhores momentos da projeção.

Assim, Apenas o Fim é um esforço cinematográfico até respeitável, influenciado por obras maiores e melhores, mas que jamais alcança o mesmo impacto que elas. Ainda assim, é um bom filme, claramente feito com carinho e nostalgia e também intimidade, nos fazendo acreditar que, apesar do tradicional “este filme é uma obra de ficção…” durante os créditos finais, é na verdade uma grande homenagem não a filmes clássicos ou a saudades da juventude, mas sim a alguma paixão que se tornou relacionamento e foi vivida com simplicidade, cumplicidade e intensidade, mas que acabou, como muitas outras acabaram e muitas outras ainda irão.

E apenas isso parece ser o bastante para transformar um projeto repleto de defeitos em uma obra que, no final das contas, merece ser vista e agraciada.

4-estrela


HSBC Belas Artes

22 22UTC Junho 22UTC 2009

Espaço consagrado em São Paulo para o circuito cult cinematográfico, o HSBC Belas Artes oferece experiências ímpares para os amantes da Sétima Arte, incluindo um projeto que literalmente transforma os espectadores em “Cinéfilos de Carteirinha” (o vantajoso Cineclub) e os mensais Noitão e Encontro – noites especiais onde podemos, respectivamente, encarar uma maratona de filmes noite afora, pelo preço de um ingresso convencional e direito a um modesto café da manhã, ou assistir a uma sessão de filme nacional (ou co-produzido) e em seguida participar de um debate com alguns dos realizadores.

Neste último mês, participei pela primeira vez dos dois projetos noturnos.

No Encontro, mergulhei na mente solitária e confusa do ghost-writer José Costa no ótimo Budapeste, para em seguida ouvir diretamente de Leonardo Medeiros e Walter Carvalho suas impressões e experiências na realização do longa, uma série de comentários que enriquecem ainda mais a produção.

4-estrela

Já no último final de semana, enfrentei a fria noite paulistana pós-Dia dos Namorados com os bons A Onda e A Comunidade e o fraco Nathalie X.

E entre estes três longas (a noite ainda exibiu Tinha Que Ser Você e o filme-surpresa-inédito-pela-primeira-vez Paris, que não vi), não deixa de ser curioso constatar que o melhor deles é o absurdo A Comunidade, ricamente divertido e repleto de reviravoltas, ainda beneficiado por uma direção segura (não consegui ver o nome do diretor de Álex de la Iglesia) que reconhece estar contanto uma história recheada de bizzarrices.

5-estrela1

Em contrapartida, o bom A Onda não passa disso, um bom filme, mas que acredita ser muito melhor do que é na realidade, errando principalmente por desenvolver uma complexa experiência psicológica em um período muito pequeno dentro da história, o que destrói nossa identificação com a trama, e ainda caindo no equívoco de explicar certas cenas que seriam beneficiadas justamente pela sutileza, como quando três garotos são chamados de “gangue” por dois colegas anarquistas – além do final melodramático que poderia ter ficado de fora no corte final.

3-estrela

E então surge Nathalie X para encerrar a noite, um filme excessivamente carregado de diálogos, o que definitivamente não é um defeito quando o filme oferece um texto elegante (vide Closer, Antes do Põr-do-Sol), mas que aqui apenas constrange pela fracassada aura de sensualidade e sexualidade e que se torna ainda pior pelo final previsível desde o segundo ato. O que é uma pena, pois este poderia ser um bom filme sobre as consequências do sexo fora do casamento e a libertação de uma mulher tradicional.

1-estrela

O resultado é que meu primeiro Noitão foi uma experiência que fica entre média e boa, e que poderia ter sido claramente melhor caso os realizadores não tivessem decidido ignorar o forte tema da semana (Dia dos Namorados). Pois havia duas formas de oferecer uma noite perfeita: exibindo filmes todos românticos e interessantes, que prendessem a atenção dos casais e os solitários, ou então filmes amadores e irritantemente chatos do interior da Polônia… Seria a desculpa perfeita para esquecer o telão iluminado e passar seis horas inteiras se agarrando com uma companhia atraente.


Antes do Amanhecer (Richard Linklater)

22 22UTC Junho 22UTC 2009

(A resenha abaixo foi escrita para o Curso de Teoria e Linguagem Cinematográfica do Cinema Em Cena, ministrado pelo crítico e cineasta Pablo Villaça. O texto está intocado, ainda sem as correções apontadas pelo professor.)

Com o perdão da palavra, Celine é uma vaca. Mulher culta, inteligente, independente, nitidamente sensível à paixão, mas que faz questão de não parecer romântica. Onde, aliás, falha completamente, e exemplo disso é ela zombar do gesto romântico do rapaz que está conhecendo, embora se convença facilmente pelas palavras de uma charlatã, quando a mulher está claramente usando o método da leitura fria – que, confesso, não sei se era tão conhecido há quinze anos. Ou seja, uma não-romântica crédula? Impossível!

O rapaz? Bom, Jesse é só um moleque americano que atravessou o Atlântico para encontrar a garota que namorava à distancia, mas levou um fora. E então conheceu uma garota francesa atraente, culta, inteligente e, provavelmente, disposta a transar com ele. Perfeito para ele, não? Não. Ele quer – e muito – transar com a garota, mas isto não será o bastante porque ele é um… Romântico chorão que precisa se apaixonar por alguém.

Esta é uma das leituras que podem ser feitas do casal de Antes do Amanhecer, uma versão talvez injusta do casal que, surpreendentemente, considerando os dois parágrafos acima, é responsável por um dos poucos encontros absolutamente românticos que o cinema exibiu nas duas ultimas décadas (provavelmente estou me referindo a Antes do Pôr-do-Sol, mas okay). Isto porque Jesse e Celine, mais do que “personagens” dentro de algum estereótipo (a feminista, o carente), são dois jovens em plena descoberta da própria personalidade e, por isso mesmo, suscetíveis a mudanças, influências, mas tentando mostrar uma imagem de estabilidade que ainda não existe (a mulher questionadora, o homem que percebe a verdade).

Aos poucos, porém, Jesse e Celine vão deixando de lado as questões mais políticas e filosóficas, entrando em um terreno mais pessoal, íntimo, lentamente se abrindo, expondo, um para o outro. Eles não apenas começam a realmente confiar um no outro, mas em si mesmos. E, dessa forma, um acaba enxergando no outro o cúmplice perfeito. E um amante perfeito.

E é aqui que Antes do Amanhecer queria chegar… À verdade. Porque por mais que haja atuação, por mais que haja mentiras, entre dois estranhos há sempre um tipo de verdade que nenhum longo tempo de convivência pode descobrir. Mas uma verdade que tem a curiosa capacidade de desaparecer caso a vida permita que estes dois estranhos fiquem juntos por mais tempo – uma propriedade indispensável, diga-se de passagem. Afinal, quem suportaria viver com alguém que o conhece tão profundamente?

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Em pedaços – O Conto

7 07UTC Junho 07UTC 2009

(O conto abaixo ainda está em sua primeira versão e, por isso, pode apresentar erros)

Lucas nasceu em 22 de junho de 1992, o dia mais frio do ano, a noite mais escura do ano. Sua mãe, Clarice, lhe deu à luz em baixo de uma ponte, sozinha, e amou seu filho imensamente, enquanto viveu. A mãe de Lucas foi encontrada morta ao amanhecer. Seu filho, ele não estava mais ali.

Clarice jamais foi identificada. Ninguém nunca soube que aquela mulher morta viera do interior do Rio Grande do Sul à procura do homem que a engravidara. No pôr-do-sol que precedeu aquela fria noite de junho, Clarice o encontrou. Ele, noivo e com a futura esposa grávida de dois meses, sentiu uma grande dor em sua alma ao pedir que Clarice mantivesse segredo sobre o bebê, garantindo que ele lhe pagaria uma gorda pensão… Inconformada com a frieza que enxergava no homem por quem se apaixonara, embora não soubesse o quanto ele se entristecia consigo mesmo, Clarice declarou entre lágrimas que iria embora e que ele nunca mais ouviria falar nela. E ele nunca mais ouviu.

Clarice caminhava sozinha e solitária pelas ruas da cidade, ela passava por uma alameda embaixo de uma ponte quando um homem a assaltou. Com o susto, ela entrou em trabalho de parto. O assaltante, desesperado com a conseqüência de seu desespero, pensou em ajuda-la, mas optou por fugir com sua bolsa e lamentar até o fim por sua covardia, um fim que chegaria exatos dezesseis anos depois, com uma redenção.

Mas ainda naquela noite fria de junho, uma certa senhora, de idade avançada e muito doente, tivera uma crise de dores e fizera sua neta sair no meio da noite para comprar-lhe remédios, mesmo que precisasse acordar o farmacêutico. A menina também se chamava Clarice.

No meio do caminho, ao atravessar uma ponte, Clarice ouviu um choro de criança e, ansiosa, acabou encontrando a fraca mulher com seu pequenino filho sujo, ensangüentado e gelado nos braços. Uma poça de sangue, muito maior do que o derramamento comum a um parto, marcava um circulo grande em volta dos dois. A mãe morreu com um sorriso assim que viu o sorriso piedoso da estranha que se agachava a sua frente, mas não antes de sussurrar um nome de menino. E, de seus braços já frouxos, o bebê foi recolhido.

Clarice voltou para casa imediatamente, mostrando a criança para a avó, que ficou tão perturbada e tão irritada, que acabou desmaiando, fazendo a neta pensar que havia morrido por causa do coração fraco. Assustada, Clarice correu porta afora com o bebê Lucas nos braços. Ela correu e correu, sentindo o frio penetrar seu corpo e uma tristeza dolorida invadir seu coração, pois ela amava sua avó. Por alguma razão sombria, porém, Clarice sabia que amava aquele bebê em seus braços e, por esta razão, a decisão que tomou a seguir foi a mais difícil que, embora ela não soubesse, ela jamais tomaria em toda a sua longa e melancólica vida.

Clarice abandonou Lucas. Ela o deixou nos braços de um médico que ela viu sair de seu carro, pronto para iniciar mais um plantão no hospital do bairro, e saiu correndo, antes que o homem pudesse chamar alguém que fosse atrás dela. A única coisa que Clarice disse naquele brevíssimo encontro, olhando nos olhos surpresos do médico, foi: “Lucas”. E então voltou para a casa, onde encontrou a avó gemendo no chão. Clarice cuidou dela, pedindo a Deus que aquele médico cuidasse bem de Lucas, assim como ela cuidaria daquela velha, uma senhora ranzinza e sofrida que apenas no leito de morte confessaria o quanto amava a neta e o quanto era agradecida por toda a sua dedicação.

No estacionamento do hospital, o homem demorou alguns instantes para perceber que aquela mulher não o conhecia e que “Lucas” se referia à criança, e não a ele. Pois o nome do médico também era Lucas.

Lucas correu para dentro do hospital, carregando o fraco e gelado garotinho, incapaz até mesmo de chorar, e, aos gritos, foi solicitando um ou outro serviço dos outros médicos, enfermeiros e assistentes de plantão. Poucos minutos depois, o bebê Lucas estava dentro de uma incubadora, recebendo luz, calor e leite. O médico Lucas, cardiologista, era um homem frio e solitário e, para a surpresa de todos, foi diariamente à maternidade para ver o garotinho. Mas ao final de duas semanas, quando este já estava fora de perigo e sendo encaminhado para assistência social, o médico se despediu dele com um leve carinho na testa e saiu de férias. Todos acreditaram que homem fosse se sensibilizar e pedir a adoção do garoto, mas o médico jamais voltou a procurar pela criança, limitando-se a um casual pedido de informação ao retornar das férias.

A esta altura, o pequeno Lucas já estava na maternidade da Casa de Santa Clara, uma instituição social comandada pela médica e Madre Superiora Anne, uma religiosa inglesa formada em medicina pediatra. Madre Dra. Anne era uma mulher dócil, bondosa e cheia de sabedoria, e cuidou pessoalmente do pequeno Lucas, assim como cuidara de seu pequeno e doente irmão caçula, de mesmo nome santo, que morrera ainda na inocência da infância há tantas décadas. Lucas cresceu forte e saudável, vendo na Madre Dra. Anne a imagem de mãe que ele não compreendia, apenas sentia, e ambos foram tão próximos quanto suas posições permitiam que fossem, até que a senhora, médica e mãe de Lucas, quebrou uma promessa e não foi ao seu quarto certa noite contar uma história. Lucas tinha três anos quando, sem se lembrar de como era perder uma mãe, chorou esta dor pela primeira vez.

A Casa de Santa Clara mudou após a morte de sua líder, mas não para pior. O cargo da Direção foi assumido por outra médica, Dra. Clara, assim como a santa. Uma mulher muito boa e inteligente, mas, diferentemente da santa, e de Anne, era atéia. Ela, porém, não recriminava as crenças religiosas das crianças, incentivando pequenos rituais que envolviam, por exemplo, Papai Noel e Coelhinho da Páscoa. E embora não permitisse Educação Religiosa nas aulas, não se importava que as crianças freqüentassem a missa. E com o tempo, as quinze crianças, meninos e meninas de várias idades, aos poucos foram dividindo espaço com garotos e garotas mais velhos, adolescentes e, embora elas não pudessem entender imediatamente, a verdade é que aquela mudança em particular moldaria e beneficiaria suas vidas até o fim. E, principalmente, permitiria que cada uma delas vivesse ali todo o tempo de sua juventude, até que finalmente tomariam para si suas próprias vidas.

Embora educado, inteligente e bondoso, repleto de amigos e amado por todos, Lucas crescia e vivia na renovada e reformulada casa como costumamos vivenciar férias numa casa de praia ou campo, sabendo que aquele não é nosso lar, sabendo que logo será apenas uma lembrança. Ele tentava explicar esse sentimento para si mesmo, alegando acreditar que apenas quando fosse adotado teria um lar definitivo. Mas mesmo que Lucas jamais tenha sido adotado, jamais tenha deixado de morar naquela casa, embora os anos se passassem sem trégua, sem calma e sem paradas, ele nunca deixou de sentir que sua casa, seu lar, estava em outro lugar. Mas Lucas nunca ansiou. Nunca reclamou. E viveu cada um de seus dias feliz, saudável, amoroso, apreciando aquela temporada de férias que durava todos os meses do ano, todos os anos da infância e, então, cada uma das fases de sua juventude.

E foi na juventude que Lucas começou a compreender sua vida, seus sentimentos de todos os tipos. Aos treze anos, ele pensou pela primeira vez no que faria quando, dali cinco anos, deixasse a Casa de Santa Clara: ele iria velejar. Mas, claro, ao longo dos anos, essa opinião e esse desejo mudariam diversas vezes, influenciados por idéias e histórias. Mas até que chegasse o dia de partir, com uma decisão firme finalmente tomada acelerando seu coração, Lucas sentiria muitas vezes o peito vibrando. E ainda aos treze anos, ele descobriria a paixão.