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A Agridoce, o frio na barriga e pequenas frustrações.

Foi por volta da uma da manhã do dia 1º de junho de 2011, no palco do StudioSP, que dois veteranos perderam a virgindade mais uma vez em suas vidas. Pitty e Martin, a vocalista e o guitarrista da banda que leva o nome dela, subiram ao palco pela primeira vez como uma dupla, mal sabendo que estavam protagonizando timidamente uma noite que entraria para a história da música paulistana.

A vontade de falar e falar sobre a banda Pitty e sua trajetória é grande, mas agora é hora de lembrar daquela noite e daquela dupla de virgens. Aqueles dois que pegaram suas lembranças, arrependimentos e incertezas, temperaram com ansiedade e frio na barriga e foram encarar a própria fragilidade.

A dinâmica de Pitty e Martin é uma delícia de assistir. E é tocante. A intimidade, a familiaridade, o aconchego que um é pro outro. A asa sobre o sopro, o sopro sob a asa, como disseram. Foi uma surpresa ver como Martin é um menino. Doce, até. Em determinado momento, ele me olhou nos olhos. Ele fazia isso a cada alguns minutos, olhar nos olhos de alguém na plateia. E de repente foram os meus. Senti o frio na barriga, não sei se o dele ou por causa dele, e me refugiei nos ombros de Pitty, de costas para a plateia. Ela é meio irmã mais velha, mais cínica, mais forte. E foi quem mais falou, contando histórias que foram  o mais memorável da noite.

Ali, descobrimos que Dançando é quase literal, nascida de uma temporária perda de cinismo em uma tarde de domingo. Epílogos e Finais, como todos imaginavam, é perigosamente íntima, o que me assusta, de certa forma. 20 passos até continua um enigma (não acho que ela diz o que parece dizer), mas também continua sendo minha preferida. Foi um dos melhores momentos da noite, perdendo apenas para o cover de uma das melhores músicas do ano até agora, single daquele que é o melhor álbum já lançado em 2011 ao lado de – surpresa! – A Trupe Delirante. Estou falando de Não Existe Amor em SP, primeiro single do Nó Na Orelha de Criolo.

E aqui me permito uma divagação. O que fez do cover o ponto alto da noite foi o fato dos insuportáveis fãs sintomaticamente não conhecerem a letra e ficarem de boca fechada. Aquela galerinha estava no lugar errado, pelo motivo errado. Eles não estavam ali para assistir a apresentação intimista, quieta e intro que tinha sido prometida, mas sim pelo show, pela banda Pitty – que infelizmente tem os piores fãs que um artista como eles pode ter. O que, por sua vez, garante seu lugar na marginalidade cultural, mas sob intensos holofotes malhacionescos.

Mas no fim o que importa é que a Agridoce sangrou, e mostrou que é gente grande.

Com muitos sussurros e constantes gemidos que foram um charme a mais, a dupla comoveu com sua capacidade de entrega absoluta. Foi uma noite que me lembrou a primeira transa adolescente, aquela experiência fundamental tão complicada e assustadora, parecida com o escuro aos 4 anos de idade.

E assim como o escuro e o primeiro sexo, que uma vez enfrentados se tornam parte de nós, aquela noite ficará registrada aqui, e em mim, por tanto tempo quanto isto durar.

E eu vou saborear esse gostinho-título por todo o tempo que ele ficar.

12 comentários sobre “A Agridoce, o frio na barriga e pequenas frustrações.

  1. wow , senti um frio na barriga em ler esse post e relembrar aquela noite .
    obs : você soube descrever perfeitamente o que foi aquilo , que pra mim até o momento era inesplicável .

  2. Janaina, é a isso que me refiro sobre a marginalização da banda. E eu compreendo o preconceito. Produtos como a banda Cine e Restar são coisas pavorosas. E as crianças que curtem essas turmas também marcam presença em shows de famosos como Pitty, Fresno e etc. – embora estes sejam verdadeiramente artistas e não personagens para álbuns de figurinha.

    Eu recomendo MUITO que você dê uma chance a banda Pitty e a esse projeto Agridoce. Você vai se surpreender positivamente.🙂

    (Em tempo, eu também já reclamei sobre a banda Pitty antes: https://achlo.wordpress.com/2009/09/17/a-nova-priscilla/)

  3. Obrigado, Marcos.🙂 É realmente uma pena não ter acesso direto a certas coisas. E vale dizer que São Paulo hoje é como a Nova York dos anos 60-70. Um puteiro incendioso e irresistível.🙂

    (Estou escrevendo um pouco sobre isso…)

  4. Realmente foi um momento incrivel, uma noite surreal.. tão gostoso de ouvir…

  5. Parabéns e, antes, obrigado por compartilhar e fazer quem mora um tanto mais longe (como eu) sentir também o que pode ter sido esse show. Sou dos fãs mais “contidos” e menos coloridos de Pitty, rs. E concordo com a colocação sobre o público que acaba indo aos shows.

  6. Sou dos fãs antigos da Pitty e fico no meio termo dessa discussão.Talvez essa zona de conforto me beneficie,mas também é o lado de quem não se posiciona por talvez não saber onde ficar.
    Estive naquela noite e presenciei tudo aquilo.Também fiquei com raiva daquelas pessoas realmente desprovidas de qualquer senso de respeito,mas confesso ter um pouco de preguiça dos fãs desdeoprimeiroacorde da Pitty e que se acham tão melhores que a molecada…essa molecada paga as contas da banda e possibilitam a mesma a se aventurar em projetos ainda menos comerciais.É algo a se pensar…
    Quanto ao Agridoce,na época do show o bichinho ainda não havia me picado(sem trocadilho nenhum com a capa do disco),talvez estivesse num momento “feliz da vida” e ainda não tivesse ouvido como deveria aquelas canções e achado tudo tão romântico como vc divinamente descreveu e alguns outros amigos meus também sentiram.Por isso acabei prestando mais atenção no som que a dupla cismava em reclamar(e que vc não comentou no texto) e na molecada perdida e que eu (de longe) talvez estivesse fazendo parte,não pelo aprofundado conhecimento da banda que acredito ter o suficiente,mas por não ter levado minhas asas pra voar junto com eles…

  7. Oi, Cristiano. Um detalhe, para esclarecer: eu não tenho qualquer problema com os fãs mais novos da banda. Meu problema é com os fãs, como vc disse, desprovidos de senso de respeito – ou mesmo o mais puro e simples bom senso. Só isso. 🙂

    Sobre os problemas acústicos, realmente não comentei – senti que não precisava. Mas os citei. São os tais gemidos que foram um charme a mais.😉

    De qualquer forma, é muito bacana sua autoanálise. E vc tem razão quanto ao papel e importância desses fãs mais bobinhos – nunca discuti isso e nem farei. E até acho interessante que eles sintam tanta atração pela banda e sua discografia tão aquém dos gostos mais convencionais deles. Infelizmente, nada me tira da cabeça que a maior parte dessa molecada não gosta da “banda Pitty”. Como eu quis dizer no texto, eles gostam é da celebridade Pitty.

    Um abraço.🙂

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