midnight

Antes da Meia-Noite (Richard Linklater)

O terceiro ato de Antes da Meia-Noite é uma das coisas mais cruéis que assisti desde Namorados Para Sempre e o final da terceira temporada de Louie. E assim como o filme e a série de TV, é uma carpintaria em forma de roteiro: a longa conversa de Jesse e Céline em um quarto de hotel é uma montanha-russa emocional dentro de um labirinto com paredes de intimidade e chão de mágoas enlameadas. Chegando a espelhar os condenados e condenáveis George e Martha de Quem Tem Medo de Virgínia Wolf?, o casal aprisiona o espectador em uma discussão tão intensa que cada grito, sarcasmo e acusação parece uma agressão física.

Contudo, por mais doloroso que seja testemunhar esse momento, nós o aceitamos. Ele é fundamental e compensador por nos explicar porque revisitamos o casal nesse momento específico de suas vidas (e não apenas porque se passaram os agora tradicionais “nove anos”.) Afinal, se os dois filmes anteriores mostravam episódios fatídicos na vida do casal, este deveria cumprir a mesma função e apresentar um acontecimento.

E a transição para esse desfecho, ou seja, os dois primeiros atos, é um viagem de delícias, a dinâmica entre os protagonistas e as suas discussões são o mesmo prazer de sempre. Mesmo quando são puramente funcionais, como a conversa sobre a proposta de emprego de Céline, ou simples, como a série de debates durante um almoço que chega a incluir personagens de diferentes gerações para agregar pontos de vista – sobre o amor e as diferenças entre homens e mulheres. Só isso.

Porém, por mais gratificantes e até inspiradores que sejam alguns diálogos, nenhum deles evoca a mesma emoção ou os questionamentos dos encontros anteriores, como a doçura da conversa “telefônica” em um restaurante em 1995 ou o desabafo em um táxi em 2004. A perda de vigor é evidente, mas a aceitamos. Na vida, também perdemos o vigor para o cotidiano.

E eu aceitaria qualquer decisão de Richard Linklater, Ethan Hawke e Julie Delpy se eles tivessem até o fim a mesma coragem que tiveram até muito perto dele. O terceiro ato de Antes da Meia-Noite é uma das coisas mais cruéis que já testemunhei, mas uma vez iniciada a violência contra o espectador, eu a aceitei. Apenas para ser enganado por um momento final desnecessário e muito, muito desonesto. E isto eu não posso aceitar.

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