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A Bala na Agulha | Coisas de Meninos

Assisti A BALA NA AGULHA e COISAS DE MENINOS há alguns dias e não poderia estar mais feliz com a combinação de rimas e contrastes que encontrei entre as duas peças. De um lado, uma marcante homenagem de veteranos para veteranos que têm o palco no sangue e deram a alma para Arte; do outro, uma poesia juvenil sensível e viva para quem tem a Arte na alma.

Mas se fiquei encantado com a riqueza dessa combinação, eu não poderia estar mais triste por não ter ido assisti-las antes, já que ambas estão em suas últimas apresentações: Meninos fica em cartaz por mais duas semanas no teatro Viga (de 6 a 15/dez), enquanto Bala sobe ao palco apenas HOJE, sábado, e AMANHÃ, domingo, no Tucarena.

Sobre as peças:

Primeiro temos o nó na garganta que é, afinal, a tal da bala na agulha dos personagens da querida (e dama) Nanna de Castro. O tema-título é a mágoa, a amargura, a vergonha e a culpa guardadas, combustíveis que podem explodir uma vítima sem aviso, mas que precisam de certo tempo para amadurecer e ameaçar. Isto acaba tornando A Bala na Agulha uma obra para adultos, para homens e mulheres que já encontraram ou temem lidar com o fracasso ou a humilhação. Mas “para adultos” não significa inacessível para um público mais jovem, já que o texto ágil (e divertidíssimo) inclui referências modernas que fazem qualquer um se sentir no próprio mundo, enquanto o trio de atores em cena confere carisma e repulsa num equilíbrio ideal para fascinar o espectador em qualquer fase da vida. Eduardo Semerjian é, sem dúvidas, o grande destaque, brilhante ao construir personagens dentro de seu personagem em cenas que encantam o espectador-artista – ver um processo de criação é algo fascinante mesmo quando é falso. Não é muito fácil simpatizar com os personagens, por outro lado, e isto pode perfeitamente ser a intenção da obra, afinal, eles não deixam de ser arquétipos das nossas vaidades mais perecíveis e desprezíveis. E é aqui, para mim, que reside o maior valor e alcance dramático do texto.

E também temos a preciosidade de Coisas de Meninos, fantasia sobre uma juventude ingênua, mas nada inocente. O texto é do diretor e dos próprios atores (ou seja, meninos e homens que ainda vivem a juventude ou ainda se lembram bem dela), e o resultado encanta por conseguir conferir, simultaneamente, urgência e saudade aos conflitos e reflexões de seus personagens. O trabalho está longe de ser exclusivo para adolescentes e jovens adultos, porém, já que traz ideias filosóficas que podem ser muito apreciadas por um público mais velho, e a qualidade do texto é, em si, um presente particularmente admirável. Entre os melhores momentos, temos a perturbadora fantasia de que o ar expelido do pulmão de um afogado permite um suspiro de alívio aos vivos e a orgulhosa epifania de que a sequência do número Pi é uma régua da inteligência humana, tornando-se mais longa conforme evoluímos – o que me leva ao momento em que uma professora se deixa consumir e afundar pelo remorso em uma cena particularmente angustiante. Contudo, é justo dizer que a produção peca por se prolongar demais em algumas cenas ou não construir uma narrativa mais redonda e objetiva, e que seu maior equívoco é, sem dúvidas, não explorar mais o talento musical de seus excelentes atores. Entre eles, o destaque vai para o carismático Arthur Berger e seus monólogos, que consegue a proeza de se sobressair e brilhar mesmo quando tudo nos faz olhar para o outro lado.

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