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Looking – Primeira Temporada (HBO)

“Filtros do Instagram arruinaram tudo; eu não consigo dizer se esse cara é gostoso ou não.”

A primeira impressão sobre Looking é que se trata de uma série sobre sexo no mundo gay. Isso é proposital, é claro, considerando o público alvo principal, e nem chega a ser culpa da divulgação do show já que o próprio título da série (e de vários episódios) remete a cruising. Mas esta não é uma história sobre caçar sexo, talvez não seja sequer sobre procurar amor. O “looking” do título não é para “busca”, mas para “olhar”. E olhar de novo. Looking é sobre o equívoco da primeira impressão (inclusive a de acreditar que é uma história sobre sexo) e sobre a importância de dar uma outra chance.

Exibida pela HBO no inicio de 2014, a série vinha sendo encarada como uma versão gay de Girls, do mesmo canal, o que até lhe conferiu certa atenção do público, encantado com a primeira temporada do show de Lena Dunham. A promessa não poderia ser mais equivocada, porém, já que Looking não só traz personagens em momentos de vida completamente diferentes daquelas garotas, como discute temas muito mais sérios com uma maturidade impossível para o drama nova-iorquino.

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PRIMEIRO OLHAR

Com o tema construído desde a primeira cena e completamente montado ao fim do episódio piloto, fica estabelecida a segurança narrativa do criador e principal roteirista da série, o estreante Michael Lannan. Mas o momento mais alto do episódio, e que deixa claro as intenções do roteirista, é aquele que se passa em um restaurante, mostrando um primeiro encontro desastroso do protagonista Patrick.

Na cena, o rapaz que Patrick conhece mal é mostrado, já que a câmera insiste em ficar no protagonista e acompanhar a montanha-russa de emoções que ele experimenta: ansiedade, satisfação, insegurança e, no fim, decepção. Mais um potencial romance foi arruinado por pura impaciência. E é cada vez mais comum encontrar pessoas que só têm interesse em quem já está “pronto”, exibindo verdadeiro horror à ideia de talvez se responsabilizar pelo desenvolvimento de alguém. Mas podemos criticá-los? Com isso, Patrick é rejeitado, e ao mesmo tempo abraçado pelo espectador que, beneficiado pelo olhar da câmera, tem a chance de revisar o seu próprio julgamento sobre o rapaz (e sobre a série) lá no início do episódio.

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Ambientado em uma São Francisco nublada de outono, o drama se concentra em três amigos gays de idades bem diferentes. Dom é um quarentão sexy e sexual que está começando a lidar com a rejeição de seus alvos depois de uma vida de predador infalível. Augustín, artista plástico de trinta e poucos anos, se divide entre o trabalho por encomenda para artistas de verdade e o inicio de uma nova fase em seu namoro: morar junto. E Patrick, por sua vez, é o grande papel da carreira de Jonathan Groff. Mas falo mais sobre ele daqui a pouco.

OLHANDO AO REDOR

O melhor de Dom é sua química com a coadjuvante Doris, uma dinâmica deliciosa que se torna ainda mais interessante por demorarmos tanto para entender qual é a relação entre eles. Parecem irmãos, mas poderiam ser ex-marido e esposa. E o contrário também funciona.

O casal Augustin e Franklin tem certo charme por sua falta de harmonia, mas isso levanta mais perguntas do que constatações. Por que eles estão juntos? Estão realmente felizes? Foram morar juntos pela necessidade, por inércia ou porque se amam? Em que momento eles estão, são um casal que está começando agora ou que está prestes a terminar? Por que um desperta tanta insegurança no outro?

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O que nos leva de volta ao protagonista de Jonathan Groff, um jovem branco, rico, bonito e cheio de medos.

OLHANDO PARA DENTRO

Patrick é aquele tipo de rapaz que faz questão de se afirmar, sempre levantando temas e frases que lhe permitam comentar que é gay. Sem perceber, porém, que há uma diferença entre ser plenamente aberto, não tendo problema em se afirmar gay para qualquer pessoa, e ser incapaz de não afirmá-lo em qualquer que seja o contexto, chegando a forçar a revelação. O trabalho de Groff, contudo, jamais coloca Patrick como um sujeito supérfluo ou caricato, preferindo sugerir uma série de subtextos que aos poucos vão ficando mais nítidos.

Vindo de uma rica e bem-sucedida família de heterossexuais republicanos, Patrick certamente gastou imensa energia para ficar acima das expectativas dos pais, se tornando assim um jovem imensamente inseguro; mas a natureza e postura de seus pais os condena a uma insatisfação crônica com a vida, o que leva Patrick a nunca se superar. Se pensarmos que assumir a sexualidade é talvez seu único esforço que ele considera realmente bem-sucedido, é natural que sendo tão inseguro ele se prenda a tal detalhe para se afirmar na vida longe de casa.

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Mas a personalidade de uma pessoa gay costuma ser mais refletiva que as outras, o que faz Patrick expressar seus conflitos na dinâmica com outras pessoas. Sua mania de sair do armário, por exemplo, rima com o hábito de sempre apontar quando desconfia que determinado sujeito é gay. Mas vai muito além disso, como descobrimos quando ele começa a namorar o mexicano Richie.

Apesar da iniciativa de pedir o garoto em namoro (algo que parece ter feito apenas para mostrar que pode), Patrick tem vergonha dele, e Richie sabe disso. Assim, quando Richie força sua presença para ser apresentado a um colega bonitão de Patrick, o que vemos em cena são duas coisas: um gesto bobo e natural de ciúmes e também um desafio ao próprio namorado. Um teste no qual Patrick falha miseravelmente, já que chega ao desrespeito de colocar palavras na boca do namorado para tentar florear sua falta de ambição profissional.

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Um gesto patético, mas que é só uma amostra de como Patrick se comporta diante do nervosismo de apresentar Richie a sua família, especialmente quando descobre que o garoto tem um simples baseado no bolso.

OLHANDO PARA TRÁS

Após ouvir a um desabafo do filho, a mãe de Patrick conclui corretamente que ele é o único culpado pela sua briga com o namorado, e não ela, como ele dá a entender. Sim, ela pode ter sido responsável por ele ter aprendido a julgar tanto, mas isso não o exime da responsabilidade de aprender sozinho a ser um homem decente. Ela mesma aprendeu com os próprios erros e mudou seu modo de ver as coisas ao longo dos anos, mas ele continuou com o mesmo olhar prejudicado da juventude e esta culpa é só dele, ela diz – abrindo a bolsa e pegando um pouco de maconha medicinal; um detalhe que é muito mais eficiente do que todo o discurso, já que esbofeteia os preconceitos de Patrick e o força a olhar duas vezes para a mãe e para si mesmo.

A BUSCA

Looking não é uma série sobre sexo ou sobre romance. Liberdade sexual e sair do armário ainda são grandes desafios na vida de qualquer gay, tanto que estes são os maiores temas no Cinema e na TV do gênero, mas estes conflitos são apenas detalhes na vida de qualquer pessoa. O que a série faz é olhar além, enxergar mais fundo, analisar o que mais faz parte da nossa jornada individual e apontar seu farol para o que todos buscamos: nos tornar belos seres humanos.

Se há alguma expressão de busca incluída no título de Looking, é com certeza esta.

O resultado, veremos na próxima temporada.

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